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Sobre barddkunvelin

Somente eu. Mas o que sou já é complicado o bastante. Mas todo mundo é assim no fundo. Por isso sou somente eu, e não preciso me preocupar em ser todo mundo.

Descansar, soldado!

(uma última inspiração do Samhain, uma homenagem merecida a quem partiu no início desse ano; lamento que essa homenagem seja póstuma, tão tardia, mas hoje, olhando o todo, vejo que você merecia muito mais; pai, eu sinto saudades, mas espero que tenha encontrado seu caminho para as Terras Eternas, e que nos encontremos no mundo renovado) 

Descansar, soldado,

Pois sua missão terminou;

Sua marcha está encerrada,

Sua arma guardada,

Sua batalha terminada,

Sua guerra acabou.

Descansar, soldado,

Pois foi finalmente reconhecido;

Mesmo com todos os erros,

Mesmo com alguma injustiça,

Mesmo que tardiamente,

Sua honra é merecida.

Descansar, soldado,

Pois cumpriste tua missão;

Viveste a vida intensamente

Não conheceste a servidão,

E daqueles que um dia não reconheceram

Um hoje pede seu perdão.

Descansar, soldado,

Pois finalmente alcançaste a paz;

Sem mais desentendimentos,

Sem mais discussões,

Sem mais injustiças,

Para o soldado que agora jaz.

Altar dos Ancestrais, com objetos de nossos entes queridos.

Altar dos Ancestrais, com objetos de nossos entes queridos.

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IV Samhain do Ramo de Carvalho

Em um final de semana quente, mas que prenunciava a chegada do frio (o que aconteceu literalmente), o grupo Ramo de Carvalho se reuniu para a sua  quarta celebração de Samhain, a festividade do final da colheita, da chegada da estação fria e, principalmente, a Noite dos Ancestrais. Como dito, essa foi a quarta vez que o grupo celebrou o Samhain, e podemos dizer que ele definitivamente entrou em uma nova fase; foi o início do nosso quarto ano, um ano que promete mudanças, sejam ventos de tempestade ou agradáveis brisas mornas.  O Samhain sempre foi a cerimônia mais significativa para o Ramo de Carvalho, e dessa vez ela era ainda mais, pois muitos tinham entes queridos que fizeram recentemente a sua passagem para as terras eternas.

Nosso visitante, Brad (nome dado pelas meninas)

Nosso visitante, Brad (nome dado pelas meninas)

O lugar escolhido para o ritual foi uma chácara próxima à cidade de Mairiporã, não muito distante de São Paulo. Esse cão que vos late foi o primeiro a chegar, para abrir as portas e começar os preparativos, além de descansar um pouco. Logo os membros do grupo também chegaram, meus amigos, irmãos, companheiros, alguns de longa data, outros mais recentes, mas todos significativos para nosso clã do Carvalho; Rodrigo, Glauber, Lívia, Juliana, Aline, Celina, Mônica. Dessa vez, a cerimônia foi aberta a quem queria trazer seus parceiros na vida, afinal, não podemos querer retirar preconceitos sobre nossa espiritualidade se não permitirmos que essas pessoas a vivenciem junto conosco; assim, tivemos as agradáveis presenças dos namorados/noivos/esposas de três membros, que mostraram muita simpatia, mente aberta e inteligência.

Crepúsculo

Crepúsculo

Gastamos algum tempo com compras para o banquete, e resolvendo alguns problemas estruturais, mas após todos estarem devidamente alimentados e descansados, iniciamos os preparativos para a noite ritual. Colhemos a lenha para a fogueira, preparamos a comida, e montamos os altares. Para o Samhain, foi preparado um altar para os Ancestrais, separado do outro, pois essa era a sua noite. Com tudo pronto, fomos nos preparar pessoalmente para o rito. Enquanto isso, o nosso último membro, a mais que especial Samantha, chegava trazendo toda a sua empolgação e alegria. Agradecemos ao Rodrigo pela disposição em ir busca-la.

Fogueira

Nossa fogueira sendo acesa

A liturgia utilizada pelo Ramo de Carvalho (que utiliza elementos de diversas vertentes da espiritualidade céltica, mas principalmente do Reconstrucionismo e da ordem druídica norte-americana ADF, adaptados em um todo coerente) foi a utilizada, com algumas variações (pois espiritualidade não é estagnada, e sempre se transforma). A afirmação do objetivo e o centramento foram guiados por mim e, na purificação, tive a ajuda da Juliana, que purificou a todos com o incenso, e da Aline, que fez o mesmo utilizando a água do mar. A abertura do portal contou com a ajuda da Lívia, que fez a oferenda ao Guia das Almas, Manannán. Celina ajudou com a oferenda aos Espíritos da Natureza, e Mônica também o fez com o pedido de trégua aos Forasteiros. Agradecemos ao Pai de Todos, com a ajuda do Rodrigo, pelo final da colheita, e aceitamos os frutos que foram nossa recompensa. No final, para bem ou mal, aceitamos o que foi semeado. Glauber ajudou com o agradecimento à Grande Rainha, pedindo pela trégua do inverno das batalhas, e agradecendo pela passagem dos Ancestrais nessa época tão auspiciosa.

Altar dos Ancestrais, com objetos de nossos entes queridos.

Altar dos Ancestrais, com objetos de nossos entes queridos.

Então, chegou o momento de falarmos aos nossos Ancestrais, e também a todos os nossos entes queridos que partiram desse mundo, mas que estão mais próximos de nós no momento do Samhain, quando o véu entre os mundos se torna mais fino. Cada um de nós acendeu uma vela para seus ancestrais, e teve seu tempo para ter sua comunhão com eles. Alguns ficaram nitidamente emocionados, pessoas que tinham ligações muito fortes com seus ancestrais, como a Samantha, e outros que tinham esses entes queridos ainda no nosso mundo recentemente, como Juliana e eu, mas todos tiveram todo o tempo para expressar o que tinha aos espíritos. Após isso, uma última atividade ao redor da fogueira ainda tinha de ser feita: a renúncia dos últimos frutos; cada um de nós renunciou a um de seus objetivos plantados, mas que não tinham florescido até então. Sacrificando essa última parte da colheita, o último fruto, damos o espaço para o novo entrar em nossas vidas.

