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Sobre barddkunvelin

Somente eu. Mas o que sou já é complicado o bastante. Mas todo mundo é assim no fundo. Por isso sou somente eu, e não preciso me preocupar em ser todo mundo.

Os Caminhos da Alma

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Nascer. Crescer. Viver. Morrer. Esse ciclo natural da vida é bem conhecido por todos. Todos passaremos por ele em algum grau e nenhum de nós escapará do seu último estágio. O que ocorre após ele é o grande mistério da humanidade. Há algo no além-vida? Creio que todos os que lerão esse artigo acreditam que sim, afinal, estou falando principalmente a um grupo de pessoas espiritualizadas. Mas no mar de crenças que existem para a humanidade a esse respeito, há alguma correta? Da crença abraâmica na existência do Inferno e no Paraíso dos escolhidos até a ideia budista e hinduísta na evolução da alma até a libertação do ciclo de encarnações, o mundo possui uma quantidade enorme de ideias sobre o que ocorre com o nosso “eu espiritual” no pós-morte. E alguma delas está mais correta que a outra? Não podemos afirmar com certeza, mas talvez cada uma delas esteja correta de acordo com os ditames de sua própria crença. Iremos nos aprofundar nisso ao longo do artigo, mas por enquanto basta dizer que toda espiritualidade vem carregada com um conjunto de valores éticos, morais e filosóficos que determinam o tipo de pessoa que o devoto deve ser. Se o devoto estiver fiel aos valores de sua espiritualidade, ele provavelmente atingirá o caminho almejado.

Espiritualidades (ou religiões, como preferirem) não são imunes a diferenças de interpretação, contudo; usando o cristianismo como exemplo, ainda nos seus estágios iniciais de conversão na Grã-Bretanha, um dos seus missionários, Pelágio, pregava uma forma de sua religião que não seria facilmente reconhecida por nenhuma das entidades representantes da fé cristã hoje. De acordo com Pelágio, o ser humano (e toda a Criação) havia sido criado por intermédio do amor de Deus, e portanto não havia como ser inerentemente mal (embora pudesse ser corrompido ao longo de sua vida); assim, se o amor de Deus era a fonte da existência do ser humano (e portanto, de cada homem e mulher na Criação), não fazia sentido sermos considerados culpados por um pecado original no qual não tínhamos participação. Como manifestações do amor divino, seríamos todos inerentemente bons, mas com a possibilidade de sermos corrompidos pelos vícios do mundo e pelos maus hábitos, por isso deveríamos nos ater à boa obra da Criação, vivendo em amor, bondade, generosidade, caridade e demais valores que costumam ser atribuídos à religião cristã, mas que são tão pouco praticados pelos seus. Com isso (e com a fé em Cristo), o ser humano poderia ascender ao Reino dos Céus sem a necessidade de intermediários ou uma autoridade eclesiástica, pois o próprio Messias haveria expulsado os “mercadores da fé” de seu templo e dito que somente através dele (e do seu exemplo) se poderia chegar a Deus. Pelágio era um profundo entendedor da doutrina cristã e bastante fiel (ainda que seus detratores em Roma o acusassem de pregar valores druídicos), mas sua ideia de negar a necessidade da autoridade da Igreja fez com que fosse perseguido e considerado herético. Essa é uma das razões para se conhecer os valores de sua própria crença, uma vez que as diferentes interpretações sobre a mesma crença podem acabar distorcendo a sua percepção sobre a mesma (resumindo o caso cristão, a colocar mais fé e investimento na instituição do que na “boa obra” que o messias ensinou).

Mas nosso assunto aqui não é o cristianismo, e essa explicação sobre o Pelagianismo foi apenas um exemplo de como é possível confundir um caminho espiritual através de visões divergentes de seus pregadores. Por isso, deve ser dito aqui que nada escrito nesse artigo tem por objetivo de ser verdade absoluta, mas apenas uma interpretação baseada nas diversas visões que existem a respeito da crença céltica e druídica a respeito do pós-morte e que, curiosamente, não nega nenhuma delas, mas as integra. A grande árvore cuja raiz é a crença céltica original possui muitos ramos que estão em oposição por tanto tempo que já não percebem o quanto suas crenças não precisam negar as outras, uma vez que todas são parte de um único aspecto de manifestação espiritual. Negar uma das visões gera uma enorme possibilidade de negar a todas, inclusive a que se defende quando nega a outra. Nós nos acostumamos a ter uma ideia de “espiritualidade incompleta”, como se os antigos fossem incapazes de pensamentos mais complexos e elevados; também nos acostumamos a aceitar simplificações e a ignorar evidências que neguem nossa visão, muitas vezes e principalmente ideológicas. Mas e se colocássemos todas essas visões na mesa, com todas as suas possibilidades, e analisássemos uma a uma? E se encontrássemos pontos de ligação entre elas? Alguns podem dizer que esses pontos de ligação são frágeis. Ora, mas o que sabemos sobre o mundo céltico antigo que não é frágil? Quantas vezes as visões que temos sobre ele não foram alteradas por novas evidências “frágeis”? Então vamos dar uma chance aos nossos preconceitos básicos e às nossas visões ideológicas aos quais somos tão apegados e tentar entender o que realmente sabemos sobre a crença céltica do pós-morte, usando as diferentes visões não em oposição, mas como diferentes peças necessárias para a construção de um quebra-cabeças, que nem sempre parecerá bem encaixado, mas que pode nos trazer ao menos um início de resposta a uma das mais intrigantes questões do meio druídico: existe uma ideia de “evolução da alma” no Druidismo?

E que visões são essas? Basicamente, vamos buscar o entendimento do pensamento céltico/druídico através das suas diversas manifestações, antigas e modernas. Desde os registros clássicos, que nos falam sobre a “doutrina Pitagórica” dos Druidas e da crença da transmigração e imortalidade da alma, passando pelos mitos insulares, que contam lendas sobre Avalon, a Casa de Donn e as Imramma, a elaborada doutrina do Druidismo do Renascimento, as crenças druídicas contemporâneas e do Reconstrucionismo Celta. Nenhuma delas será deixada de lado, uma vez que todas fazem parte de um único conjunto de espiritualidade, que foram colocadas umas contra as outras por tempo o suficiente. Se descobrirmos através dessa análise que alguma delas é completamente destoante, assim a definiremos, mas nunca apenas por pertencer a este ou aquele movimento. Dito isso, podemos começar.

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O Pós-Morte Indo-Europeu

Início essa parte do artigo com uma posição polêmica (como não poderia deixar de ser). Muitos defensores daquela que é chamada hoje de “Ideologia Indo-Europeia” tem por hábito defender que o principal objetivo da vida é se reunir com os Ancestrais no pós-morte. De acordo com eles, os ideais indo-europeus não aceitariam de forma alguma a ideia de “evolução” da alma, sendo que o destino dos homens só poderia ir em duas direções: banquetear-se com os Ancestrais ou o esquecimento (por vezes também trocado por algum destino incerto). Essa doutrina também nega completamente a ideia de reencarnação ou qualquer forma de transmigração da alma. Porém, observando diversas tradições indo-europeias, eu não consigo deixar de acreditar que esse é um recorte pobre e parcial de uma visão muito mais complexa e que abarca tudo aquilo que essa ideia nega.

Iniciemos com a Grécia, que sempre deveria ser o ponto inicial de busca sobre o que podemos chamar de “indo-europeu”. Inicialmente, a visão helênica parece concordar com a Ideologia Indo-Europeia: os mortos (ou suas “almas”) continuam a existir enquanto forem lembrados pelos vivos, o que nos leva à ideia básica de culto aos Ancestrais. O Hades (o nome do reino do Submundo se confunde com o de seu regente) é descrito inicialmente (por Homero, principalmente) como um local assustador do qual Aquiles diz ser preferível “ser um escravo sem-terras no mundo dos vivos do que um rei no Submundo”. Essa é uma visão pouco animadora, mas também muito vaga sobre o que ocorre com almas dos mortos. Porém, ao mesmo tempo em que Homero nos traz essa visão pessimista, seu contemporâneo, Hesíodo,nos ensinava que existiam diversos planos dentro do Hades, e que aqueles que vivessem uma boa vida e fossem bem lembrados pelos vivos poderiam desfrutar dos prazeres do Elísio, enquanto os terríveis sofreriam no Tártaro (e os que tivessem seus nomes esquecidos poderiam vagar para sempre na escuridão do Hades); também encontramos ali as Campinas de Asphodel, onde as almas que não atingiram a excelência no bem ou no mal poderia encontrar continuidade, junto aos seus entes queridos. Somente no século IV a.C. encontramos descrições um pouco mais completas sobre o assunto, onde entendemos que as almas podem ser recompensadas pelo seu papel (ou por suas dores) na Terra (mas a ideia de que isso duraria apenas enquanto sua lembrança vivesse continuava). Nos diálogos de Platão (particularmente, o “Phaedo”), Sócrates também descreve os vários níveis do Hades na consciência helênica e o fato de que as almas que vivessem boas vidas seriam recompensadas, e que por isso era importante que os gregos se lembrassem de seus Ancestrais como exemplares (quer tenham sido ou não), para que seu lugar no Elísio fosse mantido; isso era parte de um conceito grego conhecido como Eusebia (a tradução seria algo como “piedade”, ainda que não seja totalmente adequada), o dever do homem para com seus Ancestrais (em suma, para com sua família), que era garantir-lhes um bom lugar no Outro Mundo.

Haveria alguma alternativa a esses destinos? Pitágoras (do qual falaremos mais na próxima parte desse artigo, uma vez que sua doutrina costuma ser associada aos Druidas), Pherecydes de Siro e Platão advogaram pela imortalidade da alma, bem como para a sua transmigração para outros corpos. Não se sabe se esse pensamento seria uma interpretação nativa da própria espiritualidade helênica, ou se teria sido baseado nos ensinamentos do Orfismo, que os gregos emprestaram dos Trácios (outro grupo de origem indo-europeia). No pensamento helênico, essa visão surge de duas formas distintas: a Reencarnação, que é a ideia de que o ser humano continua a existir após sua morte e que vem a habitar um novo corpo posteriormente; e a Metempsicose, onde o ser continua existir após sua morte, mas seu renascimento não precisa ser exatamente em um corpo humano. Muitos acreditam que o conceito foi emprestado dos trácios pelos gregos, porém a existência de ideias semelhantes em outros grupos indo-europeus terminaria por evidenciar que essa crença poderia ser sim uma interpretação válida dentro dos conceitos primordiais dessa espiritualidade.

Um curto parágrafo pode ser feito sobre a visão romana do pós-morte, uma vez que ela foi, em grande parte, emprestada da grega, mas que nos traz algumas informações complementares interessantes. De acordo com Virgílio (na Eneida), os mortos que não recebiam ritos fúnebres adequados eram forçados a aguardar na beira do Rio Styx até que fossem devidamente enterrados. Descendo o rio, ele conhece os locais onde aqueles que tinham convicções errôneas “viviam”: os Campos de Tristeza onde residiam os suicidas, os sombrios e os guerreiros (o que pode explicar, em parte, o sofrimento de Aquiles descrito por Homero), o Tártaro onde residiriam os Titãs e outros poderosos seres não-humanos (possivelmente entidades ctônicas), o Palácio de Plutão, os Campos Elíseos (aqui descritos como a morada dos grandes heróis e descendentes dos deuses) e finalmente, Lethe, o Rio do Esquecimento. Há algumas diferenças essenciais entre a visão grega e a romana, mas ainda assim são nitidamente baseadas em uma ideia comum (talvez indo-europeia) de que não há apenas um destino para as almas dos mortos. Os ideais romanos nos citam ainda uma possibilidade na crença na independência da alma do corpo, como podemos inferir nos textos Cícero, que citam possíveis experiências de viagens para fora do receptáculo de carne, e o próprio Virgílio trabalha a crença na reencarnação na Eneida.Até aqui temos: a) um Submundo como o local de destino dos mortos; b) a existência de diversos planos dentro deste Submundo, onde diferentes categorias de mortos são alocados; c) a necessidade da reverência pelos mortos Ancestrais, que se beneficiam da lembrança dos vivos; d) a existência de um local de bem-aventurança para aqueles que vivessem boas vidas, bem como heróis e pessoas de origem divina; e) a existência de um local temível para aqueles que não tivessem vidas dignas, inclusive suicidas e violentos; f) um local de castigo para os terríveis, que são colocados junto à possíveis entidades primordiais e ctônicas; g) a necessidade de que os mortos recebessem ritos funerários apropriados para que seguissem o seu caminho; h) a possibilidade de imortalidade da alma, seja no Elísio, no Tártaro ou vagando pelo Hades; i) a possibilidade da existência de uma crença na reencarnação e transmigração da alma; j) a passagem pelo Rio do Esquecimento (Lethe) para retornar ao mundo dos vivos após visitar o mundo dos mortos.

