Uma Caminhada Pelo Meio Druídico Brasileiro: Acertos, Erros e Lições

Lembro-me bem de quando entrei nesse meio; talvez não faça tanto tempo assim, já que as memórias são tão nítidas. Mas me lembro de quando era uma pessoa bem mais jovem do que sou hoje, sem nenhum dos pelos grisalhos que hoje despontam pela minha barba, e que já era um grande admirador e pesquisador informal da cultura céltica; lembro-me de quando descobri no Brasil tentativas de continuidade da espiritualidade desses povos antigos (e meu primeiro grupo, Brigantia, talvez tenha sido o meu primeiro erro; ou talvez meu primeiro aprendizado), o que me surpreendeu em um primeiro momento, uma vez que apenas conhecia as iniciativas dos países anglófonos (principalmente a ADF e a OBOD). Naquela época o Druidismo no Brasil era muito diferente do que é hoje; existiam poucos grupos, alguns ligados à ordens druídicas do Renascimento, mas tudo era mais isolado, havia pouco contato e intercâmbio. Entre grupos voltados para vertentes mais recentes do Druidismo, de escola norte-americana e britânica, o contato existia, mas muito mais esporádico, e o contato ocorria principalmente pelas velhas listas do yahoo; as lideranças eram outras, os referenciais que o Druidismo tinha no Brasil eram outros. De alguma forma, tenho muita saudade daquela época; foi um período de puro aprendizado, de descoberta, que abracei com tudo o que podia.

Mas claro, a Roda gira, e nada permanece a mesma coisa. O final da denominação druídica (a ODB) ao qual eu havia me afeiçoado coincidiu com a popularização das redes sociais no Brasil (no caso, o Orkut); e isso tudo trouxe uma revolução. Por um lado, o final da ODB trouxe uma cisão dentro de seus membros, que precisaram encontrar seus próprios caminhos. Eu permaneci com alguns membros de São Paulo, pessoas muito mais inteligentes, experientes e sábias do que eu jamais fui. Com eles eu recebi diversos ensinamentos, fontes de pesquisa, aprendizado,e experiência. Essa iniciativa logo recebeu um nome, o Projeto Ramo de Prata, e foi a continuidade literal do que a ODB era; pelo menos para mim, uma vez que continuou o processo de aprendizado daquela época. Mas os tempos estavam mudando, e as redes sociais estavam aproximando a diversos segmentos do paganismo brasileiro; a popularização do movimento Reconstrucionista reaproximou dois ramos separados da ODB, e o primeiro documento sobre ele no Brasil foi criado em colaboração. Os recons também se aproximaram dos grupos ligados às expressões mais recentes do Druidismo, principalmente de influência britânica, mas também alguns de linhagem druídica francesa se aproximaram; eu costumo chamar essa época (privativamente) de Aurora do Druidismo no Brasil, pois não houve uma época igual até então. Os grupos de São Paulo começaram a se encontrar e interagir (ok, tivemos um empurrãozinho sulista para isso), e nos tornamos amigos a ponto de não apenas celebrarmos juntos, mas de por vezes nos encontrarmos em pubs e restaurantes apenas para confraternizar e bater papo sobre a vida. O nosso movimento começou a se organizar, e frutos disso são vistos até hoje; se hoje existem o CBDRC e o EBDRC, bem como o contato constante entre diversos grupos, ele se deve a esse momento; aliás, muitos grupos só nasceram graças a ele, quando o intercâmbio, ajuda, e troca de informações se tornou mais intensiva. Nem todos participaram de todos os momentos dele, alguns estiveram fora, outros se afastaram por polêmicas desnecessárias, mas muito do que o Druidismo brasileiro é (e ainda pode ser) vem dessa articulação, que pavimentou muitos dos caminhos pelos quais andamos.