Preparação para o ritual

Preparação para o ritual

Partimos, então, para um banquete comunitário. Um prato para os Ancestrais foi preparado, e passamos boa parte da noite conversando. Os mais persistentes (este cão entre eles) ficaram até às quatro da madrugada. Mas no final, todos foram dormir, cada um tendo seus próprios sonhos, mas satisfeitos com o rito realizado. O encerramento formal só se deu no dia seguinte, após nos dedicarmos aos oráculos, tanto pessoais quanto do grupo. Os portentos que o Ogham trouxe ao grupo foram Onn (para a pergunta sobre se as oferendas foram aceitas, e a “roda” indica que sim), Ailm (para a pergunta sobre quais bênçãos os Deuses nos traziam, sugerindo novos entendimentos e novas missões por vir) e Luis (para a pergunta sobre o que mais eles pediam de nós; o significado interpretado é nos dedicar mais, e com mais inspiração, aos ramos deste carvalho que cresce). Após isso, nos voltamos à área ritual, e agradecemos à presença e às bênçãos dos Deuses, bem como a presença de nossos Ancestrais. O portal foi fechado, e o ritual foi dado como encerrado. Partimos, então, de volta à capital paulista, satisfeitos e em comunhão. O ciclo foi fechado, e agora se reinicia. Do caos primordial, agora nasce a ordem. Então, o nosso Carvalho chega ao quarto ano, e provavelmente permanecerá por muito tempo mais. Feliz Samhain a todos!!!

Fim da Fogueira

Fim da Fogueira

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1ª Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba 1°Ciclo

                 foldersairechtas

Um novo passo foi dado pelo Druidismo e Reconstrucionismo Céltico no Paraná nesse último final de semana. E um passo grande, se lembrarmos que, até bem pouco tempo atrás, a maioria das pessoas sequer ouvia falar de grupos druídicos paranaenses; mas a situação mudou, eles apareceram (sim, “apareceram”, e não “nasceram”, pois a maioria deles já existia), se organizaram, e tem feito o possível para colocar o seu estado (e sua capital, Curitiba) no mapa da espiritualidade céltica nacional. O trabalho conjunto desses grupos tem ajudado a nossa crença a crescer em um ambiente onde ela encontrava pouco respaldo. Ainda há muito a ser feito, mas com um passo de cada vez, e o bosque druídico paranaense pode nos presentear com muitos bons frutos.

Como o colhido nesse final de semana: a realização do primeiro ciclo de palestras da Airechtas – Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba. Um evento pensado pelos membros do grupo reconstrucionista  Fíne na Dairbre, e que contou com a ajuda de todos os outros grupos druídicos da capital paranaense, com a intenção de abrir as portas do Druidismo (e da crença céltica) ao público local, que carece de eventos como esse, bem como de informação sobre os grupos, tanto locais quanto de outros estados. Com essa convenção o público curitibano poderá ter acesso a informações sobre o paganismo céltico nacional, bem como a palestras e atividades relacionadas ao assunto, algo que não ocorria antes. E para dar uma pequena contribuição ao evento, parti em direção à capital paranaense, ansioso pelo evento e por rever velhos amigos, bem como conhecer novas pessoas. Fui hospedado pelo casal organizador do evento, e não seria justo deixar de citar a hospitalidade com que fui recebido; não é a primeira vez que Erik e Enbarr me recebem em sua casa, e sempre o fazem com toda a dignidade de um antigo nobre céltico. Agradeço aos dois pelo abrigo, pela excelente comida e pela agradável companhia de sempre.

O evento ocorreu na chamada Casa Amarela, próxima ao centro de Curitiba. O lugar é bastante aconchegante, bom para eventos intimistas, e acolheu muito bem esse primeiro ciclo de palestras. O evento começou no ensolarado sábado, dia 20 de abril. Um público satisfatório estava presente, incluindo velhos amigos de São Paulo (como o pessoal da Tribo da Onça Parda) e de Santa Catarina (como membros do Caer Ynis), além dos membros dos grupos organizadores e algumas pessoas da cena pagã local. A infraestrutura do local era boa e, apesar de alguns problemas com a instalação dos equipamentos, as palestras começaram com um atraso pequeno. O clima entre os participantes era bom, amistoso (o fato de muitos já se conhecerem ajudou nisso), e as atividades ocorreram com poucos reveses.

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A primeira palestra, com Ana Elisa Bantel, de Ponta Grossa – PR, falou sobre “As Origens da Cultura Celta no Oeste Europeu”; talvez a mais apropriada realmente para iniciar o evento, pois tratava do mais antigo período a ser estudado ao longo do evento. Ana, com sua forte formação acadêmica, nos presenteou com uma palestra bastante didática e interessante, falando sobre as mais antigas populações da Europa Ocidental, e sua influência na formação da cultura, espiritualidade, e mesmo da genética dos povos célticos, sempre pautada em estudos arqueológicos atualizados. O evento começava bastante proveitoso e, após um curto intervalo, partimos para a segunda palestra, falando sobre a “Sociedade Celta e a Busca pela Honra”, com o organizador Erik Wroblewski, do grupo Fíne na Dáirbre. O palestrante, graças à sua formação como historiador, apresentou um resumo bastante coerente sobre o estudo dos povos célticos, bem como a estrutura básica de sua sociedade, antes de entrar no tema principal: a noção céltica de “honra” e a enorme importância que ela tinha dentro da cultura desses povos. Utilizando como principal referência o Ciclo Mitológico Ultoniano da Irlanda, Erik nos mostrou um aspecto bastante importante para os praticantes da espiritualidade céltica, afinal, não basta praticar uma religião sem aplicar seus valores à vida diária. Veio então a terceira palestra, de Cássia Dias, do grupo Forest Secret de Curitiba; o tema, “Geobiologia Druídica e a Arte do Habitat Saudável”, parecia ser bastante diverso dos outros, mas encaixou-se como uma luva. Em uma palestra interessantíssima, Cássia prendeu a atenção de todos, nos presenteando com os conceitos básicos da Geobiologia, e como ela pode ser aplicada ao estudo das antigas sociedades europeias (tudo muito bem pautado com gráficos, mapas e exemplos), bem como à nossa vida prática, aqui mesmo no Brasil. De longe, uma palestra que deixou a todos com um gostinho de “quero mais”…