O último ramo indo-europeu ocidental que nos interessa aqui (com exceção do céltico, claro, que ocupará bem mais do nosso tempo) é o nórdico, uma vez que sabemos muito pouco sobre os outros (como o báltico e o eslavo), e muito do que sabemos sobre eles é baseado em interpretações comparadas aos ramos mais conhecidos. A concepção cosmológica nórdica talvez seja a mais complexa dentre os ramos ocidentais do indo-europeu, com nove mundos que espalham ao longo da árvore cósmica, Yggdrasil. Ainda que não saibamos exatamente o quanto da cosmovisão nórdica preservou da sua origem germânica primitiva, ainda assim ela é uma fonte rica de informações sobre como o pós-morte pode ser visto. Nela encontramos diversos destinos para os mortos, assim como na grega. O mais conhecido e valorizado de todos é o Valhalla, que era onde os guerreiros caídos em batalha seriam recebidos por Odin, onde festejariam e lutariam até o Ragnarok. A cultura escandinava era muito mais voltada ao valor dos guerreiros, por isso o seu destino mais aguardado estava reservado para aqueles que caíam de espada em punho, enquanto entre os gregos esse destino estava reservado para aqueles que tinham vivido boas vidas, feito boas obras, feito diferenças positivas para a sociedade (ou sido grandes heróis, para que não se pense que o Elísio helênico era fechado para aqueles com tendências guerreiras), mas em ambos os casos, eram o destino final daqueles que vivessem vidas excepcionais (cada qual com os valores de sua própria sociedade). Outro destino para os guerreiros (aliás, para a primeira metade dos guerreiros mortos em batalha) era o Fólkvangr, onde se eles se juntariam sob a liderança de Frejya. Porém a sociedade escandinava não era formada apenas por guerreiros, e o destino daqueles que escolhiam não pegar em armas parecia muito mais próximo dos seus equivalentes indo-europeus do Mediterrâneo: o Hel (a mesma palavra para “inferno” das línguas germânicas) era o destino da maioria das pessoas comuns, que se reuniam com seus Ancestrais. Apesar de alguns aspectos bastante sombrios (como trabalhar na construção do navio Naglfar com as unhas dos mortos), o Hel se parece muito mais com o Asphodel grego do que com o Tártaro. O nível mais baixo de Hel, contudo, reservado para os vis e aqueles que quebram juramentos, conserva características de reino punitivo e é chamado de Niflhel. Porém, ao que tudo indica, a crença nórdica também parecia levar em consideração a reencarnação, como podemos ler na Edda Poética: “Sigrun logo morreu de tristeza e dor. Nos tempos antigos se acreditava que as pessoas nasciam novamente, mas isso hoje é considerado tolice de velhas viúvas. De Helgi e Sigrun é dito que eles nasceram novamente; ele se tornou Helgi Haddingjaskati e ela Kara, a filha de Halfdan, como é dito na Canção de Kara, e ela foi uma Valquíria”.  Outro caso curioso é o do rei cristão (e santo) Olaf da Noruega, que era visto como a reencarnação do rei pagão também chamado Olaf. Com o que podemos aprender sobre o mito nórdico, acabamos encontrando basicamente os mesmos aspectos que os mitos clássicos, mas com algumas diferenças importantes: a primeira é que pessoas com as mesmas atitudes na vida ainda podem atingir destinos diferentes, dependendo do grau de excelência destacados (os primeiros mortos em batalha vão para Fólkvangr, a segunda metade para Valhalla); o segundo aspecto é que o destino de uma pessoa está profundamente ligado aos valores de seu próprio povo. Embora os nórdicos fossem tão indo-europeus em origem quanto gregos e romanos, séculos de separação tornaram seus valores um tanto distintos. Assim, se espiritualmente encontramos profundos paralelos, as diferenças filosóficas são grandes, e se, para os romanos, os guerreiros (que não fossem grandes heróis) acabariam indo para os Campos da Tristeza, para os nórdicos o seu caminho poderia ser Fólkvangr ou Valhalla (desde que estivessem lutando pelo “lado certo”, de acordo com os valores de seu povo). A presença da reencarnação é marcante no mundo nórdico também, mas não é estranho quando sabemos que os antigos anglo-saxões (também germânicos) acreditavam que o corpo era apenas uma “roupa de carne” e que o espírito poderia vestir outras. Ainda é especulado que os antigos escandinavos acreditassem que a reencarnação poderia vir a ocorrer dentro de suas linhagens familiares.

A análise da doutrina hindu é ainda mais complexa e polêmica. Ela é indo-europeia em origem, mas que adquiriu muitas influências orientais (diferente das outras tratadas aqui, que se desenvolveram no ocidente), muito provavelmente de origem sino-tibetanas, mas também possivelmente dravídicas. Por essa razão, muitos estudiosos do ramo indo-europeu preferem ignorar a tradição indiana, mas ao fazer isso, ignoram a ligação direta que esse ramo possui com o ramo indo-iraniano, talvez um dos mais arcaicos do indo-europeu. Aqui o analisaremos para descobrir se há possíveis semelhanças entre o pensamento indo-europeu ocidental e o ramo orienta. Mas outro problema também se apresenta: a tradição indiana é, de longe, a mais bem preservada dentre todos os ramos indo-europeus (até mais que a grega), porém é profundamente fragmentada, com diversos ramos próprios espalhados por todo o subcontinente. O termo “hinduísmo” é um enorme guarda-chuva que abrange centenas de tradições espirituais diferentes, muitas vezes contraditórias, sob sua sombra. Assim, teremos que nos ater apenas a algumas crenças padrões (que mesmo assim não são universais) do “hinduísmo”, uma vez que debater sobre todos os ramos nascidos da Índia Védica nos parece algo completamente fora do escopo desse simples artigo. Diversas ordens druídicas e estudos indo-europeus fazem paralelos exclusivamente entre o ramo védico e o céltico, porém esse não é o nosso objetivo aqui, portanto esperamos que os pontos escolhidos sejam o bastante para nos fornecer um panorama básico sobre essa questão.

O Bhagavad Gita nos diz (através das páginas do Senhor Krishna) que a alma (que é imutável e indestrutível) troca de corpo assim como o homem troca de roupas, uma frase absolutamente semelhante ao que encontramos nas descrições anglo-saxãs. Para os hindus, a alma eterna passa por diversos ciclos de vida, morte e renascimento, até atingir o Mukti, quando ela retorna a unidade suprema com o Deus Supremo. Antes de atingir esse estágio (Moksha, ou “salvação”), a alma viverá e morrerá muitas vezes e, a cada morte, será levado pelos emissários de Yama (o deus da morte); ainda que não existam paralelos exatos, parece haver um eco disso na ideia de que as Valquírias coletam as almas dos mortos para Odin, ou na ideia de que as aves carniceiras levavam as almas dos mortos ao Outro Mundo, presente na Irlanda e na Celtibéria. Outra fonte (o Garuda Parana) nos diz que a alma (Atman) anda por um longo túnel escuro em direção ao sul, e por isso é tradicional manter uma lâmpada a óleo ao lado do corpo, com a intenção de iluminar o caminho. Os hindus possuem uma crença bem definida sobre o destino das almas no pós-morte. A crença no Karma pesa as ações das pessoas ao longo da vida (de acordo com os princípios do Dharma e sua posição perante a sociedade), podendo gerar “Karma ruim” (pelo qual a pessoa será punida em Naraka) ou “Karma bom” (pelo qual a pessoa será recompensada em Svarga); nem a punição, nem a recompensa são eternas, contudo, e uma vez que tenham se encerrado, as almas voltam a esse mundo em uma forma apropriada ao que atingiu na vida anterior (podendo voltar como formas de vida “inferiores” para os que tem Karma negativo, ou “superiores”, em caso contrário). Esse resumo (muito, mas muito resumido mesmo) da crença hindu mostra o quão ela parece divergir, mas ao mesmo tempo, confirmar padrões indo-europeus. Os únicos pontos que ainda nos parecem inconsistentes com os outros ramos indo-europeus são a ideia de um ciclo eterno de reencarnações, a possibilidade deixá-lo para atingir uma unidade divina com o Deus Supremo e uma definição tão clara como o Karma; porém, mesmo essas crenças não são completamente discrepantes com os outros ramos da tradição. Elas não negam nenhum dos aspectos das crenças dos outros ramos, podendo estar ausentes nos mesmos, não terem se desenvolvido, terem sido esquecidas, ou mesmo existirem de alguma forma inconsciente (portanto, sem registros escritos).

No final, apesar de diversas, as tradições indo-europeias confirmam umas às outras nos seus aspectos mais básicos. O fato de que cada ramo da própria tradição ter suas próprias divisões é algo que dificulta, uma vez que uma dessas divisões pode confirmar a posição de uma outra, mas negar uma terceira. Mas a espiritualidade se desenvolve de formas diferentes em ambientes diferentes, então não há como definir como o que seria plenamente indo-europeu e o que seria inovação local. Mas podemos encontrar alguns pontos em comum a todos os ramos, bem como outros que poderiam ser válidos, mas que não temos a certeza de terem existido para todos:

  1.       O Submundo como o local de destino dos mortos (Hades, Hel, o Túnel Escuro seguido pelo Atman)
  2.       A existência de diversos planos dentro deste Outro Mundo, onde diferentes categorias de mortos são alocados.
  3.       A existência de um local de bem-aventurança para aqueles que tenham vivido boas vidas, bem de um local temível para aqueles que não tivessem vidas dignas.
  4.       A ideia da imortalidade da alma, que é independente do corpo de carne.
  5.       A possibilidade da reencarnação ou transmigração da alma.

Outros pontos confirmam partes específicas de outras linhas, mas não de todas. Mas curiosamente, elas poderiam completar umas às outras de forma clara, se colocadas lado-a-lado. Obviamente, essa metodologia nada teria de científico, mas seria apenas uma enorme especulação. Assim, ficamos como pontos em comum apenas os cinco acima, mas nos permitiremos uma certa liberdade especulativa abaixo no conjunto abaixo (que não tem nenhuma pretensão de representar algum tipo de verdade absoluta).

A alma é imortal e abandona sua roupa de carne no momento da morte. Ela pode caminhar para o Submundo, ou ser buscada pelos emissários dos deuses dos mortos, como as valquírias ou os servos de Yama. No mundo dos vivos, os ritos fúnebres devem ser levados em consideração, para que a alma não fique vagando a esmo pelo limiar entre vida e morte. Seu local de descanso pode ser um reino do Submundo junto aos Ancestrais, ou um local de punição para os vis, ou mesmo um recanto abençoado como recompensa para as almas elevadas (de acordo com as visões de sua própria espiritualidade, seja sendo uma pessoa que pratica boas obras, um grande sábio ou guerreiro). Assim, não há um único destino para os homens, e pode-se chegar a um destino elevado, que poucos conseguem alcançar. Mas nenhuma punição ou recompensa é eterno, o que nos faz retornar ao mundo vivo uma vez mais. A forma em que retornamos não precisa ser necessariamente humana, mas é comum que as almas elevadas também retornem para guiar novamente os homens, por isso elas renascem dentro de suas próprias linhagens familiares. Outras almas renascem em outras formas por diferentes razões.

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A Imortalidade da Alma e a Doutrina “Pitagórica” Céltica

Escavar o antigo entendimento druídico clássico sobre a “alma” é algo que nos traz mais trabalho do que parece. O “tabu” druídico sobre a escrita fez com que muito sobre seu conhecimento tenha sido perdido. Precisamos nos valer de comentários de cronistas gregos e romanos, muitos dos quais não amigáveis à cultura céltica, com textos rasos, ambíguos e muitas vezes tendenciosos. Ainda assim, é o melhor que temos para entender o pensamento druídico nos tempos clássicos, por isso temos de aceitar essa limitação. De grande importância para esse entendimento é a citação de que os Druidas possuem uma doutrina “pitagórica” entre os seus ensinamentos. Obviamente, não estamos querendo dizer (ou negar) que os Druidas tenham estudado com Pitágoras ou seus discípulos, mas que possuíam um pensamento que era semelhante o bastante ao da doutrina pitagórica a ponto de ser comparado a ela. Mas estamos nos adiantando. Antes de tudo, precisamos descobrir o que sabemos sobre o pensamento druídico clássico a respeito da alma e do pós-morte, antes de nos voltarmos para a doutrina de Pitágoras para descobrir suas semelhanças.

  1.       Posidônio (em trecho citado por Deodoro da Sicília) é o primeiro a nos dizer que os Druidas acreditavam na “Doutrina Pitagórica”, que dizia que as almas humanas eram imortais e voltariam a nascer em um novo corpo após certo número de anos passados. Em outro trecho, citado por Estrabão, é dito que os Druidas ensinavam que as almas dos homens e o Universo eram indestrutíveis, mas que um dia água e fogo estariam sobre eles. Também é citado o hábito céltico de lançar cartas às piras funerárias dos mortos, para que eles pudessem lê-las.
  2.      Júlio César também reforça a afirmação de que eles acreditavam na imortalidade da alma e que esta passaria de um corpo para outro após a morte, e que essa era uma das fontes do destemor gaulês em batalha.Também diz que todos os gauleses diziam descender de Dis Pater, e que isso era ensinado pelos Druidas, e que por isso eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias, e seus aniversários, meses e anos sempre se iniciam à noite.
  3.       Lucano cita que os Druidas diziam que o espírito vivia uma vez mais em outro mundo, sendo a morte apenas a metade de uma longa vida. Ele também nos cita que os Bardos conduziam as almas dos valentes à morada imortal.
  4.      Diógenes Laércio cita a primeira Tríade druídica registrada: eles ensinavam os homens a adorar os Deuses, não fazer nenhum mal e a exercitar a bravura. Como citamos enquanto falávamos dos outros ramos indo-europeus, é importante conhecer as bases morais dos povos para que saibamos qual seria o destino das almas após a morte na sua crença.
  5.      Sílio Itálico nos diz que os celtas ibéricos acreditavam que era glorioso cair em combate e que pensavam que seu espírito seria levado aos Deuses se devorado por aves carniceiras no campo de batalha.
  6.        Pompônio Mela reforça a afirmação de que as almas dos homens são imortais e que havia uma nova vida junto aos mortos, o que usa para justificar costumes gauleses como os de se atirar nas piras funerárias de seus entes queridos, ou de adiar o pagamento de dívidas até a passagem para o Outro Mundo.
  7.       Hipólito cita que a “Doutrina Pitagórica” chegou aos Druidas através dos ensinamentos do trácio Zamolxis.
  8.      Procópio de Cesárea diz que os gauleses acreditavam que partiriam em direção ao norte após a morte, para pegar barcos em direção aos seus destinos finais no Outro Mundo.