Mas esse texto não é sobre o Druidismo; é sobre a minha caminhada pessoal por ele. E o que ocorreu comigo durante esse tempo? Nos momentos iniciais eu ainda mantive a mesma posição de antes: era um aprendiz, um estudante. Mas é natural que você queira apresentar alguma opinião quando o seu conhecimento e envolvimento cresce, e muitas opiniões foram apresentadas por mim. Boa parte delas foi bem recebida, o que gerou perguntas, que geraram mais pesquisa, mais respostas e mais opiniões. Como membro do movimento Reconstrucionista (do qual sempre serei um dos pioneiros no Brasil, mesmo que minhas opiniões tenham mudado muito desde então), sempre embasei bem meus estudos, e sempre tentei manter a coerência nas minhas posições e colocações; ao contrário do que muitos pensam, minha visão do Reconstrucionismo sempre foi de ‘colocar os pingos nos “i”s’, de esclarecer o que era e como era, mas nunca de restringir o que é (ou como é). Passado é passado, presente é presente, e embora eles se misturem bastante, a Roda tem que girar e não podemos nos prender a isso. Mas graças a tudo isso fui chamado (convidado) a ser mais do que um estudante, mas a ser um daqueles que traria mudanças à nossa comunidade; e aqui não posso dizer com certeza se cometi erro ou acerto. Fui convidado por uma pessoa muito querida a coordenar um grupo de estudos com enfoque reconstrucionista; aceitei por acreditar que poderia fazê-lo, que meu conhecimento era o suficiente. Estava errado; não era, nem de perto, o suficiente.Fui convocado por diversas pessoas a participar da eleição do primeiro triunvirato que trabalharia pelo CBDRC; aceitei com relutância (entreguei minha candidatura no último dia, pelo que me lembro), apenas para que houvesse de fato uma eleição, pois haveria apenas uma nomeação compulsória dos candidatos até então. Aqui acredito que possa ter acertado, pois pude conhecer melhor o trabalho de pessoas verdadeiramente comprometidas com o Druidismo, com a liderança, sabedoria e conhecimento. Após isso fui convidado a fazer parte da primeira Diretoria eleita do CBDRC, e novamente aceitei, honrado pelo convite; e aqui talvez eu tenha errado, pois diversos fatores (muitos dos quais por minha culpa) atrasaram o andamento do processo do Conselho.

Parágrafo particular merece o Ramo de Carvalho; hoje ele é um motivo de orgulho, e se torna cada vez mais forte. Mas se eu acreditava que apenas o conhecimento que eu tinha na época era o bastante para manter o grupo, logo aprendi que não. Eu possuía algum nível de conhecimento histórico e antropológico, mas pouco de aspectos fundamentais à espiritualidade: cosmologia prática, filosofia prática, espiritualidade prática, aquilo que as pessoas precisam para carregar a crença consigo. A história é muito, mas não é tudo; e não vivemos no mundo da história, vivemos no mundo atual. Se você tem problemas em se adaptar a ele, você se torna irrelevante; e acredite, quem lembrará de seus nomes com respeito, quem fará o brinde em sua homenagem, quando seus ossos estiverem sob a terra e você tiver colecionado inimigos, rancor, ou apenas sido ignorado pela sua falta de competência de trazer relevância à sua fé no mundo moderno? É aqui que temos que fazer a diferença, nessa época, e não importa o quão diferentes as pessoas são dos celtas antigos, é a elas que temos de falar, e só com elas podemos fazer a diferença. Assim, o Ramo de Carvalho enfrentou tempestades (por motivos pessoais também, não nego), e por diversos momentos me perguntei se havia um motivo para ele continuar existindo; mas os Deuses me mostraram que sim. Quando ele estava na pior crise da sua história, veio a melhor turma-semente até então (a terceira), cheia de pessoas incríveis, inteligentes e comprometidas. Por elas (e pelos remanescentes das primeiras) eu não tinha como desistir. O Ramo veio se modificando desde então (e vai se modificar muito mais em breve), abandonando a sua base reconstrucionista (a não ser como metodologia de estudos, que é o que o Reconstrucionismo é, no final das contas) e abraçando a sua influência druídica), e alterando os seus objetivos primários, e se tornando mais forte. Ainda há o que mudar, há o que melhorar, mas tudo indica que vamos na direção correta.

Nesse meio tempo o Druidismo continuou se movimentando, o espírito fraterno daquela época de movimentação inicial diminuiu, embora tenha permanecido entre os grupos que se irmanaram naquela época; pessoas novas surgiram, buscaram seu lugar, pessoas antigas ressurgiram, tentaram a mesma coisa, nem sempre com coerência ou respeito pelo trabalho que tinha sido feito; grupos nasceram, grandes promessas surgiram no horizonte, apenas para se apagar quando os mesmos grupos sumiram, alguns por se dispersar, outros apenas por caírem na irrelevância criada por suas próprias atitudes. E erros e acertos foram feitos, dentro e fora do Ramo de Carvalho; mas só então eu admito qual foi o meu maior erro: o meu erro foi acreditar que sabia o suficiente quando não sabia, e ter trabalhado tanto (tanto pelo Ramo quanto pela comunidade druídica) quando deveria ter continuado estudando. Hoje o Ramo de Carvalho e o CBDRC são minhas prioridades druídicas, mas não apenas como coordenador, instrutor, gestor; hoje o Druidismo é, novamente, uma fonte de estudos para mim. O meu erro, o maior deles, foi ter parado de estudar para ensinar; hoje eu entendo que preciso de ambos para um trabalho mais forte e honesto dentro do Druidismo. Esse texto não tem um fim, pois minha caminhada não terminou; na verdade, ela recomeçou. Eu ainda sou Wallace Cunobelinos, Bardo e coordenador do Ramo de Carvalho; mas hoje eu reconheço novamente que sou também um aprendiz.

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