Arquivo do mês: novembro 2013

IV Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

E lá se foi o quarto; lembro-me até hoje quando a ideia do primeiro foi divulgada. No início, alguns tinham dúvidas; no início , alguns duvidaram que pudesse dar certo; eu mesmo não estive no evento (e como me lamento por isso; ah, se o arrependimento permitisse fazer a roda girar ao contrário…), mas ele aconteceu, graças ao trabalho de alguns visionários (presentes neste evento, três vezes louvados sejam seus nomes). E agora chegamos ao quarto; acho que não há mais dúvidas sobre ele e seu objetivo. Cada ano teve sua tônica, cada ano teve seu estilo particular, mas o espírito sempre foi o mesmo: agregar, conhecer, trocar, ensinar, aprender, plantar e deixar florescer. O EBDRC já fincou suas raízes, e os seus ramos crescem mais e mais em direção aos céus.

O evento desse ano foi lindo. Foi emotivo. Foi agregador. Como se os ventos dos encontros anteriores soprassem sussurrando seus segredos, o que havia de forte neles estava presente, ainda que com algumas tristes ausências, tanto de pessoas que gostaríamos de rever, quanto de pessoas que gostaríamos conhecer. Mas o evento também trouxe novos membros à nossa comunidade, que são “novos” apenas no sentido de participar do evento pois já tem raízes fincadas no cenário druídico brasileiro, apenas para abrilhantar o evento. Sua força juntou-se à nossa força, e todos saímos de lá com a sensação de ser o bosque sagrado, cada qual sendo o axis mundi, participando da ligação entre os Três Mundos sagrados. E o público, ah, o público, é tão difícil chamar de “público”, pois o evento é feito por todos, e todos os presentes agregaram sua própria força e energia; fico muito feliz em ver tantos rostos novos, e espero que essas sementes floresçam e embelezem ainda mais a nossa crença no futuro.

No evento deste ano aprendemos como  reconhecer o Sagrado expresso no corpo, como uma representação microcósmica da própria Terra, e a ativar as propriedades dos Três Caldeirões sagrados no corpo; honramos aos ancestrais da Terra; aprendemos com emoção como nos relacionar com o Deus Druida, o Pai de Todos, o cultivador, o guerreiro, o solar, e cantamos em sua honra; dançamos e rodopiamos em honra às terras de origem de nossa tradição (e digo novamente, dançar é algo extremamente libertador e divertido; ainda ouvirão muitas reclamações minhas sobre isso, mas é só em tom de brincadeira mesmo…); aqueles que optaram por sentir o calor do ventre da Terra o sentiram, e aqueles que optaram por interiorizar a caminhada do espírito, puderam fazê-lo; aprendemos a trabalhar nossos sentidos para guiar nossas barcas às Ilhas Abençoadas; aprendemos que o homem nasce da Terra, e seu destino é à Terra retornar para novamente nascer, pois a vida ocorre em ciclos; aprendemos que o Druidismo não ocorre apenas em dia de rituais, ou apenas quando se está em meio às florestas, mas ele deve ocorrer em nossas casas, nossos lares, nossas vidas; aprendemos a criar o talismã da Senhora das Três Chamas, protetora do lar e da família, aprendemos a observar o mundo sutil, aprendemos que o caminho dos Antigos envolvia a luta e o combate; celebramos, entre pessoas e espíritos, e aprendemos como se relacionar com aqueles ao nosso redor, mesmo que não visíveis; aprendemos que não é apenas dos sacerdotes que nossa crença vive, e que todos são necessários para mantê-la forte.

O Druidismo sempre foi múltiplo, sempre foi mutante, sempre foi adaptável; e assim ele é no Brasil. E dessa forma ele vai crescer, enquanto houver pessoas dispostas a trabalhar umas com as outras, independente das diferenças em suas linhas de pensamento. Como o Druida do meu grupo costuma dizer, “uma floresta não é formada por um só tipo de árvores”; esse ensinamento é verdadeiro, e o exemplo é o próprio evento, que cresce a cada ano, englobando mais árvores diferentes ao nosso bosque. Que os velhos tempos de conflito e críticas fiquem para trás, não mais como uma pedra no meio do nosso caminho, e que essa pedra seja coberta pelo musgo das eras e o pó do esquecimento. Para aqueles que olham para frente, nos vemos ano que vem em Recife!!!