Apesar de serem pequenos fragmentos de informação, é possível encontrar paralelos claros aos outros ramos indo-europeus. A alma é imortal e indestrutível, ao menos até o final dos tempos. Por sua alma ser imortal, os gauleses eram impelidos a praticar a bravura, um dos seus grandes valores, além de não praticarem a maldade (possivelmente pelo mesmo motivo, uma vez que os outros ramos indo-europeus nos falam de destinos temíveis para os que são vis) e honrarem aos Deuses (idem). A citação de Lucano acaba gerando o que é uma discrepância para alguns, mas que para outros complementa a informação: a morte é a metade de uma Longa Vida, que continua em Outro Mundo, e que precede o renascimento futuro em outro corpo, e pode inclusive ser contatada após a morte, durante o momento de sua cremação. A evidência de que o pensamento céltico era cíclico é encontrada na informação dada por César, de que os gauleses acreditavam que eram descendentes de Dis Pater (na Interpretatio Romana, para uma discussão mais ampla sobre a identidade dessa deidade, aconselhamos esse artigo: http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-continental/senisteros-aquele-cujo-nome-foi-esquecido/ ), o deus do Submundo, evidenciando que acreditavam que este lugar era sua origem, além de seu destino final; com César cita, os celtas contavam seus períodos de tempo a partir das noites, por isso não é absurdo teorizar que contavam a vida a partir do Submundo para o qual retornariam após a morte, após o qual retornariam para a vida, como pode ser evidenciado por um dos painéis do Caldeirão de Gundestrüp, que mostra homens caminhando na direção de uma deidade com um caldeirão, e sendo liberados em um plano superior; a separar os dois planos, uma árvore, o Axis Mundi. O fato de os homens renascidos irem até a deidade a pé e renascerem a cavalo pode ser uma evidência de que o ciclo de morte e renascimento seguisse um padrão evolutivo, mas ainda é precoce afirmar isso de forma peremptória.

O relato de Procópio de Cesárea nos oferece uma variação, onde as almas dos mortos partem para o mar (um tema que é comumente conhecido do mito céltico insular, mas que também pode ser refletido na crença hinduísta de que a alma segue para o sul, sendo esta a direção para o oceano na Índia), que provavelmente é uma das representações do Submundo céltico (através da conhecida fórmula insular Terra/Céu/Mar, que se reflete no equivalente gaulês Terra/Céu/Submundo; para evidenciar ainda mais isso, os sacrifícios humanos feitos à tríade divina da Gália eram queimados para Taranus, uma referência ao fogo dos Céus, o raio; enforcados em uma árvore para Esus, representando o reino da Terra, sendo que a deidade era representada cortando uma árvore; e afogados em tonéis para Teutates, representando o Submundo, o reino dos Ancestrais que poderia ser alcançado nas profundezas). Obviamente, esse não era o único destino das almas: vemos que aqueles que caíam em batalha ou outros feitos de bravura podiam ser levados para destinos elevados, fosse por serem devorados por aves carniceiras (os emissários dos deuses dos mortos?) ou por serem imortalizados nas canções dos Bardos (o que evidencia uma possível ligação com a crença helênica de que a alma é privilegiada enquanto for lembrada, mas sem a necessidade de sê-lo apenas pelos seus descendentes).

O último ponto a ser examinado aqui (antes de partirmos para a doutrina de Pitágoras em si) é citação de que a “doutrina pitagórica” chegou até os Druidas através de Zalmoxis, um trácio de nascimento. Zalmoxis era a principal deidade do povo dos Getas, que viviam no baixo Danúbio. Sobre ele Heródoto nos diz que era originalmente um ser humano que ascendeu ao posto divino na crença local. De acordo com a sua crença, as almas eram imortais e que se juntavam ao deus na morte. Porém, alguns cronistas ainda nos dizem que Zalmoxis foi um escravo de Pitágoras, e que assim ele teria aprendido a doutrina da imortalidade da alma e da encarnação. Independente disso, mesmo que os Druidas da Gália tenham tido contato com o culto a Zalmoxis (ou com o próprio Zalmoxis, caso estejamos falando de um homem mortal), nos parece improvável que sua doutrina tenha se desenvolvido e crescido a ponto de ser adotada por todo o mundo céltico, com paralelos claros nos mitos insulares muito posteriores. Porém, também nos parece impossível negar que o mundo céltico continental possuía alguma ligação com o mundo helenístico (bem como o de outras tribos “bárbaras”), por isso a influência da filosofia grega no pensamento druídico é quase certa.

Para analisar exatamente onde a doutrina de Pitágoras parece realmente se assemelhar ao pensamento druídico, é preciso conhecer um pouco sobre ela. Pitágoras de Samos foi um dos grandes filósofos do período Pré-Socrático.  Seu pensamento envolvia diversas áreas, incluindo a natureza da alma e a matemática, e integrava essas diferentes linhas de conhecimento. Como cita o Druida Brendan Myers, “Pitágoras pensava que a alma humana (e todo o universo) é um conjunto de elementos (o corpo, a mente, e suas várias disposições e hábitos) que se relacionam entre si dessa forma matematicamente elegante e harmoniosa”. A doutrina de Pitágoras, por envolver campos tão distintos, acabou por se dividir em duas escolas distintas: os Matemathikoi (que mantinham que a alma era uma harmonia de elementos, portanto não reencarnava) e os Akousmatikoi (que diziam que a alma reencarnava, seguindo o pensamento de Pitágoras sobre religião, que dizia que a alma era imortal, que ela se transformava em outros tipos de animais, e que tudo viria a renascer um dia). Curiosamente, ambos os pensamentos parecem profundamente ligados ao pensamento druídico: a doutrina dos Matemátikoi possui semelhanças enormes com o pensamento folclórico gaélico sobre a Grande Canção, bem como o sistema elemental irlandês dos Dúile; já o pensamento dos Akousmatikoi é perfeitamente integrável aos textos clássicos sobre a crença na imortalidade da alma dos Druidas, nas análises típicas feitas a respeito dos poemas de Amhairgen e Taliesin, bem como a toda uma tradição folclórica céltica insular que nos citam almas que morrem e retornam em outras formas. No final, os sistemas não são excludentes entre si, mas a busca lógica de um dos grupos se tornou incompatível com a busca espiritual do outro. Mas dentro do pensamento original de Pitágoras, ambos os sistemas eram complementares.

O fato de ambos os pensamentos sobreviverem na tradição druídica ainda não é uma prova de que eles tenham aprendido com Pitágoras, mas ainda é uma evidência de que suas doutrinas eram muito próximas. A imortalidade da alma, a passagem para outros corpos, a formação da alma comparada ao universo, tudo isso já é visível nos rasos relatos dos cronistas clássicos sobre os Druidas. Sobre o pensamento dos Matematikoi, ele não é exatamente o escopo desse artigo, mas serão pincelados quando unirmos esses aspectos ao que podemos aprender sobre a mitologia insular. Mas até aqui, encontramos:

  1. a)      A crença na imortalidade da alma e do universo, ambos formados por conjuntos harmônicos de elementos.
  2. b)      A origem do ser humano no Submundo (por vezes representado pelo Mar) para o qual ele retorna após a morte, evidenciando um ciclo.
  3. c)       O renascimento no Outro Mundo, onde se vive por um período de tempo (a outra metade da Longa Vida)
  4. d)      O retorno ao mundo dos vivos em outro corpo (que pode ser ou não humano, de acordo com a doutrina de Pitágoras), em um sistema possivelmente evolutivo (ou simplesmente de “metempsicose”, onde a alma retorna em uma forma diferente da anterior).
  5. e)      Um destino mais bem-aventurado pode ocorrer aos que morrerem em bravura ou forem imortalizados pelas canções.

Basta comparar com os outros ramos indo-europeus e as semelhanças saltam aos olhos.

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O Mito e o Folclore Céltico Insular

Ainda que não tenhamos informações diretas (como textos doutrinários ou tratados filosóficos) sobre os destinos da alma no mito céltico insular, a mitologia e o folclore nos dão uma gama muito grande de possibilidades do que poderia ser a crença céltica no pós-morte. Essas fontes tem sido usadas de forma isolada pelas diversas tradições pagãs contemporâneas, muitas vezes sem critérios muito rígidos, basicamente porque as crenças mais agradáveis parecem ser mais dignas de serem levadas em consideração pelos devotos contemporâneos. Isso não é, em nenhum momento, uma negação dessas crenças. É apenas uma análise que envolve não apenas o “o que”, mas também o “porquê” e o “o que mais”, perguntas que não costumam ser feitas, do ponto de vista filosófico e espiritual. Se observarmos as diversas possibilidades que encontramos no mundo céltico insular, não precisaremos de muito para perceber que os “destinos da alma” contradizem uns aos outros. Por isso, a maior parte das tradições pagãs contemporâneas adota apenas uma das visões, negando as outras peremptoriamente; dessa forma, os reconstrucionistas acreditam que a doutrina céltica da alma fala sobre a morte e a reunião com os Ancestrais, os druidistas contemporâneos falam sobre a jornada das almas em direção à Terra do Verão, enquanto outras ordens falam em reencarnação e metempsicose. Apesar de algumas poucas visões unirem essas possibilidades, a maioria prefere não o fazer, o que pode ser um erro. Pois, se as analisarmos em perspectiva, podemos perceber que elas podem ser, na verdade, mais complementares do que conflitantes.

A primeira visão que acredito que temos de avaliar, tendo em vista a sua quantidade de informações, é aquela que nos diz que as almas embarcam em uma jornada (normalmente marítima) com destino às ilhas do Outro Mundo. Antes de tudo, é preciso entender que essa visão não é uma “inovação” insular, sendo registrada por Procópio de Cesárea já no século VI; ele afirmava que os gauleses (ou gálatas) acreditavam que os mortos iriam para o norte, para pegar barcos que os levariam para o seu destino. Assim, encontramos uma visão céltica já muito anterior às Imramma, mas que é um paralelo indo-europeu bastante claro, como veremos adiante. A ideia de que o Outro Mundo estaria em um lugar no além-mar está presente tanto na tradição gaélica quando britônica, ainda que a primeira nos ofereça uma quantidade muito maior de informações. Por isso, iniciaremos esse estudo com as informações britânicas, muito mais básicas, para depois complementarmos com as informações vindas da Irlanda.

Creio que a primeira versão que temos de avaliar sobre essa visão é justamente a mais famosa de todas: a que nos diz que o Rei Arthur foi ferido em batalha e levado para Avalon. Creio que todos conhecem a lenda de uma forma mais ou menos básica: na Batalha de Camlann, o Rei Arthur se bate com seu filho/sobrinho/inimigo Mordred/Medraut e cai ferido; seu corpo é então levado por Barinthus em uma viagem marítima para Avalon onde se recuperaria e retornaria no dia em que os britânicos mais precisassem. Apesar das diversas variações, o panorama básico da lenda é esse. Mas o que seria Avalon? Seria ela um “paraíso céltico”?  Seu nome é uma das mais ricas fontes de especulação dos mitos célticos. Seu nome nos mitos galeses é Ynis Afallach, que pode ser traduzido tanto como Ilha de Afallach quanto como Ilha das Maçãs. Afallach é uma deidade galesa do qual possuímos poucos registros, mas cuja “família” pode nos ajudar a inferir algumas informações: ele é um filho de Nudd, o que pode sugerir que tivesse a afinidade familiar com o mundo dos psicopompos, uma vez que a possível versão primitiva de Nudd, Nodens, que possuía um notável templo em Lydney (em uso até o século V), parecia ter profundas associações com o Outro Mundo e o mar, enquanto outro dos seus filhos, Gwynn, é um dos psicopompos por excelência da mitologia galesa, sendo o guia da Caçada Selvagem (que levava as almas dos mortos para o Outro Mundo) e o guardião das portas do Annwn (o Outro Mundo no mito galês), sendo também chamado de “Rei dos Mortos”. Ao que parece, a família de Nudd tinha uma grande habilidade com a guia das almas para o Outro Mundo. Já a segunda tradução do nome, Ilha das Maçãs (citada na Vita Merlini por Geoffrey de Monmouth em latim, Insula Pomorum), nos traz uma ligação muito clara com uma ideia tradicional sobre o paraíso céltico, que é a de que o Outro Mundo dos afortunados e imortais fosse permeado de macieiras (compare com o nome de um dos reinos regidos por Manannán Mac Lir, Emhain Abhlach, a “Planície das Maçãs”, bem como o Jardim das Hespéridas dos gregos) ; além disso, o Outro Mundo é o local onde os Deuses provam do banquete da imortalidade, seja a Ambrosia para os Olímpicos, a Cerveja de Goibnhiu, ou as Maçãs de Iduna dos nórdicos, mostrando que a relação do paraíso dos Imortais com as maçãs é um padrão indo-europeu ocidental bastante amplo).

Avalon é o paraíso celta? Ao que tudo indica, seria algo semelhante aos Campos Elíseos para os britanos, mas alguns fatos precisam ser levados em consideração, principalmente a possibilidade de Avalon ser associada a lugares físicos. Na Vita Merlini, Geoffrey descreve que ali vivia Morgan Le Fay, a líder de nove irmãs feiticeiras (Moronoe, Mazoe, Gliten, Glitonea, Gliton, Tyronoe, Thitene Thiton). A descrição possui alguma semelhança com o poema galês medieval Preiddeu Annwn (“Os Espólios de Annwn”,http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-britonica/os-espolios-de-annwn/), que possui uma estimativa de antiguidade que se estende do século VI ao IX; nele, Arthur parte em uma viagem de barco ao Outro Mundo (Annwn, do proto-céltico Andedubnos, “O Não-Mundo”, “Mundo Inferior”) em busca de um Caldeirão místico e outros objetos mágicos, uma espada entre eles, ao que parece saída de dentro do próprio; ainda na descrição, nos é dito que o Caldeirão é aquecido pelo sopro de nove donzelas. Se as nove donzelas fossem os equivalentes de Morgana e suas irmãs, tudo parece se encaixar perfeitamente. Porém, se retrocedermos até os tempos dos observadores, vamos encontrar um relato de Estrabão citando as nove sacerdotisas dos Samnitae que viviam em uma ilha na foz do rio Loire, que praticavam estranhos ritos “dionisíacos” e vaticinavam, uma descrição que não é completamente semelhante, nem diferente o bastante. Alguns podem dizer que é improvável que Estrabão tenha visitado essa ilha pessoalmente, que provavelmente ele teria ouvido falar dela, tornando-a uma ilha lendária, portanto, não um lugar físico e alcançável por todos.