DSCN0646DSCN0667Palestra da Cássia

Tivemos, então, uma pausa para um coffee-break, onde todos tiveram a chance de conversar, tirar algumas dúvidas e relaxar. Eu mesmo tive um proveitoso papo com um fabricante de hidromel local, que me deu preciosas dicas sobre o preparo dessa bebida tão apreciada. Mas logo retomamos o evento, com a palestra da organizadora Enbarr Ní Manannán, do grupo Fíne na Dáirbre, falando sobre “Ritual e Simbolismo: Adaptação do Mito à Prática”; Enbarr, formada antropóloga, domina esse tema como poucos, e dissertou muito bem sobre as questões cosmogônicas que envolvem as diversas mitologias e sua função na ritualística, utilizando exemplos principalmente tirados da mitologia gaélica. Ótima palestra, muito instrutiva e que gerou uma boa roda de considerações e perguntas no seu final. Para fechar o dia, veio a palestra deste que vos escreve, falando sobre a “Estratificação Social no Mundo Céltico e sua Influência no Neopaganismo”; por ser a minha palestra, não tenho muito o que falar, mas foi um prazer estar lá apresentando o tema. Talvez ele tenha sido um pouco básico demais para os “veteranos” presentes (e desde já me desculpo com eles), mas eu o escolhi pensando justamente em algo que pudesse ser apresentado a um público não acostumado a ter esse tipo de evento. Mas ainda assim, foi uma palestra divertida, e espero que todos tenham encontrado alguma coisa útil nela.

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Voltamos para a casa de Erik e Marina, onde Ana Elisa e eu nos hospedamos, e tivemos um gostoso jantar e uma boa conversa devaneando sobre a situação do Druidismo e Reconstrucionismo no Brasil, bem como sobre futuros eventos do tipo na capital paranaense; mas logo fomos para nossas camas, pois o evento seria retomado na manhã seguinte. Cedo estávamos de pé e preparados, e retornamos à Casa Amarela para um café da manhã comunitário com os participantes, onde foi confirmado o clima amistoso entre todos. A primeira palestra do dia foi a de Leandro MacLorihem, da Brathair an Fiachán Gorm, falando sobre “Instrumentos Musicais dos Povos Célticos e a Gaita de Foles”;  uma palestra muito gostosa, afinal, a grande maioria das pessoas presentes é apreciadora da chamada “música celta”, sobre o qual muitos dos conceitos foram desmistificados; talvez o melhor na palestra do Leandro tenha sido mostrar a importância da música na ritualística, algo essencial dentro das religiões pagãs; nossa espiritualidade segue os ritmos e ciclos da Terra, e a música nos dá uma chance de celebrar esses ritmos com nossas próprias melodias. Exímio gaiteiro, ele ainda nos deu uma demonstração tocando sua gaita galega. A última palestra veio com José Paulo Almeida, da Clareira Coré-Tyba (e também parte do grupo Caer Ynis, de Florianópolis), que nos falou do “Despertar: Como os Druidas Renasceram no Século XVIII”, em uma repetição da palestra ocorrida no III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (ocorrido em novembro de 2012, em Novo Hamburgo – RS), dessa vez para o público local. Em uma atividade muito informativa, o JP desmistificou muitas das figuras que ajudaram a formar as primeiras ordens druídicas dos tempos modernos, bem como explicou como eles chegaram a suas ideias e formaram a estrutura daquilo que é chamado por alguns de “Meso-Druidismo”; a palestra foi muito importante para retirar preconceitos sobre esse movimento (que algumas pessoas no Brasil teimam em manter), bem como nos ensinar algo sobre essas pessoas que foram as primeiras a estudar o Druidismo com a intenção de “ser” parte dele, não só como observadores externos.

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O evento se aproximava do final, e tivemos uma divertida hora de fotos entre os palestrantes e o público, bem como bate-papos, tudo isso ao som do bodhrán e da tin whistle do Leandro e do Rafael Corr (do Caer Ynis de Florianópolis), mas logo fomos à última atividade do dia: a mesa-redonda sobre o Druidismo e o Reconstrucionismo Céltico. Ela foi presidida (inicialmente apenas) por mim, na condição de convidado de outro estado, mas era aberta à participação de todos. Inicialmente, foi apresentada por mim a polêmica questão sobre o divisão do Druidismo e o Reconstrucionismo Céltico, sendo que ambos andam por estradas semelhantes, com práticas semelhantes e valores semelhantes. JP explicou ao público, rapidamente, o que é Druidismo, enquanto Erik fez o mesmo com o Reconstrucionismo. A discussão migrou rapidamente para os valores éticos de ambas as espiritualidades, e também para as suas metodologias de estudo. Em tudo, chegávamos sempre a conclusões melhores sobre as similaridades do que sobre as diferenças entre as duas, mostrando que o intercâmbio entre elas é sempre proveitoso e saudável. Infelizmente, não pude acompanhar a discussão até o final, pois meu táxi já chegava e a viagem de volta a São Paulo me aguardava. Despedi-me de meus bons amigos e parti, com uma certa pontada de arrependimento de não ter podido ficar até o final. Mas voltei para cá, feliz de ter feito a minha parte, e espero que o evento tenha ajudado a cena pagã na capital paranaense. Fico muito ansioso pelos próximos, e espero que essa semente plantada germine e cresça. Agora que o primeiro já aconteceu, temos algo para mostrar e ajudar na divulgação dos próximos, e Curitiba só tem a ganhar com isso. Agradeço a todos os presentes, principalmente a meus amigos de Curitiba pelo convite. Nos vemos em breve!! Então, ergamos um copo em brinde por essa vitória!! Sláinte!!!