Anúncios
Categorias: Eventos | Deixe um comentário

Sobre a Mitologia Britônica: A Korrigan

Os Celtas sempre viram a natureza com muito respeito e reverência; as florestas de seu território eram motivo de louvor; podiam ser locais de culto, como os romanos nos dizem, ou podiam ser locais de louvor, como a poesia do Ciclo Feniano nos mostra, pois os Celtas (e sua casta erudita, os Druidas), dentro do seu pensamento animista, sabiam reconhecer os valores espirituais dos bosques, que eram a morada de Deuses, espíritos e fadas. Mas se as florestas eram  a morada das fadas, isso não quer dizer que fossem lugares completamente seguros; na verdade, uma parte do respeito e da reverência que eles tinham por elas vem do temor que nutriam pelo “Belo Povo”; muitas das fadas, dentro da cultura celta, tinham ligações diretas com as deidades desse povo, podendo ser originalmente Deuses na sua concepção original, como é o caso de Áine, Fionnbhearra, e Gwynn ap Nudd. Outras eram espíritos guardiões das florestas e de outros pontos naturais, vivendo próximas à população campesina. Mas sempre eram fruto de temor, pois seu temperamento era mutável como a natureza, e algumas eram abertamente temidas pelo povo. Um dos exemplos era a Korrigan, uma conhecida entidade que era conhecida na Bretanha.

Oficialmente, não temos como identificar se a Korrigan era originalmente uma divindade cultuada, ou um espírito da floresta que tinha por hábito atacar aos mortais (como Fionnbhearra). Na verdade, é difícil definir a Korrigan, ou mesmo dizer que ela é apenas “uma”. Na verdade, é provável que o nome se refira a dois tipos de seres; em bretão a palavra korrig significa “gnomo, duende”, enquanto korr significa “anão”, mas essa classificação não se aplica a todas as lendas das Korrigane, embora se aplique a algumas delas. De fato, em algumas definições, a palavra é usada para haver uma distinção dos Nains (“anões), enquanto outras igualam os dois tipos, principalmente nas regiões de Morbihan  e Finistère; o folclore europeu sobre os Changeling (crianças que teriam sido trocadas por crianças fadas durante a noite) atribui aos Korrigane a troca dos bebês, e uma criança considerada tendo origem no Outro Mundo convivia com o apelido de “pequena Korrigan”. Mas essas não são as Korrigane a que me refiro hoje.

As Korrigane de que eu falo são espíritos antigos que a habitam a floresta de Brekilien (a Brocéliande do mito arthuriano); tão belas e poderosas que são capazes de dominar o coração do mais fiel dos homens, e fazer com que ele se apaixone perdidamente pela donzela com cabelos “como fios de ouro,” e lábios risonhos, mas com ameaçadores olhos vermelhos. Em outras vezes, elas podem surgir como uma bela corça branca, pronta para atrair caçadores e cavaleiros para a floresta. Elas costumavam sempre ser encontradas junto às fontes e poços da floresta, e sua beleza é tamanha que afasta mesmo a escuridão, seja do dia ou da noite; em muitas lendas, como a do “Senhor de Nann”, é dito que as Korrigane exigem daqueles que se aproximam desses poços e fontes o casamento, em troca da permissão para deles beber. Aqueles que bebem sem a sua permissão estão fadados a morrer em cerca de uma hora, mas por vezes elas podem trazer esse destino mesmo àqueles que simplesmente se recusam (nesse caso a morte viria em três dias); algumas versões ainda dizem que elas seduzem homens para afoga-los em seus poços . Os camponeses dizem que ela (ou elas; de acordo com um antigo poema bretão, Ar Rannou, existem nove delas, “que dançam , com flores em seus cabelos, e vestidos de linho branco, ao redor da fonte, sob a luz da lua cheia”) é uma antiga princesa pagã da Armórica, e que foi banida para a floresta pela chegada do cristianismo, ao qual ela negou se converter; outros dizem algo parecido, que elas eram sacerdotisas pagãs que recusaram a cruz.