Mas a busca por uma Avalon “física” ainda não terminou. No final do século XII, Avalon começou a ser associada com a região da abadia de Glastonbury (não exatamente uma ilha, mas tendo sido próxima a isso no passado, antes que as estradas fossem construídas sobre os pântanos ao seu redor), principalmente por instigação do cronista medieval (e notório forjador) Giraldus Cambrensis, que dizia que o nome original da área era Ynys Witrin (“a Ilha de Vidro”), sendo que ela não era mais reconhecível como uma ilha na sua época. A ainda polêmica descoberta na Idade Média do túmulo do Rei Arthur nela (desmentida por muitos arqueólogos contemporâneos, mas ainda defendida por alguns outros) traz a possível associação, onde é dito que os monges desencavaram uma cruz com a seguinte inscrição: Hic jacet sepultus inclitus rex Arturius, cum Wenneveria, uxore sua secunda, sepultus in insula Avalonia (“Aqui jaz o renomado rei Arthur, com Guinevere, sua segunda esposa, sepulto na ilha de Avalon”). As ligações não param por aí: em Glastonbury é dito que José de Arimateia teria escondido o Santo Graal, o Cálice de Cristo, que coletou o sangue do Messias e que seria buscado posteriormente pelos Cavaleiros da Távola Redonda. Apesar do tradicionalismo do mito cristão medieval, hoje é plenamente entendido que os mitos da busca do Graal são versões medievais de lendas mais arcaicas, abundantes nos mitos celtas, onde guerreiros partem em busca de Caldeirões da Regeneração no Outro Mundo. Porém, se o Graal é simplesmente um símbolo cristão que substitui um caldeirão pagão, bom, Arthur é conhecido por ter buscado o símbolo cristão, mas também por ter feito a caçada a um caldeirão do Outro Mundo em uma de suas lendas mais arcaicas (justamente o Preiddeu Annwn). Portanto as lendas do Santo Graal não apenas se aproveitam do panorama original pagão das crenças sobre o Outro Mundo, mas também mantém seu significado quase intacto, apenas intercambiando os símbolos pagãos por cristãos. Quanto a possível existência física de Avalon, possivelmente essas ilhas antigas (no Loire, Glastonbury, Mona, Iona) eram vistas como possuindo fortes ligações com o Outro Mundo, sendo ali suas passagens para ele, ou pedaços/contrapartes do Outro Mundo alcançáveis na Terra. Porém, um último aspecto deve ser dito: Barinthus veio ao mundo buscar o Rei Arthur, um grande rei, guerreiro e herói lendário. Assim, com todas as semelhanças que Avalon carrega com os Campos Elíseos, podemos inferir algo que é bastante óbvio: Avalon, se realmente for um dos “paraísos celtas”, é um destino para almas elevadas, grandes heróis, provavelmente não sendo o local de descanso dos mortais comuns e sim para aqueles que viveram vidas grandiosas.

Mas como seria esse Outro Mundo céltico, então? O mito galês nos oferece descrições muito vagas de Annwn, citado como um local enigmático e cheio de maravilhas, regido por Arawn ou por Gwynn ap Nudd (conhecido também como “o Rei dos Mortos”). O Preiddeu Annwn nos sugere que ele pode ser alcançado por mar, assim como a Avalon arthuriana, sendo composta por inúmeras ilhas-fortaleza, tais como Caer Siddi, Caer Pedrivan, etc. Porém o mar não é a única forma de se chegar a Annwn, como Pridery e São Collen descobrem. Ao que parece, o reino tem um caráter completamente transcendente, uma vez que se pode chegar até ele tanto por terra quanto por mar. Como citado, as descrições galesas sobre Annwn ainda são um tanto vagas, mas envolvem ilhas-fortalezas que são protegidas por anéis de fogo e caldeirões e caldeirões que são aquecidos pelo sopro de donzelas (como já citado acima, quando falado sobre as confrarias femininas das ilhas míticas), sugerindo uma terra inegavelmente mágica e sobrenatural. Já Avalon, caso realmente ela carregue uma ligação com o Annwn (talvez como uma de suas muitas ilhas), seria uma ilha mítica para onde Arthur seria levado (não se sabe se vivo ou morto) para se recuperar para um dia voltar. Se nos voltarmos para os mitos irlandeses, as Imramma nos mostram todo um cosmos mítico de diversas ilhas do Outro Mundo. Como as ilhas-fortaleza de Annwn, diversas dessas ilhas são cheias de maravilhas e portentos (e também perigos), enquanto outras parecem locais de repouso apropriado aos mortos. A palavra Imramm significa “remação”, o que sugere que esse Outro Mundo irlandês só pode ser alcançado via marítima. Essa é uma meia verdade, mas falaremos disso mais tarde. As ilhas paradisíacas do mito irlandês são descritas em textos como a Imramm Brán Mac Fébail e a Imramm Maél Dúine (dentre muitos outros), que nos mostram uma variedade enorme de ambientes, tais como Tir Na n-Óg (a “Terra da Juventude”, onde as pessoas são jovens para sempre), Emhain Abhlach (a “Planície das Maçãs”, um cognato bastante próximo de Avalon) e a “Terra do Verão”, onde o calor e a alegria são eternos. Mais sombria é a descrição da Tech’n Duinn (“a Morada de Donn”), lar do primeiro mortal assassinado na Irlanda e que se tornou aquele que recepciona em sua morada todos aqueles que ali morrem.

Então essa concepção das ilhas do Outro Mundo seria a visão do caminho das almas na mitologia céltica insular? Mais ou menos. Precisamos desenvolver esse tema. Inicialmente, a proposta faz todo o sentido, e ainda encontra o paralelo na Gália com a descrição de Procópio de Cesárea. Dentro dessa concepção, os mortos encontrariam seu caminho em uma jornada de barco ao Outro Mundo, onde descansariam em uma de suas muitas ilhas. Mas qual delas? Muitas variáveis surgem quando pensamos nisso. É consolador pensarmos nas viagens de Brán, Connla, Oísin, Caoílte e Arthur, e assumirmos que o destino na visão insular é o de uma ilha abençoada e de prazeres, vivendo no banquete de Manannán e bebendo da cerveja da imortalidade de Goibhníu. Mas uma vez mais pensemos: quem foram esses homens? Grandes guerreiros, grandes reis, homens memoráveis cujos nomes seriam gravados nas eras do mundo. Assim como no caso do Elísio e do Valhalla, não me parece que esse fosse o destino de todas as almas, a não ser as mais elevadas, aquelas que mais fazem a diferença pelo seu povo. O relato sobre Donn (junto ao de Procópio) sugerem que todos embarcam em uma viagem de barco ao outro mundo, mas nada diz que todos terão o mesmo destino, uma vez que o Outro Mundo é vasto e com dezenas de ilhas. Por isso, é muito possível que alguns tivessem destinos mais fortuitos do que outros. E por quanto tempo se viveria nesse Outro Mundo? Como vimos antes, é bastante possível que não existisse um conceito de permanecer eternamente no pós-vida dentre os indo-europeus. Mesmo os guerreiros mortos e selecionados por Odin retornariam  no Ragnarok, mas estes teriam data e hora e certa para pisar uma vez mais em solo mortal. E quanto aos outros? Para os gregos, que tinham um culto aos Ancestrais bem definido, a estadia no mundo dos mortos duraria enquanto o seu nome fosse lembrado por sua família; após o esquecimento, a alma deixaria o Outro Mundo (estivesse no deleite, estivesse purgando seus pecados) e seu destino seria incerto (o renascimento parecia uma opção, contudo). O mito irlandês é bem claro: aqueles que se sentam no banquete de Manannán bebem da cerveja da imortalidade de Goibhníu. Mas, como dissemos, e se esse não for o destino de todos? Haveria uma nova morte no Outro Mundo, como sugere o relato de Lucano? Ainda há mais a questionar: mesmo os maiores heróis entre os celtas, aqueles que encontram seu caminho para as Ilhas Abençoadas, retornariam: Arthur, como os guerreiros nórdicos, teria uma ocasião específica para retornar, mas Bran, Caoilte e Oisin, todos tiveram o desejo de retornar após algum tempo (muito mais do que uma vida mortal) passado nos idílios paradisíacos. Ao que parece, não importa o quão abençoado seja o destino, é o desejo da alma humana um dia retornar a esse mundo.

O Outro Mundo insular, seja na sua versão irlandesa, seja na sua versão galesa, nos parece uma releitura muito aproximada ao Submundo da Gália. Tanto no mito da Caverna de Donn (uma caverna em uma ilha oculta no sul da Irlanda, onde um deus morto recebe os mortos) quanto no de Annwn (um reino governado pelo Rei dos Mortos, e que possui um mito que é um paralelo quase exato da lenda de Hades e Perséfone), ele nos sugere que o nosso caminho é partir para um Outro Mundo onde viveremos, mas então retornaremos ao mundo um dia. Toda a vida no mito céltico insular veio do Outro Mundo, incluindo as Tuatha Dé Danann, que viveram nas Ilhas ao Norte do Mundo, ou as tribos britânicas lendárias, que teriam vindo de Tyr yr Haf (a “Terra do Verão”, um paralelo claro ao mito irlandês). Provavelmente, se nos basearmos na mitologia comparada indo-européia, haveria um (ou vários) locais de descanso para aqueles com nomes elevados, e outros (ou vários novamente) locais de descanso para aqueles que viveram vidas menos espetaculares, mais comuns, vivendo junto aos seus Ancestrais. Os costumes folclóricos escoceses também diziam que era importante que os mortos recebessem funerais adequados e tivessem seu corpo velado com tochas (e posteriormente velas) queimando ao seu lado por algum tempo, para que seu caminho fosse iluminado e eles não se perdessem (um paralelo claro à crença hindu citada no Garuda Parana); ou seja, havia uma multiplicidade de destinos a se alcançar, inclusive alguns involuntariamente. Todos fariam a sua viagem, mas a mitologia também parece sugerir que eles retornariam, uma vez que a própria alma humana deveria ansiar por esse mundo. Contudo, esse retorno não seria permitido a todos. Ao menos para aqueles que viviam entre os bem-aventurados, é prometida a juventude eterna e alegrias sem fim, mas onde se torna impossível retornar ao mundo dos mortais sem terríveis conseqüências. E quanto aos que não bebem da cerveja de Goibhníu? Que tenham encontrado seu caminho para uma das muitas outras ilhas do Outro Mundo? Seria a morte realmente o “meio” da “longa vida” e a outra metade também deveria encontrar seu fim em algum momento? Outro momento enigmático, mas que parece sugerir isso é uma imagem que surge no conto de Peredur filho de Efrawc, um dos contos arthurianos que costumam ser associados aos Quatro Ramos do Mabinogion. Nesta imagem, o herói viaja pelo coração da Britannia e encontra uma cena estranha: em um vale cortado por um rio há apenas uma árvore. Um dos lados da árvore está sempre verdejante, mas o outro lado está permanentemente em chamas. Ela fica ao lado do rio, onde em cada margem se ajunta um rebanho de ovelhas. As ovelhas de um lado são negras, as ovelhas de outro lado são brancas. Quando uma ovelha de um dos lados bale, uma ovelha do outro lado pula no rio e o atravessa, bem como ela faz o mesmo. Quando terminam a travessia, a ovelha do lado branco se tornou negra e a ovelha do lado negro se tornou branca. Esse trecho tem sido interpretado como uma representação da crença galesa de que, para uma alma voltar a esse mundo, outra alma precisa ir para o Annwn, e as próprias almas chamam umas às outras quando é chegado o momento (como as carnyxes dos homens no Caldeirão de Gundestrüp chamam os homens no plano superior uma vez mais para o mundo dos mortos). Essa cena seria repetida de forma bastante similar no mito irlandês da Imramm Maél Dúine, onde os navegantes encontram, em uma das muitas ilhas que visitam, um rebanho de vacas dividido por um rio, enquanto um gigante fica sentado ao lado. Cada vez que ele move uma vaca para um lado do rio, ele move outra vaca para a outra margem. Ao menos nos parece que esse simbolismo do “intercâmbio” entre as almas é algo muito presente na mentalidade céltica, com evidências na Gália, na Grã-Bretanha e na Irlanda.

Dito isso, nos falta apenas avaliar a possibilidade das crenças na Metempsicose e na Reencarnação no mito céltico insular e no seu folclore. Ambas as crenças costumam ser defendidas por linhas de pensamento neodruídicas e negadas por reconstrucionistas (as linhas do Druidismo do Renascimento são uma história completamente diferente, como veremos). A principal fonte de argumentos a respeito da existência em uma crença na Metempsicose dentro pensamento céltico insular costuma vir dos poemas de Amhairgen e Taliesin, com seus inúmeros “eu sou/ eu fui”, incluindo aí entidades absolutamente abstratas (como “eu fui um grito na batalha”), objetos manufaturados (“eu sou a ponta da lança em batalha”) e diversos animais, vegetais e mesmo pontos topográficos. Os reconstrucionistas costumam alegar que essa é uma evidência bastante frágil, podendo representar apenas figuras de linguagem, e mesmo as linhas druídicas divergem nas intepretações desses poemas (algumas alegando que elas tem menos a ver com uma noção temporal, de vida, morte e renascimento, mas sim espacial, de percepção da conexão universal com todas as coisas). Seria impossível dizer que algum dos lados não tem argumentos, mas se a mesma fonte de argumentos é negada por um lado e apontada por outro, então outras devem ser buscadas para ambos os lados. A visão reconstrucionista costuma se basear na ideia de que a alma vai para o Outro Mundo e lá permanece com os Ancestrais, algo que já vimos como bastante discutível no último parágrafo, uma vez que nem todos seriam elevados o bastante para serem recebidos ao Banquete de Manannán, e que mesmo os que o fossem carregariam dentro de si o desejo de voltar, fosse Bran, fosse Caoílte, fosse Oísin, fosse Fionn, fosse Arthur. Se os mais elevados dos homens, recebidos no Banquete de Manannán, desejariam voltar, por qual razão o mesmo não ocorreria com os homens comuns? Assim, ao menos o Renascimento poderia ocorrer. Mas a Metempsicose é impossível? Não é o que a mitologia sugere. Na Segunda Batalha de Magh Tuiread nos é citado que Balor jogou da sua torre todos os filhos das criadas que haviam sido engravidadas por Cian. Apenas Lugh, o filho de sua filha Ethne, foi salvo por Manannán, os demais se tornaram as Selkies, as crianças-foca do folclore irlandês. É uma pequena, mas inegável sugestão da possibilidade da continuidade da vida em forma animal. O cancioneiro folclórico irlandês também carrega a memória de homens e mulheres que se tornavam animais; talvez a peça mais impressionante desse aspecto por vezes tão negado da tradição seja a canção tradicional The Bonny Swans, magistralmente musicada por Loreena Mckennitt, onde uma jovem nobre é afogada por sua irmã e se torna um cisne, que por sua vez é sacrificado para a feitura de uma harpa no qual sua alma habitará. Ainda que muitos não levem em consideração o material folclórico, ele nos oferece evidências de que a crença na Metempsicose poderia ser uma verdade no mundo céltico insular. Quanto ao Renascimento, esse também é difícil de se verificar: Taliesin (renascido do ventre de Cerridwen) e Étain (renascida do ventre de Etar) são personagens renascidos, ainda que aqueles que negam essa crença possam alegar que o seu renascimento tenha muito mais a ver com a sua própria morte (engolidos por Cerridwen e Etar) do que por uma crença céltica em si. A resposta poderia estar nos personagens cujo retorno era esperado, mas os mitos também não são claros sobre isso. Ainda que alguns acreditem que Arthur e Fionn “renasceriam” para guiar novamente seu povo, outros alegam que a tendência céltica na criação de montes tumulares amplamente decorados com riquezas poderia indicar a crença na dependência do corpo original e, portanto, mais na “Ressurreição” do que na Reencarnação. Ainda que a crença faça sentido para os nobres e elevados (que, em teoria, possivelmente estariam em um destino abençoado no Outro Mundo), não explica como poderia ser a visão do pós-vida para aqueles que não desfrutavam desse tratamento dado a tão poucos.