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III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

Um ano se passou desde a segunda edição do Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta; um ano de muita expectativa para muitos, pois a terceira edição do evento (de caráter itinerante) seria realizada no estado do Rio Grande do Sul, um retorno à sua região natal (a primeira foi realizada em Florianópolis, Santa Catarina, organizada pelo grupo Caer Ynis), e organizada por Bellovesos Isarnos. Desde que isso foi decidido, a organização do evento foi nos presenteando com informações sobre o que estava sendo preparado, o lugar escolhido, e as palestras também foram sendo divulgadas. A expectativa era algo muito natural, pois tudo indicava que seria um evento único na história da espiritualidade céltica no Brasil. E ele o foi, de fato.

O EBDRC tem um caráter único entre os vários eventos pagãos do Brasil: por ser voltado a apenas um ramo do paganismo (o Druidismo e o Reconstrucionismo são ambos facetas do mesma espiritualidade céltica), os participantes possuem uma convivência, seja física ou virtual, extremamente ativa. Trocamos artigos, recomendamos o trabalho uns dos outros e, principalmente, interagimos como parceiros e amigos. Isso faz com que o Encontro seja sempre uma reunião de amigos, de parceiros e velhos camaradas; também por ter essa abordagem mais específica, suas dimensões são menores, o que aumenta o clima intimista dentro do evento. Isso tudo ajuda a tornar o evento especial e tão prazeroso de frequentar. E isso não foi exceção nessa edição.

A começar pelo lugar. O Sítio São Luiz, localizado na região de Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, é um deslumbre para os olhos. Mesmo pessoas que são acostumadas a viajar tem que admitir, é raro ver um lugar tão belo. Cercado por montanhas e morros, dotado de fortíssimo contato com a natureza, piscinas naturais, bons refeitórios (com ótima comida) e alojamentos vastos e confortáveis, o lugar foi escolhido perfeitamente. Mais do que digno do valor pago. E os funcionários do sítio também foram muito simpáticos, uma excelente hospitalidade gaúcha. A estrutura do evento também estava perfeita, com bom equipamento disponível, uma ótima sala de atividades, e as belas pastas com a programação preparadas pelo Bellovesos, mostrando mais uma vez que a palavra “eficiência” pode ser adotada como seu nome do meio. O clima foi quente durante todo o evento, com dias ensolarados e noites frescas, o que só ajudou.  Após reencontrar todos os velhos amigos, com a mesma simpatia de sempre, além de conhecer aqueles que nos eram conhecidos apenas de convívio virtual, tratamos de nos acomodar e desfrutar de nosso primeiro almoço no local, que já foi uma ótima prévia do que viria. A comida foi mais um dos (muitos) pontos fortes do evento.

O evento foi iniciado pelo organizador, Bellovesos Isarnos, falando sobre o caráter do evento, além de convocar José Paulo Almeida (Caer Ynis, organizador do primeiro evento) e Marcos Reis (Caer Tabebuya, organizador da segunda edição), e conduzindo uma oração ao final. Brigindo, a Senhora das Três Chamas, e Manannán, o Guardião dos Portais, haviam finalmente sido chamados, e era a hora de começar.

A primeira palestra foi do conhecido “xamã druídico”, Marcos Reis, do Caer Tabebuya (São Paulo), falando sobre a ligação entre o Druidismo e o Xamanismo, e falando sobre sua própria experiência e aprendizado na Amazônia e com as tribos indígenas. Marcos é um orador de um talento raro, e sempre cativa a plateia com suas palestras, e o conteúdo desta foi ótimo, como é de praxe. Algumas pessoas de fora podem se perguntar o porquê de trazer um tema tão “indígena” dentro de um evento voltado para a espiritualidade céltica; mas uma das bases do Druidismo é honrar os espíritos do local em que se vive, bem como os Ancestrais da Terra, e por isso a palestra de Marcos foi excelente, nos mostrando um pouco do que seria a tônica do evento. Certamente os Ancestrais da Terra ficaram satisfeitos com tudo.

A segunda palestra foi feita por João Eduardo Schleich Uberti, do Caer Itaobi (São Paulo), falando sobre altares. João é conhecido por sua dedicação a detalhes, e sua palestra foi extremamente completa, falando sobre altares em diversas religiões, desde monoteístas (cristianismo ortodoxo), passando por orientais (Xintoísmo, Budismo, Taoísmo), e pagãs modernas (Druidismo, Reconstrucionismo); João, mostrando o conhecimento que lhe é característico, nos falou sobre a visão que diferentes espiritualidades tem do altar, suas funções, formas de organização, e estética. As belas fotos que João conseguiu a partir dos templos que visitou ajudaram a ilustrar bem as palavras do palestrante, e a palestra foi bastante didática. Aposto que muita gente chegou em casa e reorganizou seu próprio altar depois dela.

Então, foi a vez de Bellovesos Isarnos iniciar sua palestra, falando sobre a origem da jurisdição dos Druidas. O tema inclui a comparação da evolução do direito entre os gregos e romanos, as informações que temos sobre a lei céltica antiga, além da legislação medieval da Irlanda e do País de Gales (com um toquezinho de lei germânica também, como se não bastasse….). Pode parecer complexo (na verdade, é), mas o senhor Bellovesos Isarnos mostrou porque é um dos druidas mais respeitados e admirados em nosso país. A palestra foi absolutamente irretocável, cheia de conteúdo, e apresentada com maestria. Além de organizar um evento maravilhoso, todos devemos agradecer a ele pela chance de partilhar um pouco do seu fantástico conhecimento. Nada mais a dizer sobre isso.

Jefferson Matthes (Ordem Walonom, Rio Grande do Sul) foi o seguinte. Através de seu trabalho com a Ordem Walonom, ele desenvolveu uma concepção muito particular sobre os ciclos lunares, fazendo um paralelo muito interessante com o ciclo dos quatro festivais célticos. A palestra teve bastante participação do público, o que mostra que o assunto teve muito interesse, e a concepção de os ciclos lunares representando uma forma microcósmica dos ciclos solares representados pelos festivais realmente foi algo muito interessante e digna de estudos. No final, foi mais uma palestra que mereceu toda a atenção.