As ligações da Korrigan com a antiga espiritualidade britânica é clara; o mito das nove sacerdotisas sagradas é encontrada tanto no mito galês (como as nove donzelas do Outro Mundo cujo sopro acende a chama que aquece o Caldeirão no Preiddeu Annwn) e na pseudo-história das descrições romanas (como na descrição de Pomponius Mela, das ilhas Cassiteridas, habitadas por nove sacerdotisas virgens, com dons de cura e divinação); a crença em um conjunto de espíritos femininos que viveria no isolamento é um padrão comum na mitologia céltica. Vale lembrar que elas recusam a conversão cristianismo e por isso são banidas, o que pode indicar que elas pertencem ao passado selvagem, viventes na floresta e que não tinham mais lugar no mundo cristão que surgia (de fato, é dito que elas odeiam padres, igrejas, e a Virgem Maria). Em algumas lendas bretãs é dito que elas podem predizer o futuro (fornecendo mais uma ligação com a descrição de Pomponius Mela), em outras elas roubam crianças e trocam por filhos das fadas, mas nitidamente seu papel é no paganismo anterior. A sua ligação com os poços e fontes, ambos lugares sagrados para o mundo céltico, é uma pequena evidência de uma possível sacralidade anterior na figura das Korrigane, pois são pontos de oferenda, bem como entradas para o Outro Mundo; afogamento é uma das formas que conhecemos de sacrifício dos Gauleses, e as lendas podem guardar um resquício dessa prática, ou mesmo sugerir a fúria de um espírito antigo que reclama sua parte deste mundo quando esta se aproxima. A ligação com a morte é tamanha que suas lendas sempre dizem que elas não saem de perto de suas fontes e poços, a não ser no Samhain (a noite do dia 31 de outubro), quando elas se aproximam dos dólmens e menires para espreitar.

A lenda das Korrigane pertence ao mundo do mito britânico; talvez não fossem deidades no sentido estrito da palavra, mas eram espíritos respeitados e temidos no mundo antigo. Ainda que normalmente pareçam hostis à humanidade, em algumas poucas lendas há a sugestão de contato benéfico com elas. Elas habitam os lugares sagrados da nossa tradição, dólmens, menires, fontes e poços sagrados. E são um eco do passado pagão que resistiu (voluntariamente, de acordo com a lenda) ao cristianismo; por isso, merecem nosso respeito, e pelo menos uma lembrança delas junto aos espíritos da natureza no Samhain; porque

E korole nao c’horrigan,
Bleunvek ho bleo, gwisket gloan,
Kelc’h ar feunteun, d’al loar-gann.

(“Dançam nove Korrigane,

Com flores nos cabelos, de branco vestidas,

Ao redor da fonte, sob a lua cheia”)

Villemarqué, Barzan-Breiz

Categorias: Mitologia | 4 Comentários

Resenha: Aírechtas de Primavera 2013

Image

No dia 05 de Outubro de 2013  foi realizado o segundo ciclo de palestras do Aírechtas: Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba. Como a primeira edição, realizada no outono deste mesmo ano, o evento primou pela organização impecável, sempre mérito do grupo Fína na Dairbre; o evento está se tornando a grande referência do Druidismo em Curitiba e sempre atrai pessoas de outros estados, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Dessa vez não foi diferente; e mais uma vez esse Bardo partiu para a bela (e já tão querida) cidade de Curitiba para participar desse evento, novamente a convite do Fíne na Dairbre Protogrove ADF, que sempre me proporcionam essa honra, além de  serem anfitriões de primeira categoria, verdadeiros adeptos da virtude céltica da Hospitalidade. Agradeço  aqui novamente à Marina Holderbaum e ao Erik Wroblewski pela recepção, abrigo e boa conversa, como sempre.

Image

Palestra da Marina

O evento foi realizado no Solar do Rosário, no Centro Histórico de Curitiba, um lugar muito bonito e aconchegante, e que acolheu a todos com muita honra. O equipamento estava perfeito, mais um mérito da organização. O público foi chegando aos poucos, mas logo todos estavam no local; e o evento começou sem grandes atrasos. A primeira a falar foi a anfitriã e organizadora, Marina Storino Holderbaum, a querida Enbarr de quem a conhece do meio druídico, do Fíne na Dairbre, com uma oficina sobre Meditação Druídica, enfocando as técnicas de meditação usadas por grupos de orientação Reconstrucionista, exemplificando claramente as diferenças entre as diversas formas de meditação, como entre a Oriental e a Ocidental, e usando exemplos da mitologia gaélica como base para demonstrar como poderia funcionar o processo de meditação dos antigos Fíli da Irlanda; uma palestra realmente muito proveitosa. Após o final da palestra, com direito a um bate-papo sobre o tema, veio a vez deste que voz escreve subir ao palco; como foi minha palestra, não vou me deter muito sobre ela, deixando apenas o assunto (“Mitologia Celta e a Ligação com a Natureza”),  e um pedido de desculpas por ter me estendido MUITO no tempo da palestra; apesar de eu sentir que a mensagem tenha sido passada a contento. E mesmo com a minha demora, havia uma palestra genial por vir: José Paulo Almeida, da Clareira Coré-Tyba (Curitiba) e do Caer Ynis (Florianópolis), veio com um tema que hoje ganha cada vez mais relevância no Druidismo moderno e no Reconstrucionismo, “Entre a Fé e a Espada: Vivendo a Fé Celta no Caminho do Guerreiro Poeta”. Certamente os Deuses inspiram esse homem, pois sua palestra não beirou a perfeição, ela a atingiu com louvor; JP é um dos grandes articuladores dos diversos movimentos druídicos e reconstrucionistas do Brasil, talvez um dos membros essenciais de nossa comunidade hoje, e a mensagem que ele passou foi marcante: em um meio com tantas pessoas buscando seguir um caminho sacerdotal, precisamos de mais “guerreiros”, de mais pessoas que estejam dispostos a nos defender com as armas que o mundo moderno exige.  Precisamos de mais homens e mulheres dispostos a encarnar o espírito dos antigos Fianna nos nossos dias. De pessoas que sejam guerreiros, não pelo prazer da discussão e disputa, mas pela defesa de nossa tradição. Uma palestra realmente memorável.