Devido a essa escassez de confirmações, o panorama céltico deixa as possibilidades mais abertas a discussões e que poderiam ser respondidas através da comparação com a base indo-europeia. Mas ainda não é o momento de fazer essa tentativa. Aqui fecharemos com o panorama céltico antes de irmos para a próxima área de estudos:

  1. As almas dos homens são imortais e indestrutíveis. (Posidônio, Deodoro da Sicília, Júlio César, Pomponio Mela)
  2. A origem da alma está no Submundo/Mar, o reino para o qual volta na morte. (Júlio César, Ilhas do Norte do Mundo, Terra do Verão)
  3. No momento da morte, as almas partem em uma jornada para o Outro Mundo (normalmente descrita como marítima, mas não só), podendo encontrar vários destinos ou mesmo se perder. (Procópio de Cesárea, Avalon, Preiddeu Annwn, Imramma, St. Collen, Donn)
  4. O guerreiro digno e caído em batalha ou abençoado pelas canções dos Bardos era levado pelas aves carniceiras para o seu destino abençoado. (Sílio Itálico)
  5. Há outra vida junto aos mortos, a “outra metade” da vida. (Deodoro da Sicília, Pomponio Mela, Lucano, Avalon, Bran, Donn)
  6. Os elevados e lendários recebiam um lugar onde provariam do líquido da imortalidade ou de seus frutos, possivelmente ficando no Outro Mundo para sempre. (Avalon, Imramma, Bran, Caoilte, Oisin)
  7. É possível se comunicar com as almas dos mortos. (Estrabão, Pomponio Mela)
  8. A alma poderia encontrar um novo corpo após determinado tempo e renascer (ou ressuscitar). (Júlio César, Posidônio, Avalon, Fionn, Etain, Taliesin)
  9. Quando uma alma volta a esse mundo, outra alma parte para o Outro Mundo. (Peredur, Mael Dúine, Caldeirão de Gundestrup)
  10. É possível o retorno em diversas formas não necessariamente humanas, talvez de forma relacionada à morte. (Taliesin, Amhairgen, folclore irlandês, Selkies)

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A Doutrina do Renascimento Druídico

 

Saindo completamente do padrão, encontramos o movimento do Renascimento Druídico, que possui uma visão própria e bastante particular do caminho das almas: os Três Círculos da Manifestação. Ainda que muitas pessoas atribuam a criação  desse sistema de pensamento a Iolo Morgannwg, a verdade é que eles são citados em documentos anteriores ao seu nascimento. As versões mais antigas em que eles são citados estão nos escritos do poeta escocês James Thomson (1700-1748). Posteriormente, Iolo incluiu o conceito nas Barddas, ainda que não se saiba como eles teriam chegado ao seu conhecimento. Ainda que a maioria das pessoas acredite que uma cópia do trabalho de Thomson tenha chegado às mãos de Morgannwg, há ainda quem acredite na existência em uma fonte comum (e anterior) a ambos. Ainda assim, influências do Budismo e Hinduísmo são bastante visíveis. No geral, não temos como afirmar nada com certeza, a não ser que a crença dos Três Círculos de Manifestação permanece viva até hoje.

Seu sistema de pensamento é mais complexo do que as crenças indo-europeias que estudamos anteriormente, uma vez que foi criada (ou reinterpretada) em uma época muito posterior. Mas, se podemos resumir de forma muito básica, ela existe dessa forma: todas as almas tem sua origem no Caldeirão de Annwn, o reino mineral onde todos os resíduos espirituais se concentram. Quanto mais jovem a alma, mais simples a forma de vida no qual ela encarna, passando por esse processo evolutivo e se tornando gradualmente mais complexa. Quando a alma atinge a complexidade vegetal ou animal, seu lugar de renascimento passa a ser o Círculo de Abred, basicamente o mundo em que vivemos, onde todos nascem, vivem e morrem para renascer novamente, podendo até mesmo retornar a Annwn, dependendo do quanto decaía. Esse ciclo permanece até que a alma tenha evoluído o suficiente para atingir Gwynfydd (“o Mundo Branco), o local de descanso das almas afortunadas, onde irá aprender a sabedoria do Outro Mundo, readquirir todo o conhecimento de suas vidas passadas, ser iluminado pela Awen e atingir um novo ciclo de evolução. Então a alma pode finalmente ascender até Ceugant, a unidade divina com a Criação, a união com o Incriado, quando então pode iniciar o processo novamente.

Obviamente, estamos falando de um processo completamente diferente daqueles que citamos com os povos anteriores. Ainda assim, quando colocamos todas as “cartas na mesa” e buscamos paralelos e similaridades, é impossível não ver alguns pontos em comum. É óbvio que a minha citação a partir daqui é uma busca tentar “casar” diferentes visões que podem (ou não) ter alguma base comum. Por isso, deixo claro aqui que não estou dizendo que a visão do Druidismo do Renascimento tem realmente uma base indo-europeia ou céltica, ao menos dentro de uma análise acadêmica, mas analisando apenas possíveis paralelos e aproximações entre elas. Com a consciência de que estou especulando abertamente, é possível continuar.

  1. Inicialmente, a origem das almas no Caldeirão de Annwn se aproxima da afirmação de Júlio César de que os gauleses acreditavam ser descendentes de Dis Pater, o deus do Submundo;
  2. O ciclo de renascimento em Abred com possíveis retornos a Annwn parece se ligar de forma tênue ao ciclo das almas de nascimento, morte e ida ao submundo.
  3. A chegada a Gwynfydd se relaciona ao destino das almas elevadas (de acordo com os valores filosóficos da espiritualidade), como o Valhalla, o Elíseo ou o Banquete de Manannán.
  4. O último estágio de evolução, o ciclo de Ceugant, talvez seja o mais difícil de se associar a conceitos pagãos. A ideia de se fazer parte da unidade divina com o Incriado pareceria estranha a politeístas estritos (ainda que faça sentido para o Hinduísmo). Algumas visões, contudo, incorporam a ideia folclórica escocesa de Deus como a “Grande Canção” (a melodia universal do qual todos fazemos parte) como uma possível evidência de aproximação. Nesse caso, a Grande Canção não seria um “deus” pessoal (como os pagãos ou o cristão), mas uma melodia universal do qual os próprios deuses pessoais seriam parte, a canção que une a tudo. As visões de Amhairgen e Taliesin (que expressam a unidade com as suas cosmovisões pessoais) seriam lampejos da ligação com a Grande Canção (através da Awen ou Imbas), por isso a Òran Mòr seria uma visão baseada no folclore céltico do Incriado e do círculo de Ceugant.

Essa é uma comparação, contudo, muito dedutiva e ainda superficial. Apenas uma análise de possíveis aproximações, mas com a consciência de que estamos falando de realidades e modos de pensamento diferentes. No final, é possível conectar todas essas visões em uma única, mas ela seria facilmente alvo de dúvidas, críticas e pré-julgamentos. Porém, sou da opinião de que nenhum de nós vive no Outro Mundo para dizer exatamente como são as coisas por lá. Tanto os antigos quanto nós apenas temos relances do que há além do véu e interpretações modernas de ideias antigas não são inválidas apenas por não estarem de acordo com o mundo acadêmico (mas poderiam ser inválidas se estivessem fora do escopo filosófico daquela mesma espiritualidade). Assim, apresentarei aqui uma interpretação alternativa, um tanto ousada e provocativa, mas que se pretende ser fiel tanto aos conceitos básicos e filosóficos célticos e indo-europeus, englobando alguma influência das ideias do Renascimento. Por que? Porque cheguei à conclusão que nenhum desses caminhos é realmente excludente um do outro, mas complementares. Com a plena noção de que isso não será plenamente aceito (e nem quero que o seja) pela comunidade druídica no geral, apresento aqui uma visão que é apenas minha (por isso está no meu blog particular). Qualquer dúvida ou correção a esse respeito, estou à disposição.

O Caminho das Almas: Uma Especulação

Pergunta: Qual o caminho das almas entre os mundos dos vivos e dos mortos?

Resposta: Não é difícil. A alma caminha por terras escuras e enevoadas, navega por mares revoltos, viaja por sendas esquecidas até chegar ao seu berço de origem.

Pergunta: Qual o berço do origem das almas?

Resposta: Não é difícil. O berço da alma é o caldeirão de toda a vida, alimentado pelas águas de todos os mares, aquecido pelo sol de todos os verões e pelo sopro das Nove Damas, movido pelo Deus Gigante que é o Pai de Todos.

Pergunta: Todas as almas vagam pelos mesmos lugares após a morte?

Resposta: Não é difícil. Assim como há lugares e recompensas aos elevados no mundo, o mesmo ocorre no Não-Mundo. Há o Banquete das Eras, os Salões dos Guerreiros, as Casas dos Sábios, mas cada qual deve merecer o seu convite a esses lugares. Há os mundos dos Ancestrais para os que não são elevados, mas também não são vis, onde há reencontro e recuperação. Não se permita acreditar em castigos ou presentes. O Não-Mundo abre as portas do merecimento a todos.

Pergunta: Por quanto tempo dura a outra metade da Longa Vida?

Resposta: Não é difícil. Pelo tempo que somos lembrados. Por isso louvar vossos Ancestrais é importante, para que seu lugar no Outro Mundo não seja perdido. Pois o esquecido é aquele que acena de além do Rio do Esquecimento para voltar ao mundo vivo. Pois é por isso que aqueles que tem o nome imortalizado permanecem por tanto tempo entre os Imortais.

Pergunta: E o que ocorre no momento do Renascimento?

Resposta: Não é difícil. O homem é mergulhado nas águas do esquecimento ao atravessar o Rio Lethe ou ser mergulhado no Caldeirão do Deus Pai de Todos, sendo recolocado no mundo para viver uma nova vida, com uma nova chance de aprendizado e elevação.

Pergunta: Há possibilidade de não retornar como um ser humano?

Resposta: Não é difícil. Dependendo dos seus feitos em vida ou da forma de sua morte, é possível que a forma de um ser humano não seja a escolhida para seu retorno.

Pergunta: E o que ocorre aos Elevados?

Resposta: Não é difícil. Estes se banqueteam com seus Deuses e se deleitam com seus iguais até que as eras do mundo mudem.

Pergunta: E há aqueles que não tem nenhum desses destinos?

Resposta: Não é difícil. As almas que se perdem, que não tiveram seu caminho iluminado, que tiveram seu nome rapidamente esquecido, não alcançam os salões e mares do Não-Mundo. Vagam por terras sombrias que não estão nem neste mundo, nem no Outro, surgindo quando as aberturas estão acessíveis.

Pergunta: E há um objetivo nos ciclos das almas?

Resposta: Não é difícil. Os objetivo das almas é o objetivo das próprias vidas. Aos que desejam se reunir com os Ancestrais deve-se evitar a vileza. Aos que desejam ser elevados à presença dos Deuses deve-se evitar a inatividade. E assim vai, até aqueles que desejam se unir à própria Canção, fonte da Awen e de toda a vida, onde tudo começa de novo.

REFERÊNCIAS:

BURKERT, Walter; Greek Religion; Harvard University Press, Boston, 1987

FARNELL, Lewis Richard; Greek Hero Cults and Ideas of Immortality, 1921

HARRISON, Jane Ellen; Prolegomena to the Study of Greek Religion, 1903

VÁRIOS; A Companion to Roman Religion; Blackwell, 2007

DuBOIS, Thomas A.; Nordic Religions in the Viking Age, 1999

JONES, Constance A. & RYAN, James D.; Encyclopedia of Hinduism, Facts on File, 2007

GREEN, Miranda J.; Exploring the World of the Druids; London, Thames & Hudson, 2005

HUGHES, Kristoffer; Journey into Spirit: A Pagan’s Perspective on Death, Dying & Bereavement; Llewellyn, 2014

GREER, John Michael; The Druidry Handbook: Spiritual Practice Rooted in the Living Earth; Weiser Books, 2006

MYERS, Brendan; The Earth, the Gods and the Soul: A History of Pagan Philosophy from the Iron Age to the 21st Century; Moon Books, 2013

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A Tempestade Está Aqui

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Por Morpheus Ravenna; traduzido para o português por Wallace Cunobelinos com a permissão da autora. A versão original pode ser vista neste link: http://bansheearts.com/the-storm-is-here/ 

 

Por muitos anos eles têm nos dito para estarmos preparados: uma tempestade está vindo. Reúnam o seu povo. Estejam prontos.  A Morrigan me sussurrou isso em uma montanha batida pelo vento na primavera de 2011, e eu logo entendi que pessoas ao redor de todo o mundo estavam ouvindo a mesma mensagem. Dela e de outros Deuses também. Uma tempestade está vindo. Estejam prontos. Unam suas tribos.

