Contos

Da Colheita das Almas e da Noite Mais Longa

Gwynedd. O antigo reino da Venedotia. A língua estava se transformando no mesmo ritmo que o mundo mudava. o cristianismo agora estava assentado, e os velhos deuses, esquecidos. Hoje, nessa região onde outrora Rigantona, a Grande Rainha, fora louvada, as igrejas tomam o local dos velhos santuários sagrados. O povo hoje leva suas orações ao Cristo martirizado, sua mãe adorada e seu pai divino. Para Gwaltwent, a velha fé estava perdida, e não demoraria muito para que desaparecesse completamente.

– O que prova que sua cabeça é tão vazia quanto o tronco de uma velha árvore devorada por cupins. Nós iremos desaparecer, muitos velhos hábitos irão desaparecer, e logo nossos nomes terão tanto significado para eles quanto o som do vento tem para os ignorantes. Logo, o musgo cobrirá nossa história como a terra cobrirá nossos ossos. E quando o último de nós partir em sua barca para as ilhas abençoadas, nada restará além do cristianismo, que reclama hoje essa terra para si. E ainda assim, a fé não terá morrido. – disse Yannet.Os dois, o druida e seu aprendiz, estavam viajando pelo oeste da Ilha da Bretanha durante um inverno frio, que machucava os já não tão jovens ossos de Gwaltwent, mas ele não ouvira seu mestre se queixar uma vez sequer. Conseguiram hospitalidade ali, ainda que não de total bom grado. Parte da família do anfitrião era fervorosamente cristã e não apoiava que os dois ali estivessem. E, sob ordens de Yannet, eles faziam o possível para não ofender a crença deles. Mas Gwaltwent não se sentia feliz com isso:

-Olhe para eles, mestre druida. Eles estão se preparando para celebrar a sua “Maria Cinzenta”; no meio do inverno, eles deveriam estar louvando a Grande Rainha, mas eles esquecem o passado em nome da nova fé.  Essa é a Longa Noite!!! E eles se esquecem de que é a busca Dela pelo filho que trará de novo o verão. Era melhor que eles ficassem o tempo todo no inverno, e atacados por algum espírito faminto. Se os saxões não acabarem conosco, nosso próprio povo o fará e… – a fala de Gwaltwent fora interrompida por um golpe do cajado de Yannet em sua testa. O rapaz caiu da cadeira. Estava acostumado com isso, simplesmente se levantou e retomou o seu lugar à mesa. Onde recebeu um novo golpe, dessa vez de lado, atingindo a bochecha e o fazendo cair de novo. O aprendiz se levantou de novo, com o rosto furioso, mas apenas ao ver a expressão de Yannet, baixou os olhos e se sentou.

-Por que me bateu uma segunda vez? – perguntou, em voz baixa.

-Porque você desrespeitou a maior virtude de nosso povo: a hospitalidade; essas pessoas nos aceitaram em sua casa, apesar de terem uma crença diferente; é assim que você retribui? Hospitalidade não é regra apenas para quem hospeda.  Nós temos que respeitar os nossos anfitriões, e não é criticando suas atitudes que você o faz. Guerras já foram iniciadas por alguém faltar com o respeito aos anfitriões. Nunca ouviu falar do Touro de Cooley, na Irlanda? Ah, esqueça, é uma história longa e não tenho paciência para conta-la hoje.  – o velho pegou o seu copo de vinho e tomou. Fez uma careta ao engolir. Preferia hidromel forte e quente no inverno, mas não reclamaria, por respeitar aqueles que lhe derem guarida. O jovem não levantou os olhos, mas perguntou ainda mais baixo:

-Mas, senhor, eu disse alguma mentira?

-Gwaltwent, eu acabo de citar qual é a nossa maior virtude. Você esqueceu qual é?

-Hospitalidade, senhor, – respondeu o jovem, confuso, achando que receberia um novo golpe.

-Exato. Nós estamos hospedados na casa desse senhor há mais de um mês, e isso porque ele não esqueceu totalmente os modos de nosso povo. Nosso povo ofereceu hospitalidade aos romanos. Nosso povo ofereceu hospitalidade aos saxões. Não negamos hospitalidade a ninguém. A quem mais devemos hospitalidade?