Após essa palestra, tivemos um agradável jantar, inebriados pelo primeiro dia. O evento começava muito bem, e o clima estava ótimo. Voltamos ao salão para iniciar as conversas, regados ao hidromel de Beansidhe Iohobadb, e tudo estava tão agradável que ninguém queria ir dormir. Mas o segundo dia já se avizinhava, e tínhamos de descansar.

O segundo dia do evento começou com uma trilha, após o café da manhã, organizado pelos membros do Sítio São Luiz. Admito, não estava presente (as camas do sítio eram confortáveis demais para serem deixadas tão facilmente), mas vendo fotos e ouvindo comentários, tenho a certeza de que todos tiveram um ótimo momento de contato com a terra e a natureza.

Após o almoço, voltamos às palestras, com a doce fada das terras paraenses, Darona ní Bríghid/Mayra Faro (Nemeton Samaúma, Pará). Para quem conhece essa menina brilhante, não foi uma surpresa a palestra ter sido ótima. Ela falou sobre os Encantados, entidades típicas da Encantaria Amazônica, traçando um paralelo entre eles e os Sídhe da tradição céltica. A palestra foi bastante coesa, e se estendeu por mais uma hora além do previsto, pois todos adoraram e queriam comentar  e saber mais dessa menina que, apesar de pequena na estatura, se torna uma gigante na hora de falar ao público. Foi mais uma palestra que honrou aos Ancestrais da Terra com absoluta competência.

Então, foi a vez desse cão que vos late, Wallace Cunobelinos (Ramo de Carvalho, São Paulo). Minha palestra foi baseada nas práticas oraculares do povo celta, desde os seus tempos antigos, passando pelo período medievo, e terminando no folclore recente, onde algumas delas ainda podem ser conhecidas, enfocando principalmente uma prática escocesa das Highlands, que pode ser utilizada por qualquer um, desde que padrões próprios sejam desenvolvidos com o tempo.  Não vou me estender aqui, pois a palestra foi minha mesmo.

O Druida do Vento (de Anastácio, Mato Grosso do Sul), que impressionou a todos com seu riso, também mostrou que pode impressionar com seu trabalho. Uma nova palestra baseada nas culturas nativas, dessa vez focada na dos índios Terena. E ela foi irretocável. Muitíssimo bem explicada, muitíssimo bem ilustrada, que não pecou por falta de informação, ou por excessos em quaisquer pontos onde isso poderia ser desnecessário. Acredito que a didática seja uma das características principais desse jovem que nos apresentou uma cultura fascinante em sua estrutura social e em sua mitologia. Para pessoas que pretendem apresentar alguma palestra sobre algum povo (qualquer um), sugiro que peguem algumas dicas com ele, pois ficou provado que ele sabe como fazer isso de forma agradável e fácil de entender.

Sheilla Pereira Sabbag Uberti (Caer Itaobi, São Paulo), esposa do João, foi a próxima, com uma bela palestra (mais uma roda de conversas, só que coordenada por ela), sobre os ciclos da vida, sobre nascimento e morte, sobre o crescimento. Ainda que boa parte dela fosse voltada ao público feminino, tão mais ligado a ciclos do que o masculino, todos conseguiram entender a importância de levar uma vida com honra, dignidade e responsabilidade com o próprio corpo e com a própria vida, além da de seus entes queridos. Uma bela lição de nossa amiga Sheilla, que ensinou muito a todos os presentes, bem como ajudou muito aos homens presentes conhecerem melhor suas companheiras.

Após a palestra da Sheilla, foi a vez de Andréa Éire e Simão Proença (Caer Tabebuya, São Paulo) apresentarem danças folclóricas escocesas para o público, um dos momentos mais divertidos do evento. As danças escocesas são complexas, mas muito bonitas, e tenho de dizer, apesar de minha completa inépcia para a arte da dança, eu gostaria que essa parte fosse aumentada em eventos futuros, talvez duas horas e agregada ainda por cima à festa posterior.

A festa da segunda noite foi muito mais intensa do que da primeira. E as conversas também. Se havia alguma inibição, ela morreu após a primeira noite, e todos ali conversavam como velhos amigos (e a grande maioria o era mesmo). Um dos grandes ápices foi a dança de roda com tambores em frente à lareira, além das brincadeiras com a Gwen (minha gaita-de-foles).

O terceiro dia começou tarde, e já havia um clima de final de festa. Mas ainda havia muito por fazer. Então, após o almoço, Jefferson Matthes voltou para uma nova palestra, explicando como nasceu o seu grupo, a Ordem Walonom. Uma palestra muito clara e honesta, admitindo suas origens em uma obra de ficção, mas também de um grupo que soube como crescer e evoluir para além de seu “berço”. Hoje, a Walonom é uma força no Rio Grande do Sul divulgando a espiritualidade céltica, e deve ser respeitada como tal.

Joanna do Arco (da Tribo da Onça Parda, de Jundiaí) foi a seguinte. Joanna tem grande experiência com vivências e meditações, e foi o que ela usou, nos falando um pouco sobre os exercícios respiratórios que ajudam uma meditação, antes de conduzir uma visualização muito intensa para todos. A intensidade da experiência foi incrível, e ela contou com o apoio do Marcos Reis no tambor, para ajudar a imersão. Ótima vivência, sem dúvida.

Então foi a vez de José Paulo Almeida (do Caer Ynis, Florianópolis, ainda que agora seja também da Clareira Coré Tyba, em Curitiba), falando sobre o renascimento druídico, e o Druidismo romântico dos séculos XVIII e XIX. Muito esclarecedora, ela foi importante para nos lembrar de que esses homens foram responsáveis por trazer o Druidismo de volta ao mundo como forma de espiritualidade. Hoje em dia, muitos detratam as crenças das pessoas durante esse momento histórico, mas temos todos que lembrar que vivemos em uma época diferente, com muito mais informação do que eles. Não deveriam ser simplesmente ignorados, pois se o Druidismo renasceu, foi graças aos esforços deles. E ainda temos o que aprender com seu trabalho.