Eu sinto que a tempestade está aqui. Nós estivemos sentindo suas agitações por alguns anos, ventos incertos que trazem um arrepio de alerta e carregam o odor de mais por vir. Nós temos operado por algum dentro do declínio em câmera lenta de um império; esses declínios possuem momentos de mudança gradual e tempos de caos e desmoronamentos súbitos. Este é um desses momentos.

Eu não preciso detalhar a vocês a razão para essa postagem: vocês terão visto o choque e o horror girando ao redor do mundo quando a nação mais poderosa e militarizada na terra se colocou nas mãos de um excêntrico demagogo sem respeito pela democracia, à frente de uma turba viciosamente racista, sexista e violenta. Vocês terão visto a onda de crimes de ódio, ataques, agressões e ameaças. Aqueles em maior risco entre nós — a comunidade LGBT, pessoas de cor, imigrantes, muçulmanos, judeus e mulheres — tem os olhos mais claros para o que está acontecendo.

O que fazemos? Nessa manhã, meu propósito aqui não é dar um plano de ação compreensível. Outras pessoas estão desenvolvendo essas coisas e eu posso ter mais a adicionar posteriormente.

O que eu desejo partilhar com vocês é isso: Nossa força está uns nos outros. Vocês não estão sozinhos. E por mais terrível que esse momento seja, muitos de nós tem a consciência encravada em nossos ossos de que fomos feitos para tempos como esses. Nós reconhecemos esse momento como aquele para o qual foi pedido que estivéssemos prontos, de modo que somente esse amor tão feroz de um pelo outro e somente todo esse desafio poderiam brotar em nós. Para que pudéssemos saber que, por mais aterrorizante que possa ser, os Deuses sabiam que os teríamos em nós para resistir e sobreviver se nos juntarmos. A primeira coisa que precisamos fazer é confiar uns aos outros.

Repetidas vezes, das pessoas em minha vida que estão mais em risco do ódio crescente, e do povo que o Sacerdócio Coru esteve aconselhando e apoiando nessa semana, eu tenho ouvido isso: “Eu preciso saber que vocês vão lutar por mim. Eu preciso saber que eu não estou enfrentando isso sozinho. Eu preciso saber que vocês não vão assistir e deixa-los me tornar um alvo”. Eu pensei sobre isso enquanto nos preparávamos para a nossa devoção pública de outono nesse final de semana. As palavras vieram da Morrígan:

Eu não sou um guerreiro, você disse
Por que você me chamou, Rainha?
Eu te chamei para amar
Eu te chamei para fazer do seu amor uma canção de batalha
Eu te chamei porque eu vi seu coração
Pois eu sou a Mãe dos Heróis
E eu conheço o ritmo do seu coração
Você não precisa conhecer as danças das armas
Para ser a lança em Minhas mãos
Você não precisa ser forte no corpo
Para ser o forte corpo da Minha espada
Você precisa apenas se levantar para a batida que o chama
Erga-se para Mim e diga
Empenhe ao seu coração sua batida
Empenhe ao seu povo o amor
Empenhe-se a lutar pelos outros
E eu reconhecerei você como Meu.

E ela nos deu uma promessa para fazer, uma promessa de lutar uns pelos outros. Na noite do sábado, nós nos reunimos perante um altar adornado com Seu ícone e Sua presença. Nós cantamos Seus nomes e oferecemos nossas devoções. Então nós paramos em um anel protetor, circundando e mantendo aqueles que pedem por proteção, e nos comprometemos a lutar uns pelos outros, por aqueles que estão em maior risco do que nós. Nós consagramos alfinetes de segurança para usar enquanto levamos esse comprometimento adiante a cada dia.

Mãe das Batalhas, ouça minha oração
Em tempo de violência, ódio e medo
Que a feroz força do amor me mova
Que a coragem de amor me eleve
Que a tenacidade do amor me enraíze.
Mãe dos Heróis, receba o meu coração
Conceda-me a proteção de sua presença
Conceda-me o apoio da sua hoste
Conceda-me a Luz do Herói
E eu me manterei firme pela união.
Mãe das Vitórias, receba meu compromisso:
Para o meu povo sob ataque,
Eu erguerei minha voz para silenciar o ódio
Eu a erguerei para protege-los da violência
Eu permanecerei convosco quando precisarem de um herói,
Eu enfrentarei o terror convosco
Eu partilharei descanso e proteção convosco
Eu vos abraçarei e lutarei por vós
Eu não deixarei o estado de alerta
Até que a tempestade passe e a soberania da justiça surja
Pois eu sou o corpo do amor
Eu sou a arma do amor
Eu sou o amor lutando por si mesmo.

Eu partilho isso com vocês, pois espero que seja de alguma ajuda. Todos lendo isso nesse momento, mesmo se você não tema por si, você tem pessoas na sua vida que estão em risco, que precisam de sua solidariedade e apoio. Ficará mais difícil antes de se tornar mais fácil, e a coisa mais fácil do mundo será deixar esse momento passar e se tornar o novo normal sem resistência. Vai nos custar proteger uns aos outros; isso significa assumir riscos para a nossa própria segurança, nossos trabalhos, nossa posição social. Mas saiba, e mantenha esse conhecimento, que a Luz do Herói irrompe sobre aqueles que escolham se arriscar a serviço de seu povo acima da segurança pessoal. Saiba que os Deuses da batalha e soberania estão com você quando você resiste e luta pelos outros. Saiba que é para isso que fomos feitos: para amar uns aos outros e viver.

Se essa promessa te inspirar a fazer um comprometimento similar, você é bem vindo. Adapte-a como quiser: altere a oração para incluir suas próprias divindades. Escreva outra. Diga-a perante seus Deuses, e de alguém na sua comunidade que pode receber seu comprometimento.

Nós podemos fazer isso, amigos. A vida que está em nós, a coragem, o coração, a alma, a vontade em nós são o suficiente. Se amarmos uns aos outros e deixar que esse amor ser o que mais importa.

Redes de solidariedade que provém ajuda e apoio mútuos estão sendo tecidas enquanto falamos. Se você precisar de apoio, procure-as. Como minha honrada amiga Elena Rose diz, “Encontre uma mão e a segure”.

 

(NOTA DO TRADUTOR: Aqui o post cita diversas redes de solidariedade no território norte-americano; eu as manterei em respeito ao artigo, mas é óbvio que devemos encontrar redes apropriadas em nossos próprios países)

 

Postagens recentes sobre resistência e redes de solidariedade:

Resistance Matters

Solidarity Networks

Crisis support:

National Suicide Prevention Lifeline: 1-800-273-8255

Trans Lifeline: (877) -565-8860

Trevor Project: (866)-488-7386

Helpful organizations:

Resources for Social Change

Organizing for Power

Black Lives Matter

Showing Up For Racial Justice

Campaign Zero against police violence

Support Muslim people in your community with Council on American-Islamic Relations

Help immigrants and new Americans

RAINN: Rape, Abuse & Incest National Network aiding victims of sexual violence

ACLU: Working for civil rights and constitutional liberties

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A Assembleia dos Corvos

Para lá, para cá
Entre gritos e grasnados,
Entre vento, névoa e chuva
Entre confusão e não-saber
Essa é a estação dos espíritos.

Para lá, para cá,
Como a revoada de corvos
Para cima, para baixo
Com medos e alegrias
Essa é a estação das brumas.

Onde nada é o que se é,
Onde nada é o que parece
Onde a vontade é trêmula
E a espada não se sustenta.
Essa é a estação da indefinição.

Para lá, para cá
De cá medos foram trazidos
Para lá, para cá
De lá novos medos ecoaram
Essa é a estação dos medos.

Para lá, para cá,
Como o grasnar dos corvos
Como as vozes mil espíritos gritando
Com as ondas de emoções caóticas
Essa a estação das dúvidas.

Para lá, para cá,
Para lá foram os medos de que não os ama
Para lá, para cá
Para cá ficou apenas o que optamos por carregar.
Essa é a estação de Samonios.

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Imagem “Flight of the Ravens”, por Humanoid1

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Sobre Forjar Uma Espada…

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Quantas espadas foram forjadas? Quantas espadas se bateram contra escudos e resistiram a seguidas batalhas? Quantas espadas se quebraram, se dobraram, se mostraram inúteis para os seus donos? Todas elas foram criadas como espadas, mas todas elas mereceram ser chamadas assim? O quão bem criamos essas espadas? E será que realmente soubemos forja-las? Quais dessas espadas serão lembradas pela eternidade, imortalizadas em lenda e conto, tais como Excalibur e Kaladwulch, como Gram e Nothung? E quais não passaram de adornos e enfeites caros para seus donos?

A espada deve ser forte, isso é fato; mas primeiro deve ser flexível. Engana-se aquele que acredita que uma espada deve ser inflexível desde o início. Isso só vale para espadas feitas por outrem, compradas ou recebidas como presentes, e que devem ser utilizadas usando as técnicas previstas por aquele que a forjou. Uma espada recebida pronta não deve ser forçada mais do que o esperado, nem pode ser demasiadamente decorada sem ser danificada; ela veio pronta e seu uso deve ser respeitado, não deturpado por aquele que a recebe, de outra forma ela se quebra ou se torna inútil, uma decepção para ambos. Se uma espada recebes, conheça-a, não leve-a além dos seus limites, e não tente transforma-la em algo que não é. Se ela falhar, há uma boa chance de que você não a conheceu bem.

Resta-nos então forjar nossas próprias espadas; e aqui retornamos ao que foi dito: ela não é rígida e inflexível desde o início. A espada precisa ser forjada, ou nada será além de um pedaço de metal que de nada servirá. Ela deve ser moldada, aquecida e feita moldável pelo fogo, elemento divino dos Deuses, destrutivo e inspirador; moldada pelos golpes de martelo, da habilidade e da inspiração do artesão; endurecida pela água fria, elemento do fluxo e do aprendizado. E esse processo deve se repetir mais e mais vezes, antes que a espada esteja pronta; engana-se aquele que acha que a primeira forja é a definitiva. A espada é feita e refeita, é tornada melhor, com maior balanço, equilíbrio, resistência. Ela deve ser eficiente e equilibrada antes de ser bela ou assumir a sua forma definitiva, que nem mesmo é definitiva; pois, se ela é uma boa espada, por muitas batalhas passará, e novas forjas e novos gumes terão de ser feitos. A espada pode ser resistente, mas ainda está em transformação constante; ao menos as melhores, pois as piores simplesmente se quebram.

Nunca despreze o conhecimento ao forjar uma espada; nunca se torne uma cópia do ferreiro original, pois sempre será uma cópia mal-feita. Você é um ferreiro do mundo antigo? Aprendeu tua arte com o próprio Gobannus? Então não tente sê-lo; não pense que o conhecimento do ferreiro antigo é mais válido do que o conhecimento do ferreiro atual; aprenda-o, aperfeiçoa a arte, torna tua espada melhor. O passado deve servir de inspiração, não de correia; aquele que se prende apenas à técnica aprendida, sem aprimora-la pela inspiração e pelo próprio conhecimento, faz com que ela se torne como água turva, imprópria para o uso, e envergonha o mestre original por não saber leva-la adiante. Mestres não criam discípulos para serem suas cópias, pelo menos não os bons; mestres criam discípulos para que sua arte perdure, e seja levada a níveis mais altos.

Belos ornamentos tornam uma espada nobre, mas nunca devem ser mais importantes do que o seu corpo, o espírito da lâmina. Se a espada é desbalanceada ou mal-forjada, teus cabos de marfim incrustados de madrepérola e tua guarda dourada são apenas um chamariz de atenções indesejadas. De nada valem as runas ou sinais místicos gravados em uma lâmina se feitos apenas para mostrar a perícia do artesão ou riqueza do dono; elas só são válidas, verdadeiras bençãos dos Deuses, se incrustadas na sua forja, vindas do mesmo fogo da inspiração que o ferro e o aço que sofreu os golpes do malho. Nem a mais bela espada dos forjadores do Daguestão é feita priorizando a beleza mais do que a confiabilidade; caso contrário não seriam espadas, seriam enfeites.

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Alguns buscam criar novas ligas para suas espadas, misturando diversos materiais; esse processo não deve ser desencorajado, mas deve ser observado com cuidado. É através da mistura que o ferro se torna aço, o casamento alquímico que faz a espada mais forte e eficiente. Mas nem toda a mistura terá o mesmo resultado; observa a espada e observa as tuas necessidades. Se acredita que um novo casamento alquímico é necessário, testa-o e descobre se é funcional; nem sempre o será: se mistura o chumbo ao ferro, torna a espada pesada e desbalanceada, se usa por demais o cobre ela pode ser maleável demais. Qual mistura é realmente necessária e qual não? Buscas a criação do aço damasco ou o retorno ao bronze? Pesar os prós e os contras nos traz diferença entre a criação da espada mais forte e a quebra na primeira batalha.

Mais do que tudo, voltemos ao começo; se tua espada está pronta e forjada, ornamentada e em uso, isso não é o fim. Ela deve ser cuidada, polida, guardada, afiada constantemente e reforjada quando as marcas do uso forem grandes demais. Nem a espada é um objeto imutável, ela está em constante formação. Espadas que foram criadas sem que esses conselhos sejam seguidos podem falhar na primeira batalha, então é melhor que sejam apenas ornamentos sem pretensão de seriedade ou ofertadas aos Deuses. Mas aquelas que foram forjadas e mantidas adequadamente prevalecerão pelas eras.

Assim o é com as espadas; mas não apenas com elas.