Image

Apresentação do Thunder Kelt

Após a palestra do JP, partimos para um almoço coletivo em um pub irlandês próximo, aproveitando um dia quente e agradável em Curitiba, e desfrutando da beleza do seu Centro Histórico; um almoço agradável, com conversas sobre assuntos diversos, como tem de ser entre amigos. Mas logo voltamos ao Solar para continuar o evento, já com as barrigas cheias. E começamos com um belo show da banda local Thunder Kelt, que conta entre seus membros Leandro MacLorihem, da Brathair na Fiachán Gorm, e uma participação especial do incrível vielista Raine Holtz; fomos presenteados com um ótimo set canções típicas da Irlanda, Escócia e Galícia. Com todos novamente “no clima”, foi a vez de Ana Elisa Bantel subir ao palco, com mais uma palestra fantástica, falando sobre o papel da mulher na sociedade céltica; usando habilmente exemplos da mitologia Ultoniana, essa hábil historiadora desmistificou muito do papel feminino na sociedade céltica antiga; o tema já foi abordado de muitas formas dentro do nosso meio, mas a Ana merece aplausos, não só pela abordagem atual, mas também pela maneira que ela organizou os tópicos, usando uma personagem feminina para representar um diferente aspecto do papel feminino na sociedade tribal irlandesa. Uma palestra para aplaudir de pé. Então veio o historiador Erik Wroblewski, do Fíne na Dairbre, com mais uma palestra para ficar na memória, pois desmistifica muitas ideias preliminares sobre a cristianização da Irlanda; de fato, Paganismo e Cristianismo nas Fontes Literárias da Irlanda Tardo-Antiga desfez vários mitos a respeita da entrada do cristianismo na Irlanda, o papel de Patrício, e o convívio entre as duas religiões na ilha durante algum tempo; por trabalhar com fontes sempre atualizadas (como é normal para alguém de abordagem acadêmica), Erik pode falar com propriedade sobre o assunto, e demonstrou com grande quantidade detalhes como o cristianismo se assentou gradualmente na Irlanda antiga; no mínimo, memorável. O evento se aproximava do final, mas havia ainda um workshop a ser feito, e ele veio com  a organizadora Marina Holderbaum, falando sobre a confecção de oferendas votivas para rituais; Marina tem um dom artístico raro, além de uma base de estudos rara, o que gerou um workshop  apreciadíssimo por todos, inclusive com  uma discussão bastante longa e elucidativa sobre a diferença entre oferenda e sacrifício; admito que já estou fazendo meus testes aqui com o que aprendi lá. E esse workshop fechou o evento com chave de ouro, deixando com a todos com gosto de “quero mais”.

Image

Palestra Erik Wroblewski

Após o final do evento, partimos para uma noite de celebração entre amigos, conversando animadamente sobre diversos assuntos novamente; o clima era agradável e amigável, e todos nos divertimos muito. Agradeço de novo a todos os organizadores, aos grupos druídicos de Curitiba por estarem criando uma cena tão maravilhosa na sua cidade (de longe a cena druídica que mais cresce no nosso país), aos amigos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul presentes, e à cidade de Curitiba por me receber novamente; é sempre uma honra receber o convite, e sempre faço o melhor para corresponder às expectativas. E como é de costume, eu sempre volto com mais do que fui (fora o conhecimento e experiência adquiridos), e agradeço aos meus amigos, os anfitriões Marina e Erik, pelo presente recebido, a muda de carvalho, que já está alojada confortavelmente em casa. Sláinte, a chairde!! Até a próxima!! Para a comunidade druídica nacional: nos vemos no EBDRC!!

Categorias: Eventos | Deixe um comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.