E voltamos a dançar; dessa vez, com a regência de Darona ní Brighid, que nos mostrou danças circulares sagradas de diversas partes do mundo, e de diversas épocas também. Destaque para a dança irlandesa apresentada, bem como a an dro da Bretanha Francesa, além da dança das aves. Novamente, uma atividade que poderia ser estendida por mais tempo.

Então, houve uma “mesa-redonda” (aspas pelo fato de não haver uma mesa no local) sobre a fundação do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta. As bases do Conselho foram citadas, bem como as razões de sua criação. A diretoria eleita foi apresentada ao público presente, e algumas sugestões foram dadas para os nossos passos futuros, mas ficou claro que a próxima ação deve ser a criação do regimento interno do Conselho. Mas essa semente, que foi plantada há tanto tempo, finalmente começa a mostrar seus frutos.

Então, sentimos que era a hora de encerrar o evento. Após o jantar, todos nos dirigimos em direção à área onde a fogueira nos aguardava. Após acesa, unimos as cinzas dos encontros anteriores a ela, e ali ficamos, em meditação e pensamento. O encontro chegava ao seu fim mas,  de alguma forma, nada disso deveria acabar. Então, os membros que se dispuseram foram até o fogo para realizar seus juramentos sagrados perante a Tribo presente. A maioria pediu para que sejamos unidos e leais para com nossa fé, e assim será. Marcos Reis realizou uma roda de cura para os membros que ali necessitavam, e depois nos chamou para realizar aquilo que é o maior dos atos de cura que podem ser realizados: o reconhecimento do outro. Agradecemos a cada um, abraçamos a cada um. Naquele momento, não havia mais mágoas, somente uma irmandade entre os membros. Pessoas que se conheceram naquele final de semana tornaram-se amigos. Pessoas que já eram amigas abraçavam-se como irmãos. E que esse clima nunca morra em nossos corações.

 

Amanheceu em Novo Hamburgo. Muitos já haviam partido antes do café. Outros foram logo após. Mas o evento ainda queimava dentro de todos, com certeza. Ainda queima dentro de mim, e não parece que irá se apagar tão cedo. No final, ele foi perfeito. Apesar de algumas ausências sentidas, não é possível pensar nele de forma diferente. E eu só tenho a agradecer por ter participado dele. No próximo ano, voltamos a São Paulo. Que os Deuses preservem esse espírito do evento em nossas almas até lá.

Wallace Kunvelin

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Da Colheita das Almas e da Noite Mais Longa

Gwynedd. O antigo reino da Venedotia. A língua estava se transformando no mesmo ritmo que o mundo mudava. o cristianismo agora estava assentado, e os velhos deuses, esquecidos. Hoje, nessa região onde outrora Rigantona, a Grande Rainha, fora louvada, as igrejas tomam o local dos velhos santuários sagrados. O povo hoje leva suas orações ao Cristo martirizado, sua mãe adorada e seu pai divino. Para Gwaltwent, a velha fé estava perdida, e não demoraria muito para que desaparecesse completamente.

– O que prova que sua cabeça é tão vazia quanto o tronco de uma velha árvore devorada por cupins. Nós iremos desaparecer, muitos velhos hábitos irão desaparecer, e logo nossos nomes terão tanto significado para eles quanto o som do vento tem para os ignorantes. Logo, o musgo cobrirá nossa história como a terra cobrirá nossos ossos. E quando o último de nós partir em sua barca para as ilhas abençoadas, nada restará além do cristianismo, que reclama hoje essa terra para si. E ainda assim, a fé não terá morrido. – disse Yannet.Os dois, o druida e seu aprendiz, estavam viajando pelo oeste da Ilha da Bretanha durante um inverno frio, que machucava os já não tão jovens ossos de Gwaltwent, mas ele não ouvira seu mestre se queixar uma vez sequer. Conseguiram hospitalidade ali, ainda que não de total bom grado. Parte da família do anfitrião era fervorosamente cristã e não apoiava que os dois ali estivessem. E, sob ordens de Yannet, eles faziam o possível para não ofender a crença deles. Mas Gwaltwent não se sentia feliz com isso:

-Olhe para eles, mestre druida. Eles estão se preparando para celebrar a sua “Maria Cinzenta”; no meio do inverno, eles deveriam estar louvando a Grande Rainha, mas eles esquecem o passado em nome da nova fé.  Essa é a Longa Noite!!! E eles se esquecem de que é a busca Dela pelo filho que trará de novo o verão. Era melhor que eles ficassem o tempo todo no inverno, e atacados por algum espírito faminto. Se os saxões não acabarem conosco, nosso próprio povo o fará e… – a fala de Gwaltwent fora interrompida por um golpe do cajado de Yannet em sua testa. O rapaz caiu da cadeira. Estava acostumado com isso, simplesmente se levantou e retomou o seu lugar à mesa. Onde recebeu um novo golpe, dessa vez de lado, atingindo a bochecha e o fazendo cair de novo. O aprendiz se levantou de novo, com o rosto furioso, mas apenas ao ver a expressão de Yannet, baixou os olhos e se sentou.

-Por que me bateu uma segunda vez? – perguntou, em voz baixa.

-Porque você desrespeitou a maior virtude de nosso povo: a hospitalidade; essas pessoas nos aceitaram em sua casa, apesar de terem uma crença diferente; é assim que você retribui? Hospitalidade não é regra apenas para quem hospeda.  Nós temos que respeitar os nossos anfitriões, e não é criticando suas atitudes que você o faz. Guerras já foram iniciadas por alguém faltar com o respeito aos anfitriões. Nunca ouviu falar do Touro de Cooley, na Irlanda? Ah, esqueça, é uma história longa e não tenho paciência para conta-la hoje.  – o velho pegou o seu copo de vinho e tomou. Fez uma careta ao engolir. Preferia hidromel forte e quente no inverno, mas não reclamaria, por respeitar aqueles que lhe derem guarida. O jovem não levantou os olhos, mas perguntou ainda mais baixo:

-Mas, senhor, eu disse alguma mentira?

-Gwaltwent, eu acabo de citar qual é a nossa maior virtude. Você esqueceu qual é?

-Hospitalidade, senhor, – respondeu o jovem, confuso, achando que receberia um novo golpe.