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Uma Caminhada Pelo Meio Druídico Brasileiro: Acertos, Erros e Lições

Lembro-me bem de quando entrei nesse meio; talvez não faça tanto tempo assim, já que as memórias são tão nítidas. Mas me lembro de quando era uma pessoa bem mais jovem do que sou hoje, sem nenhum dos pelos grisalhos que hoje despontam pela minha barba, e que já era um grande admirador e pesquisador informal da cultura céltica; lembro-me de quando descobri no Brasil tentativas de continuidade da espiritualidade desses povos antigos (e meu primeiro grupo, Brigantia, talvez tenha sido o meu primeiro erro; ou talvez meu primeiro aprendizado), o que me surpreendeu em um primeiro momento, uma vez que apenas conhecia as iniciativas dos países anglófonos (principalmente a ADF e a OBOD). Naquela época o Druidismo no Brasil era muito diferente do que é hoje; existiam poucos grupos, alguns ligados à ordens druídicas do Renascimento, mas tudo era mais isolado, havia pouco contato e intercâmbio. Entre grupos voltados para vertentes mais recentes do Druidismo, de escola norte-americana e britânica, o contato existia, mas muito mais esporádico, e o contato ocorria principalmente pelas velhas listas do yahoo; as lideranças eram outras, os referenciais que o Druidismo tinha no Brasil eram outros. De alguma forma, tenho muita saudade daquela época; foi um período de puro aprendizado, de descoberta, que abracei com tudo o que podia.

Mas claro, a Roda gira, e nada permanece a mesma coisa. O final da denominação druídica (a ODB) ao qual eu havia me afeiçoado coincidiu com a popularização das redes sociais no Brasil (no caso, o Orkut); e isso tudo trouxe uma revolução. Por um lado, o final da ODB trouxe uma cisão dentro de seus membros, que precisaram encontrar seus próprios caminhos. Eu permaneci com alguns membros de São Paulo, pessoas muito mais inteligentes, experientes e sábias do que eu jamais fui. Com eles eu recebi diversos ensinamentos, fontes de pesquisa, aprendizado,e experiência. Essa iniciativa logo recebeu um nome, o Projeto Ramo de Prata, e foi a continuidade literal do que a ODB era; pelo menos para mim, uma vez que continuou o processo de aprendizado daquela época. Mas os tempos estavam mudando, e as redes sociais estavam aproximando a diversos segmentos do paganismo brasileiro; a popularização do movimento Reconstrucionista reaproximou dois ramos separados da ODB, e o primeiro documento sobre ele no Brasil foi criado em colaboração. Os recons também se aproximaram dos grupos ligados às expressões mais recentes do Druidismo, principalmente de influência britânica, mas também alguns de linhagem druídica francesa se aproximaram; eu costumo chamar essa época (privativamente) de Aurora do Druidismo no Brasil, pois não houve uma época igual até então. Os grupos de São Paulo começaram a se encontrar e interagir (ok, tivemos um empurrãozinho sulista para isso), e nos tornamos amigos a ponto de não apenas celebrarmos juntos, mas de por vezes nos encontrarmos em pubs e restaurantes apenas para confraternizar e bater papo sobre a vida. O nosso movimento começou a se organizar, e frutos disso são vistos até hoje; se hoje existem o CBDRC e o EBDRC, bem como o contato constante entre diversos grupos, ele se deve a esse momento; aliás, muitos grupos só nasceram graças a ele, quando o intercâmbio, ajuda, e troca de informações se tornou mais intensiva. Nem todos participaram de todos os momentos dele, alguns estiveram fora, outros se afastaram por polêmicas desnecessárias, mas muito do que o Druidismo brasileiro é (e ainda pode ser) vem dessa articulação, que pavimentou muitos dos caminhos pelos quais andamos.

Mas esse texto não é sobre o Druidismo; é sobre a minha caminhada pessoal por ele. E o que ocorreu comigo durante esse tempo? Nos momentos iniciais eu ainda mantive a mesma posição de antes: era um aprendiz, um estudante. Mas é natural que você queira apresentar alguma opinião quando o seu conhecimento e envolvimento cresce, e muitas opiniões foram apresentadas por mim. Boa parte delas foi bem recebida, o que gerou perguntas, que geraram mais pesquisa, mais respostas e mais opiniões. Como membro do movimento Reconstrucionista (do qual sempre serei um dos pioneiros no Brasil, mesmo que minhas opiniões tenham mudado muito desde então), sempre embasei bem meus estudos, e sempre tentei manter a coerência nas minhas posições e colocações; ao contrário do que muitos pensam, minha visão do Reconstrucionismo sempre foi de ‘colocar os pingos nos “i”s’, de esclarecer o que era e como era, mas nunca de restringir o que é (ou como é). Passado é passado, presente é presente, e embora eles se misturem bastante, a Roda tem que girar e não podemos nos prender a isso. Mas graças a tudo isso fui chamado (convidado) a ser mais do que um estudante, mas a ser um daqueles que traria mudanças à nossa comunidade; e aqui não posso dizer com certeza se cometi erro ou acerto. Fui convidado por uma pessoa muito querida a coordenar um grupo de estudos com enfoque reconstrucionista; aceitei por acreditar que poderia fazê-lo, que meu conhecimento era o suficiente. Estava errado; não era, nem de perto, o suficiente.Fui convocado por diversas pessoas a participar da eleição do primeiro triunvirato que trabalharia pelo CBDRC; aceitei com relutância (entreguei minha candidatura no último dia, pelo que me lembro), apenas para que houvesse de fato uma eleição, pois haveria apenas uma nomeação compulsória dos candidatos até então. Aqui acredito que possa ter acertado, pois pude conhecer melhor o trabalho de pessoas verdadeiramente comprometidas com o Druidismo, com a liderança, sabedoria e conhecimento. Após isso fui convidado a fazer parte da primeira Diretoria eleita do CBDRC, e novamente aceitei, honrado pelo convite; e aqui talvez eu tenha errado, pois diversos fatores (muitos dos quais por minha culpa) atrasaram o andamento do processo do Conselho.

Parágrafo particular merece o Ramo de Carvalho; hoje ele é um motivo de orgulho, e se torna cada vez mais forte. Mas se eu acreditava que apenas o conhecimento que eu tinha na época era o bastante para manter o grupo, logo aprendi que não. Eu possuía algum nível de conhecimento histórico e antropológico, mas pouco de aspectos fundamentais à espiritualidade: cosmologia prática, filosofia prática, espiritualidade prática, aquilo que as pessoas precisam para carregar a crença consigo. A história é muito, mas não é tudo; e não vivemos no mundo da história, vivemos no mundo atual. Se você tem problemas em se adaptar a ele, você se torna irrelevante; e acredite, quem lembrará de seus nomes com respeito, quem fará o brinde em sua homenagem, quando seus ossos estiverem sob a terra e você tiver colecionado inimigos, rancor, ou apenas sido ignorado pela sua falta de competência de trazer relevância à sua fé no mundo moderno? É aqui que temos que fazer a diferença, nessa época, e não importa o quão diferentes as pessoas são dos celtas antigos, é a elas que temos de falar, e só com elas podemos fazer a diferença. Assim, o Ramo de Carvalho enfrentou tempestades (por motivos pessoais também, não nego), e por diversos momentos me perguntei se havia um motivo para ele continuar existindo; mas os Deuses me mostraram que sim. Quando ele estava na pior crise da sua história, veio a melhor turma-semente até então (a terceira), cheia de pessoas incríveis, inteligentes e comprometidas. Por elas (e pelos remanescentes das primeiras) eu não tinha como desistir. O Ramo veio se modificando desde então (e vai se modificar muito mais em breve), abandonando a sua base reconstrucionista (a não ser como metodologia de estudos, que é o que o Reconstrucionismo é, no final das contas) e abraçando a sua influência druídica), e alterando os seus objetivos primários, e se tornando mais forte. Ainda há o que mudar, há o que melhorar, mas tudo indica que vamos na direção correta.

Nesse meio tempo o Druidismo continuou se movimentando, o espírito fraterno daquela época de movimentação inicial diminuiu, embora tenha permanecido entre os grupos que se irmanaram naquela época; pessoas novas surgiram, buscaram seu lugar, pessoas antigas ressurgiram, tentaram a mesma coisa, nem sempre com coerência ou respeito pelo trabalho que tinha sido feito; grupos nasceram, grandes promessas surgiram no horizonte, apenas para se apagar quando os mesmos grupos sumiram, alguns por se dispersar, outros apenas por caírem na irrelevância criada por suas próprias atitudes. E erros e acertos foram feitos, dentro e fora do Ramo de Carvalho; mas só então eu admito qual foi o meu maior erro: o meu erro foi acreditar que sabia o suficiente quando não sabia, e ter trabalhado tanto (tanto pelo Ramo quanto pela comunidade druídica) quando deveria ter continuado estudando. Hoje o Ramo de Carvalho e o CBDRC são minhas prioridades druídicas, mas não apenas como coordenador, instrutor, gestor; hoje o Druidismo é, novamente, uma fonte de estudos para mim. O meu erro, o maior deles, foi ter parado de estudar para ensinar; hoje eu entendo que preciso de ambos para um trabalho mais forte e honesto dentro do Druidismo. Esse texto não tem um fim, pois minha caminhada não terminou; na verdade, ela recomeçou. Eu ainda sou Wallace Cunobelinos, Bardo e coordenador do Ramo de Carvalho; mas hoje eu reconheço novamente que sou também um aprendiz.

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Pela primeira vez no nordeste!!! Cronograma e Informações: http://ebdrc.wordpress.com/v-encontro-brasileiro-de-druidismo-e-reconstrucionismo-celta/

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IV Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

E lá se foi o quarto; lembro-me até hoje quando a ideia do primeiro foi divulgada. No início, alguns tinham dúvidas; no início , alguns duvidaram que pudesse dar certo; eu mesmo não estive no evento (e como me lamento por isso; ah, se o arrependimento permitisse fazer a roda girar ao contrário…), mas ele aconteceu, graças ao trabalho de alguns visionários (presentes neste evento, três vezes louvados sejam seus nomes). E agora chegamos ao quarto; acho que não há mais dúvidas sobre ele e seu objetivo. Cada ano teve sua tônica, cada ano teve seu estilo particular, mas o espírito sempre foi o mesmo: agregar, conhecer, trocar, ensinar, aprender, plantar e deixar florescer. O EBDRC já fincou suas raízes, e os seus ramos crescem mais e mais em direção aos céus.

O evento desse ano foi lindo. Foi emotivo. Foi agregador. Como se os ventos dos encontros anteriores soprassem sussurrando seus segredos, o que havia de forte neles estava presente, ainda que com algumas tristes ausências, tanto de pessoas que gostaríamos de rever, quanto de pessoas que gostaríamos conhecer. Mas o evento também trouxe novos membros à nossa comunidade, que são “novos” apenas no sentido de participar do evento pois já tem raízes fincadas no cenário druídico brasileiro, apenas para abrilhantar o evento. Sua força juntou-se à nossa força, e todos saímos de lá com a sensação de ser o bosque sagrado, cada qual sendo o axis mundi, participando da ligação entre os Três Mundos sagrados. E o público, ah, o público, é tão difícil chamar de “público”, pois o evento é feito por todos, e todos os presentes agregaram sua própria força e energia; fico muito feliz em ver tantos rostos novos, e espero que essas sementes floresçam e embelezem ainda mais a nossa crença no futuro.

No evento deste ano aprendemos como  reconhecer o Sagrado expresso no corpo, como uma representação microcósmica da própria Terra, e a ativar as propriedades dos Três Caldeirões sagrados no corpo; honramos aos ancestrais da Terra; aprendemos com emoção como nos relacionar com o Deus Druida, o Pai de Todos, o cultivador, o guerreiro, o solar, e cantamos em sua honra; dançamos e rodopiamos em honra às terras de origem de nossa tradição (e digo novamente, dançar é algo extremamente libertador e divertido; ainda ouvirão muitas reclamações minhas sobre isso, mas é só em tom de brincadeira mesmo…); aqueles que optaram por sentir o calor do ventre da Terra o sentiram, e aqueles que optaram por interiorizar a caminhada do espírito, puderam fazê-lo; aprendemos a trabalhar nossos sentidos para guiar nossas barcas às Ilhas Abençoadas; aprendemos que o homem nasce da Terra, e seu destino é à Terra retornar para novamente nascer, pois a vida ocorre em ciclos; aprendemos que o Druidismo não ocorre apenas em dia de rituais, ou apenas quando se está em meio às florestas, mas ele deve ocorrer em nossas casas, nossos lares, nossas vidas; aprendemos a criar o talismã da Senhora das Três Chamas, protetora do lar e da família, aprendemos a observar o mundo sutil, aprendemos que o caminho dos Antigos envolvia a luta e o combate; celebramos, entre pessoas e espíritos, e aprendemos como se relacionar com aqueles ao nosso redor, mesmo que não visíveis; aprendemos que não é apenas dos sacerdotes que nossa crença vive, e que todos são necessários para mantê-la forte.

O Druidismo sempre foi múltiplo, sempre foi mutante, sempre foi adaptável; e assim ele é no Brasil. E dessa forma ele vai crescer, enquanto houver pessoas dispostas a trabalhar umas com as outras, independente das diferenças em suas linhas de pensamento. Como o Druida do meu grupo costuma dizer, “uma floresta não é formada por um só tipo de árvores”; esse ensinamento é verdadeiro, e o exemplo é o próprio evento, que cresce a cada ano, englobando mais árvores diferentes ao nosso bosque. Que os velhos tempos de conflito e críticas fiquem para trás, não mais como uma pedra no meio do nosso caminho, e que essa pedra seja coberta pelo musgo das eras e o pó do esquecimento. Para aqueles que olham para frente, nos vemos ano que vem em Recife!!!

