Sobre Forjar Uma Espada…

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Quantas espadas foram forjadas? Quantas espadas se bateram contra escudos e resistiram a seguidas batalhas? Quantas espadas se quebraram, se dobraram, se mostraram inúteis para os seus donos? Todas elas foram criadas como espadas, mas todas elas mereceram ser chamadas assim? O quão bem criamos essas espadas? E será que realmente soubemos forja-las? Quais dessas espadas serão lembradas pela eternidade, imortalizadas em lenda e conto, tais como Excalibur e Kaladwulch, como Gram e Nothung? E quais não passaram de adornos e enfeites caros para seus donos?

A espada deve ser forte, isso é fato; mas primeiro deve ser flexível. Engana-se aquele que acredita que uma espada deve ser inflexível desde o início. Isso só vale para espadas feitas por outrem, compradas ou recebidas como presentes, e que devem ser utilizadas usando as técnicas previstas por aquele que a forjou. Uma espada recebida pronta não deve ser forçada mais do que o esperado, nem pode ser demasiadamente decorada sem ser danificada; ela veio pronta e seu uso deve ser respeitado, não deturpado por aquele que a recebe, de outra forma ela se quebra ou se torna inútil, uma decepção para ambos. Se uma espada recebes, conheça-a, não leve-a além dos seus limites, e não tente transforma-la em algo que não é. Se ela falhar, há uma boa chance de que você não a conheceu bem.

Resta-nos então forjar nossas próprias espadas; e aqui retornamos ao que foi dito: ela não é rígida e inflexível desde o início. A espada precisa ser forjada, ou nada será além de um pedaço de metal que de nada servirá. Ela deve ser moldada, aquecida e feita moldável pelo fogo, elemento divino dos Deuses, destrutivo e inspirador; moldada pelos golpes de martelo, da habilidade e da inspiração do artesão; endurecida pela água fria, elemento do fluxo e do aprendizado. E esse processo deve se repetir mais e mais vezes, antes que a espada esteja pronta; engana-se aquele que acha que a primeira forja é a definitiva. A espada é feita e refeita, é tornada melhor, com maior balanço, equilíbrio, resistência. Ela deve ser eficiente e equilibrada antes de ser bela ou assumir a sua forma definitiva, que nem mesmo é definitiva; pois, se ela é uma boa espada, por muitas batalhas passará, e novas forjas e novos gumes terão de ser feitos. A espada pode ser resistente, mas ainda está em transformação constante; ao menos as melhores, pois as piores simplesmente se quebram.

Nunca despreze o conhecimento ao forjar uma espada; nunca se torne uma cópia do ferreiro original, pois sempre será uma cópia mal-feita. Você é um ferreiro do mundo antigo? Aprendeu tua arte com o próprio Gobannus? Então não tente sê-lo; não pense que o conhecimento do ferreiro antigo é mais válido do que o conhecimento do ferreiro atual; aprenda-o, aperfeiçoa a arte, torna tua espada melhor. O passado deve servir de inspiração, não de correia; aquele que se prende apenas à técnica aprendida, sem aprimora-la pela inspiração e pelo próprio conhecimento, faz com que ela se torne como água turva, imprópria para o uso, e envergonha o mestre original por não saber leva-la adiante. Mestres não criam discípulos para serem suas cópias, pelo menos não os bons; mestres criam discípulos para que sua arte perdure, e seja levada a níveis mais altos.

Belos ornamentos tornam uma espada nobre, mas nunca devem ser mais importantes do que o seu corpo, o espírito da lâmina. Se a espada é desbalanceada ou mal-forjada, teus cabos de marfim incrustados de madrepérola e tua guarda dourada são apenas um chamariz de atenções indesejadas. De nada valem as runas ou sinais místicos gravados em uma lâmina se feitos apenas para mostrar a perícia do artesão ou riqueza do dono; elas só são válidas, verdadeiras bençãos dos Deuses, se incrustadas na sua forja, vindas do mesmo fogo da inspiração que o ferro e o aço que sofreu os golpes do malho. Nem a mais bela espada dos forjadores do Daguestão é feita priorizando a beleza mais do que a confiabilidade; caso contrário não seriam espadas, seriam enfeites.

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Alguns buscam criar novas ligas para suas espadas, misturando diversos materiais; esse processo não deve ser desencorajado, mas deve ser observado com cuidado. É através da mistura que o ferro se torna aço, o casamento alquímico que faz a espada mais forte e eficiente. Mas nem toda a mistura terá o mesmo resultado; observa a espada e observa as tuas necessidades. Se acredita que um novo casamento alquímico é necessário, testa-o e descobre se é funcional; nem sempre o será: se mistura o chumbo ao ferro, torna a espada pesada e desbalanceada, se usa por demais o cobre ela pode ser maleável demais. Qual mistura é realmente necessária e qual não? Buscas a criação do aço damasco ou o retorno ao bronze? Pesar os prós e os contras nos traz diferença entre a criação da espada mais forte e a quebra na primeira batalha.

Mais do que tudo, voltemos ao começo; se tua espada está pronta e forjada, ornamentada e em uso, isso não é o fim. Ela deve ser cuidada, polida, guardada, afiada constantemente e reforjada quando as marcas do uso forem grandes demais. Nem a espada é um objeto imutável, ela está em constante formação. Espadas que foram criadas sem que esses conselhos sejam seguidos podem falhar na primeira batalha, então é melhor que sejam apenas ornamentos sem pretensão de seriedade ou ofertadas aos Deuses. Mas aquelas que foram forjadas e mantidas adequadamente prevalecerão pelas eras.

Assim o é com as espadas; mas não apenas com elas.

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Uma opinião sobre “Sobre Forjar Uma Espada…

  1. Gaesum

    Simplesmente fantástico! Um texto agradável e rico em símbolos, tal qual os mestres de outrora.
    Sua Inspiração mostra que, aceitando ou não, você é um herdeiro espiritual dos Bardos galeses.
    Meus parabéns!

    Gaesum

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