-Exato. Nós estamos hospedados na casa desse senhor há mais de um mês, e isso porque ele não esqueceu totalmente os modos de nosso povo. Nosso povo ofereceu hospitalidade aos romanos. Nosso povo ofereceu hospitalidade aos saxões. Não negamos hospitalidade a ninguém. A quem mais devemos hospitalidade?

O jovem pensou, e franziu a testa. Não era a hora para lições, mas ele ainda tentaria fazer o certo.

-Aos líderes de nosso povo, aos nossos sábios, à nossa família…- o rapaz foi interrompido pelo druida, que levantou a mão.

-Quando foi a última vez que prestou a hospitalidade à sua família?

-Já faz tempo, mestre, estou viajando com o senhor há mais de dois anos… – ao dizer isso, o rapaz se encolhe, pois vê a mão do druida apertando o cajado, como que preparasse um golpe. Mas nada acontece.

-Há algumas semanas, nós celebramos a festa dos mortos, a noite das almas, com os nossos anfitriões. Preparamos o banquete dos espíritos, e os convidamos à nossa mesa. Você prestou hospitalidade à sua família naquele momento, assim como eu, assim como eles. Você vê?

-Mas mestre, pelo que estudei contigo, não era assim nos velhos tempos. Não era uma festa celebrada por cristãos. Ela nem tinha esse nome, era o Samonios.

-E o nome importa tanto? Você sabe que era o Samonios, mas ainda assim, essas pessoas o continuam praticando. Isso porque eles reconhecem a mudança do ciclo, a chegada do inverno, e o estreitamento do véu entre os mundos. Eles ainda sabem que os espíritos dos familiares virão visita-los. Eles sabem que os espíritos andam pelo vento e geada, por isso utilizam máscaras e fantasias em sua celebração, e alguns ainda o fazem para viajar. Você sabe os nomes, mas tem que saber disso se quer ser um druida. Eles sabem o que precisam saber. A nossa fé está no mundo, na Tribo e na Terra e no modo que elas se relacionam. E você vê que ela não some, mesmo com uma nova religião. O povo pode virar os olhos para outra direção, mas ainda continuará seguindo o ciclo da Terra. O cristianismo pode tirar do povo os seus deuses, mas não pode tirar dele aquilo que é parte de sua vida, aquilo que eles sempre fizeram. Por isso, a nossa fé não morre.

-Mas senhor, mesmo que nossa fé sobreviva dentro do cristianismo, dessa forma que explica, ela ainda sofrerá com os saxões. Com o cristianismo, ela já se torna mais pobre. Com os saxões, ela pode sumir!!

O velho druida deu um sorriso maroto. E prosseguiu numa voz divertida:

-Porque você não faz o favor de ir pregar para os saxões, então? Pelo que sei, eles ainda não aceitaram a cruz, então talvez eles te escutem, – tendo calado o aprendiz dessa forma, ele continuou – diga-me, porque as pessoas se fantasiam no Samonios?

-Porque o véu que separa o mundo mortal do Andumnos se torna mais fino nessa época. Porque os espíritos podem entrar no nosso mundo e nos agredir, e se estivermos vestidos como eles, podemos engana-los, e eles nos deixarão em paz. É recomendado que as pessoas façam isso não só no Samonios mas também durante o período até o solstício.

-Bom. E o que os saxões pensam sobre essa época, já que tem tanto medo deles?

O rapaz pensou, pensou, pensou, e ficou em silencio. Sabia que seria repreendido, mas não tinha o que fazer.

-Oh, quão grandioso é teu conhecimento, Gwaltwent!!! Teu silêncio diz que os saxões não pensam nada sobre essa época, é isso?

-Sim… senhor… é, isso…- gaguejou o rapaz, com medo de receber mais algum golpe.

-E, pela primeira vez em tempos, você está certo; os saxões não pensam nada sobre o Samonios; – o rapaz suspirou aliviado, e chegou a fechar os olhos, quando recebeu o cajado na boca, – e, ao mesmo tempo, não poderia estar mais errado!!! Para eles, essa é a época que os espíritos andam pelo mundo, esperando para correr o mundo na cavalgada do seu deus-de-um-olho, colhendo as almas dos mortos na noite de hoje. Qual é o espírito que mais tememos nessa época, após o Sauones?

O velho usou uma pronúncia diferente, mais próxima da linguagem atual daquela região. Ele podia ser velho, mas não se fechava às mudanças. Após retirar a mão da boca ferida, o rapaz disse:

-Vindos filho de Nodens, porque ele cavalga nas noites, acompanhado pelos cães do Andumnos, que passam uivando e convocando as almas das pessoas para deixar seus corpos; – respondeu o rapaz; o inverno era uma época dura naqueles tempos e naquela região, e era esperado que muitos velhos e crianças não sobrevivessem ao meses mais frios, e mesmo homens saudáveis muitas vezes eram levados pelo uivo dos cães de Annwn, carregado no vento gélido.

-Então, pare de se preocupar com os saxões, porque eles também sabem que essa é a época da colheita das almas. E ela termina hoje, na festa da Maria Cinzenta.- disse o druida.

-Em uma festa cristã? – disse Gwaltwent.

-Cristã? Em nome dos deuses, devo ser o pior dos mentores. O que celebramos hoje?

-A Longa Noite. O dia que a Grande Rainha parte em busca de seu filho. A noite de Rigantona, senhora dos cavalos.

-Qual era a celebração na Gália? – perguntou o druida.

-Era a celebração de Epona, a Deusa-Égua, que até mesmo os romanos adotaram. Sei o que quer dizer, mestre, que a festa de Epona e a de Rigantona tem o mesmo significado, as deusas-do-cavalo que galopam pela mais longa das noites, em busca da semente que trará o verão de volta. A partir desta noite, as noites ficarão gradualmente mais curtas, e os dias mais longos. Mas o que a festa da Maria Cinzenta tem a ver com isso?