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Sobre a Mitologia Britônica: A Korrigan

Os Celtas sempre viram a natureza com muito respeito e reverência; as florestas de seu território eram motivo de louvor; podiam ser locais de culto, como os romanos nos dizem, ou podiam ser locais de louvor, como a poesia do Ciclo Feniano nos mostra, pois os Celtas (e sua casta erudita, os Druidas), dentro do seu pensamento animista, sabiam reconhecer os valores espirituais dos bosques, que eram a morada de Deuses, espíritos e fadas. Mas se as florestas eram  a morada das fadas, isso não quer dizer que fossem lugares completamente seguros; na verdade, uma parte do respeito e da reverência que eles tinham por elas vem do temor que nutriam pelo “Belo Povo”; muitas das fadas, dentro da cultura celta, tinham ligações diretas com as deidades desse povo, podendo ser originalmente Deuses na sua concepção original, como é o caso de Áine, Fionnbhearra, e Gwynn ap Nudd. Outras eram espíritos guardiões das florestas e de outros pontos naturais, vivendo próximas à população campesina. Mas sempre eram fruto de temor, pois seu temperamento era mutável como a natureza, e algumas eram abertamente temidas pelo povo. Um dos exemplos era a Korrigan, uma conhecida entidade que era conhecida na Bretanha.

Oficialmente, não temos como identificar se a Korrigan era originalmente uma divindade cultuada, ou um espírito da floresta que tinha por hábito atacar aos mortais (como Fionnbhearra). Na verdade, é difícil definir a Korrigan, ou mesmo dizer que ela é apenas “uma”. Na verdade, é provável que o nome se refira a dois tipos de seres; em bretão a palavra korrig significa “gnomo, duende”, enquanto korr significa “anão”, mas essa classificação não se aplica a todas as lendas das Korrigane, embora se aplique a algumas delas. De fato, em algumas definições, a palavra é usada para haver uma distinção dos Nains (“anões), enquanto outras igualam os dois tipos, principalmente nas regiões de Morbihan  e Finistère; o folclore europeu sobre os Changeling (crianças que teriam sido trocadas por crianças fadas durante a noite) atribui aos Korrigane a troca dos bebês, e uma criança considerada tendo origem no Outro Mundo convivia com o apelido de “pequena Korrigan”. Mas essas não são as Korrigane a que me refiro hoje.

As Korrigane de que eu falo são espíritos antigos que a habitam a floresta de Brekilien (a Brocéliande do mito arthuriano); tão belas e poderosas que são capazes de dominar o coração do mais fiel dos homens, e fazer com que ele se apaixone perdidamente pela donzela com cabelos “como fios de ouro,” e lábios risonhos, mas com ameaçadores olhos vermelhos. Em outras vezes, elas podem surgir como uma bela corça branca, pronta para atrair caçadores e cavaleiros para a floresta. Elas costumavam sempre ser encontradas junto às fontes e poços da floresta, e sua beleza é tamanha que afasta mesmo a escuridão, seja do dia ou da noite; em muitas lendas, como a do “Senhor de Nann”, é dito que as Korrigane exigem daqueles que se aproximam desses poços e fontes o casamento, em troca da permissão para deles beber. Aqueles que bebem sem a sua permissão estão fadados a morrer em cerca de uma hora, mas por vezes elas podem trazer esse destino mesmo àqueles que simplesmente se recusam (nesse caso a morte viria em três dias); algumas versões ainda dizem que elas seduzem homens para afoga-los em seus poços . Os camponeses dizem que ela (ou elas; de acordo com um antigo poema bretão, Ar Rannou, existem nove delas, “que dançam , com flores em seus cabelos, e vestidos de linho branco, ao redor da fonte, sob a luz da lua cheia”) é uma antiga princesa pagã da Armórica, e que foi banida para a floresta pela chegada do cristianismo, ao qual ela negou se converter; outros dizem algo parecido, que elas eram sacerdotisas pagãs que recusaram a cruz.

As ligações da Korrigan com a antiga espiritualidade britânica é clara; o mito das nove sacerdotisas sagradas é encontrada tanto no mito galês (como as nove donzelas do Outro Mundo cujo sopro acende a chama que aquece o Caldeirão no Preiddeu Annwn) e na pseudo-história das descrições romanas (como na descrição de Pomponius Mela, das ilhas Cassiteridas, habitadas por nove sacerdotisas virgens, com dons de cura e divinação); a crença em um conjunto de espíritos femininos que viveria no isolamento é um padrão comum na mitologia céltica. Vale lembrar que elas recusam a conversão cristianismo e por isso são banidas, o que pode indicar que elas pertencem ao passado selvagem, viventes na floresta e que não tinham mais lugar no mundo cristão que surgia (de fato, é dito que elas odeiam padres, igrejas, e a Virgem Maria). Em algumas lendas bretãs é dito que elas podem predizer o futuro (fornecendo mais uma ligação com a descrição de Pomponius Mela), em outras elas roubam crianças e trocam por filhos das fadas, mas nitidamente seu papel é no paganismo anterior. A sua ligação com os poços e fontes, ambos lugares sagrados para o mundo céltico, é uma pequena evidência de uma possível sacralidade anterior na figura das Korrigane, pois são pontos de oferenda, bem como entradas para o Outro Mundo; afogamento é uma das formas que conhecemos de sacrifício dos Gauleses, e as lendas podem guardar um resquício dessa prática, ou mesmo sugerir a fúria de um espírito antigo que reclama sua parte deste mundo quando esta se aproxima. A ligação com a morte é tamanha que suas lendas sempre dizem que elas não saem de perto de suas fontes e poços, a não ser no Samhain (a noite do dia 31 de outubro), quando elas se aproximam dos dólmens e menires para espreitar.

A lenda das Korrigane pertence ao mundo do mito britânico; talvez não fossem deidades no sentido estrito da palavra, mas eram espíritos respeitados e temidos no mundo antigo. Ainda que normalmente pareçam hostis à humanidade, em algumas poucas lendas há a sugestão de contato benéfico com elas. Elas habitam os lugares sagrados da nossa tradição, dólmens, menires, fontes e poços sagrados. E são um eco do passado pagão que resistiu (voluntariamente, de acordo com a lenda) ao cristianismo; por isso, merecem nosso respeito, e pelo menos uma lembrança delas junto aos espíritos da natureza no Samhain; porque

E korole nao c’horrigan,
Bleunvek ho bleo, gwisket gloan,
Kelc’h ar feunteun, d’al loar-gann.

(“Dançam nove Korrigane,

Com flores nos cabelos, de branco vestidas,

Ao redor da fonte, sob a lua cheia”)

Villemarqué, Barzan-Breiz

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Resenha: Aírechtas de Primavera 2013

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No dia 05 de Outubro de 2013  foi realizado o segundo ciclo de palestras do Aírechtas: Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba. Como a primeira edição, realizada no outono deste mesmo ano, o evento primou pela organização impecável, sempre mérito do grupo Fína na Dairbre; o evento está se tornando a grande referência do Druidismo em Curitiba e sempre atrai pessoas de outros estados, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Dessa vez não foi diferente; e mais uma vez esse Bardo partiu para a bela (e já tão querida) cidade de Curitiba para participar desse evento, novamente a convite do Fíne na Dairbre Protogrove ADF, que sempre me proporcionam essa honra, além de  serem anfitriões de primeira categoria, verdadeiros adeptos da virtude céltica da Hospitalidade. Agradeço  aqui novamente à Marina Holderbaum e ao Erik Wroblewski pela recepção, abrigo e boa conversa, como sempre.

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Palestra da Marina

O evento foi realizado no Solar do Rosário, no Centro Histórico de Curitiba, um lugar muito bonito e aconchegante, e que acolheu a todos com muita honra. O equipamento estava perfeito, mais um mérito da organização. O público foi chegando aos poucos, mas logo todos estavam no local; e o evento começou sem grandes atrasos. A primeira a falar foi a anfitriã e organizadora, Marina Storino Holderbaum, a querida Enbarr de quem a conhece do meio druídico, do Fíne na Dairbre, com uma oficina sobre Meditação Druídica, enfocando as técnicas de meditação usadas por grupos de orientação Reconstrucionista, exemplificando claramente as diferenças entre as diversas formas de meditação, como entre a Oriental e a Ocidental, e usando exemplos da mitologia gaélica como base para demonstrar como poderia funcionar o processo de meditação dos antigos Fíli da Irlanda; uma palestra realmente muito proveitosa. Após o final da palestra, com direito a um bate-papo sobre o tema, veio a vez deste que voz escreve subir ao palco; como foi minha palestra, não vou me deter muito sobre ela, deixando apenas o assunto (“Mitologia Celta e a Ligação com a Natureza”),  e um pedido de desculpas por ter me estendido MUITO no tempo da palestra; apesar de eu sentir que a mensagem tenha sido passada a contento. E mesmo com a minha demora, havia uma palestra genial por vir: José Paulo Almeida, da Clareira Coré-Tyba (Curitiba) e do Caer Ynis (Florianópolis), veio com um tema que hoje ganha cada vez mais relevância no Druidismo moderno e no Reconstrucionismo, “Entre a Fé e a Espada: Vivendo a Fé Celta no Caminho do Guerreiro Poeta”. Certamente os Deuses inspiram esse homem, pois sua palestra não beirou a perfeição, ela a atingiu com louvor; JP é um dos grandes articuladores dos diversos movimentos druídicos e reconstrucionistas do Brasil, talvez um dos membros essenciais de nossa comunidade hoje, e a mensagem que ele passou foi marcante: em um meio com tantas pessoas buscando seguir um caminho sacerdotal, precisamos de mais “guerreiros”, de mais pessoas que estejam dispostos a nos defender com as armas que o mundo moderno exige.  Precisamos de mais homens e mulheres dispostos a encarnar o espírito dos antigos Fianna nos nossos dias. De pessoas que sejam guerreiros, não pelo prazer da discussão e disputa, mas pela defesa de nossa tradição. Uma palestra realmente memorável.

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Apresentação do Thunder Kelt

Após a palestra do JP, partimos para um almoço coletivo em um pub irlandês próximo, aproveitando um dia quente e agradável em Curitiba, e desfrutando da beleza do seu Centro Histórico; um almoço agradável, com conversas sobre assuntos diversos, como tem de ser entre amigos. Mas logo voltamos ao Solar para continuar o evento, já com as barrigas cheias. E começamos com um belo show da banda local Thunder Kelt, que conta entre seus membros Leandro MacLorihem, da Brathair na Fiachán Gorm, e uma participação especial do incrível vielista Raine Holtz; fomos presenteados com um ótimo set canções típicas da Irlanda, Escócia e Galícia. Com todos novamente “no clima”, foi a vez de Ana Elisa Bantel subir ao palco, com mais uma palestra fantástica, falando sobre o papel da mulher na sociedade céltica; usando habilmente exemplos da mitologia Ultoniana, essa hábil historiadora desmistificou muito do papel feminino na sociedade céltica antiga; o tema já foi abordado de muitas formas dentro do nosso meio, mas a Ana merece aplausos, não só pela abordagem atual, mas também pela maneira que ela organizou os tópicos, usando uma personagem feminina para representar um diferente aspecto do papel feminino na sociedade tribal irlandesa. Uma palestra para aplaudir de pé. Então veio o historiador Erik Wroblewski, do Fíne na Dairbre, com mais uma palestra para ficar na memória, pois desmistifica muitas ideias preliminares sobre a cristianização da Irlanda; de fato, Paganismo e Cristianismo nas Fontes Literárias da Irlanda Tardo-Antiga desfez vários mitos a respeita da entrada do cristianismo na Irlanda, o papel de Patrício, e o convívio entre as duas religiões na ilha durante algum tempo; por trabalhar com fontes sempre atualizadas (como é normal para alguém de abordagem acadêmica), Erik pode falar com propriedade sobre o assunto, e demonstrou com grande quantidade detalhes como o cristianismo se assentou gradualmente na Irlanda antiga; no mínimo, memorável. O evento se aproximava do final, mas havia ainda um workshop a ser feito, e ele veio com  a organizadora Marina Holderbaum, falando sobre a confecção de oferendas votivas para rituais; Marina tem um dom artístico raro, além de uma base de estudos rara, o que gerou um workshop  apreciadíssimo por todos, inclusive com  uma discussão bastante longa e elucidativa sobre a diferença entre oferenda e sacrifício; admito que já estou fazendo meus testes aqui com o que aprendi lá. E esse workshop fechou o evento com chave de ouro, deixando com a todos com gosto de “quero mais”.

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Palestra Erik Wroblewski

Após o final do evento, partimos para uma noite de celebração entre amigos, conversando animadamente sobre diversos assuntos novamente; o clima era agradável e amigável, e todos nos divertimos muito. Agradeço de novo a todos os organizadores, aos grupos druídicos de Curitiba por estarem criando uma cena tão maravilhosa na sua cidade (de longe a cena druídica que mais cresce no nosso país), aos amigos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul presentes, e à cidade de Curitiba por me receber novamente; é sempre uma honra receber o convite, e sempre faço o melhor para corresponder às expectativas. E como é de costume, eu sempre volto com mais do que fui (fora o conhecimento e experiência adquiridos), e agradeço aos meus amigos, os anfitriões Marina e Erik, pelo presente recebido, a muda de carvalho, que já está alojada confortavelmente em casa. Sláinte, a chairde!! Até a próxima!! Para a comunidade druídica nacional: nos vemos no EBDRC!!

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Descansar, soldado!

(uma última inspiração do Samhain, uma homenagem merecida a quem partiu no início desse ano; lamento que essa homenagem seja póstuma, tão tardia, mas hoje, olhando o todo, vejo que você merecia muito mais; pai, eu sinto saudades, mas espero que tenha encontrado seu caminho para as Terras Eternas, e que nos encontremos no mundo renovado) 

Descansar, soldado,

Pois sua missão terminou;

Sua marcha está encerrada,

Sua arma guardada,

Sua batalha terminada,

Sua guerra acabou.

Descansar, soldado,

Pois foi finalmente reconhecido;

Mesmo com todos os erros,

Mesmo com alguma injustiça,

Mesmo que tardiamente,

Sua honra é merecida.

Descansar, soldado,

Pois cumpriste tua missão;

Viveste a vida intensamente

Não conheceste a servidão,

E daqueles que um dia não reconheceram

Um hoje pede seu perdão.

Descansar, soldado,

Pois finalmente alcançaste a paz;

Sem mais desentendimentos,

Sem mais discussões,

Sem mais injustiças,

Para o soldado que agora jaz.

Altar dos Ancestrais, com objetos de nossos entes queridos.

Altar dos Ancestrais, com objetos de nossos entes queridos.

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