-Nota-se que você nunca esteve em uma festa como essa. A Maria Cinzenta não é a mãe do Cristo. A lenda diz que ela teve seus potros roubados na noite do solstício e, desde então, galopa em busca de seus filhos perdidos. A Maria Cinzenta é Rigantona, é Epona, ela é a deusa que busca o filho que trará de volta o calor. Seu culto não morreu, porque o povo se recusa a esquecer dela. Ela pode ter sido transplantada para a nova religião, mas enquanto a prática continuar, ela não será esquecida. Esse é o papel do povo, não permitir que ela seja esquecida e prestar seu culto a ela. E isso ele faz bem. O seu papel é conhecer sua origem e seu significado. Enquanto existirem pessoas como nós, ela sempre poderá ser lembrada e cultuada na sua forma original. E, por isso, a nossa fé não morre. Não com o cristianismo, não com os saxões. É a hora de prestar a homenagem a Ela, Maria Cinzenta, Rhiannon, Epona; é hora de ela reencontrar seu filho, e o dia lentamente retornar; é a hora de o véu entre os mundos começar a ficar mais forte, e Vindos, Gwyn, ou como quer que o chamem, encerrar a colheita das almas; – o druida olhou para fora e viu a procissão se formando, tendo na frente um poste ornamentado com uma cabeça de cavalo, enfeitado com um manto branco e fitas coloridas por todo o lado. Eles passariam em procissão de casa em casa, para que a Rainha-Égua recebesse seu tributo, mesmo na era cristã; – parece que eles estão prontos? Vamos acompanha-los?

E eles foram, cantando em procissão, velhas canções que lembravam um passado anterior à cruz, que cantavam a chegada do frio, a colheita das almas, a cavalgada da Rainha Égua, e o retorno da luz. Dessa vez, Gwaltwent havia entendido:

Mari 2006

“Galopa, galopa, Maria Cinzenta,

Galopa em busca dos potros,

Galopa, galopa, Maria Cinzenta,

Galopa nessa longa noite.

Galopa e nos traz de volta os potros,

Galopa e nos traz de volta a vida.

Galopa e nos traz de volta os potros,

Galopa e nos traz o sol para a terra.

Galopa, galopa, Maria Cinzenta…”

A Maria Cinzenta (Mari Llwydd) é um costume folclórico do interior do País de Gales, que era realizado na véspera de Natal. Por sua semelhança extrema com a lenda de Rhiannon e Pridery, e a proximidade da data com a festa de Epona, na Gália (e a semelhança de Rhiannon e Epona, na sua ligação com cavalos), muitos pesquisadores chegaram à conclusão que esse costume tem origem em uma prática pagã muito anterior, relacionada ao solstício de inverno. O costume permaneceu sendo praticado até o século XIX e, recentemente, começou a ser revivido em comunidades rurais e grupos culturais nas grandes cidades, além de grupos pagãos que reconhecem nessa prática uma celebração mais antiga, com um simbolismo mais profundo oculto dentro dela. 

Wallace William Kunvelin

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A Caçada Selvagem

Oh, Gwynn, que cavalga nas horas escuras

Cuja floresta é o lar e que é o regente da Caçada Selvagem.

Tua cavalgada que corre entre os mundos

Com os cães negros de Annwn uivando,

Com as almas dos guerreiros seguindo,

A colheita das almas realizando.

Tua cavalgada que corre nas noites de inverno,

Para os feixes das vidas dos homens ceifar,

Para que o novo ocupe o seu lugar,

Para o passado enterrar.

Tua cavalgada com os cães de Annwn,

Que os homens temem como a Morte,

Que os sábios veem como do passado o corte,

Que ocorre quando as almas estão à sua sorte.

Três bênçãos do Céu para o que entende essa sorte

Que sabe que a vida sempre existe com a morte.

Que sabe que todos partem um dia,

Que entende que ainda há lembrança onde uma pessoa havia.

Três bênçãos da Terra para o que entende essa sorte

E que, na vida, permaneceu forte.

Que sabe que a vida na terra exige o trabalho,

Que sabe que o honrado deixa essa vida orgulhoso.

Três bênçãos do Mar para o que entende essa sorte,

E sabe que o uivo dos cães de Annwn é mais que um corte.

E que sabe que o rompimento na era mais fria é um sinal,

De que o passado se foi, e a vida continua afinal.

Nós ouvimos o sinal das eras,

E entendemos que tudo é um ciclo,

Abandonar o passado é das lições mais duras,

Mas todo rompimento é apenas uma viagem.

Sempre haverá um reencontro posterior,

Essa é a lição que nos passa, tu

Que é Gwynn, que cavalga nas horas escuras

Cuja floresta é o lar e que é o regente da Caçada Selvagem.

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Nessa Assembléia (um poema em homenagem ao II Encontro Nacional de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico)

Nessa Assembleia

Havia nobres moças
Havia homens honrados
Havia muitas tribos em uma
Onde a natureza foi louvada
Onde as tradições foram lembradas
Onde o solo foi honrado
Nessa assembleia.

Havia risos e conversas
Havia danças e canções
Havia amigos e irmãos
Onde comemos juntos
Onde partilhamos o hidromel
Onde o passado foi lembrado
Nessa assembleia,

Havia louvores aos Deuses
Havia o amor pela Terra
Havia o respeito pelos Ancestrais
Onde a chuva nos atingiu
Onde o vento nos refrescou
Onde o fogo foi aceso
Nessa assembleia,

Havia paz entre as tribos
Havia amizade entre os membros
Havia satisfação nos olhos
Onde armas foram brandidas em paz
Onde palavras foram ouvidas com respeito
Onde o entendimento foi partilhado
Nessa assembleia,

Wallace William

17/11/2011.

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Henffych Well!!!

Saudações a todos. Esse blog foi criado especialmente para a atividade dos “30 Dias Druídicos”, iniciada no Brasil por Endovelicon. A falta de vontade de reativar meu antigo blog me fez criar um novo, onde os erros do antigo não ocorrerão. Algum material dele será trazido para o novo, mas os tempos são outros, e muito mudou, nos meus posicionamentos e opiniões.  As publicações aqui não serão restritas aos “30 Dias Druídicos”, e espero trazer algum material útil aos praticantes de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico no Brasil.

Então, sejam todos bem-vindos!!

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