O jovem pensou, e franziu a testa. Não era a hora para lições, mas ele ainda tentaria fazer o certo.

-Aos líderes de nosso povo, aos nossos sábios, à nossa família…- o rapaz foi interrompido pelo druida, que levantou a mão.

-Quando foi a última vez que prestou a hospitalidade à sua família?

-Já faz tempo, mestre, estou viajando com o senhor há mais de dois anos… – ao dizer isso, o rapaz se encolhe, pois vê a mão do druida apertando o cajado, como que preparasse um golpe. Mas nada acontece.

-Há algumas semanas, nós celebramos a festa dos mortos, a noite das almas, com os nossos anfitriões. Preparamos o banquete dos espíritos, e os convidamos à nossa mesa. Você prestou hospitalidade à sua família naquele momento, assim como eu, assim como eles. Você vê?

-Mas mestre, pelo que estudei contigo, não era assim nos velhos tempos. Não era uma festa celebrada por cristãos. Ela nem tinha esse nome, era o Samonios.

-E o nome importa tanto? Você sabe que era o Samonios, mas ainda assim, essas pessoas o continuam praticando. Isso porque eles reconhecem a mudança do ciclo, a chegada do inverno, e o estreitamento do véu entre os mundos. Eles ainda sabem que os espíritos dos familiares virão visita-los. Eles sabem que os espíritos andam pelo vento e geada, por isso utilizam máscaras e fantasias em sua celebração, e alguns ainda o fazem para viajar. Você sabe os nomes, mas tem que saber disso se quer ser um druida. Eles sabem o que precisam saber. A nossa fé está no mundo, na Tribo e na Terra e no modo que elas se relacionam. E você vê que ela não some, mesmo com uma nova religião. O povo pode virar os olhos para outra direção, mas ainda continuará seguindo o ciclo da Terra. O cristianismo pode tirar do povo os seus deuses, mas não pode tirar dele aquilo que é parte de sua vida, aquilo que eles sempre fizeram. Por isso, a nossa fé não morre.

-Mas senhor, mesmo que nossa fé sobreviva dentro do cristianismo, dessa forma que explica, ela ainda sofrerá com os saxões. Com o cristianismo, ela já se torna mais pobre. Com os saxões, ela pode sumir!!

O velho druida deu um sorriso maroto. E prosseguiu numa voz divertida:

-Porque você não faz o favor de ir pregar para os saxões, então? Pelo que sei, eles ainda não aceitaram a cruz, então talvez eles te escutem, – tendo calado o aprendiz dessa forma, ele continuou – diga-me, porque as pessoas se fantasiam no Samonios?

-Porque o véu que separa o mundo mortal do Andumnos se torna mais fino nessa época. Porque os espíritos podem entrar no nosso mundo e nos agredir, e se estivermos vestidos como eles, podemos engana-los, e eles nos deixarão em paz. É recomendado que as pessoas façam isso não só no Samonios mas também durante o período até o solstício.

-Bom. E o que os saxões pensam sobre essa época, já que tem tanto medo deles?

O rapaz pensou, pensou, pensou, e ficou em silencio. Sabia que seria repreendido, mas não tinha o que fazer.

-Oh, quão grandioso é teu conhecimento, Gwaltwent!!! Teu silêncio diz que os saxões não pensam nada sobre essa época, é isso?

-Sim… senhor… é, isso…- gaguejou o rapaz, com medo de receber mais algum golpe.

-E, pela primeira vez em tempos, você está certo; os saxões não pensam nada sobre o Samonios; – o rapaz suspirou aliviado, e chegou a fechar os olhos, quando recebeu o cajado na boca, – e, ao mesmo tempo, não poderia estar mais errado!!! Para eles, essa é a época que os espíritos andam pelo mundo, esperando para correr o mundo na cavalgada do seu deus-de-um-olho, colhendo as almas dos mortos na noite de hoje. Qual é o espírito que mais tememos nessa época, após o Sauones?

O velho usou uma pronúncia diferente, mais próxima da linguagem atual daquela região. Ele podia ser velho, mas não se fechava às mudanças. Após retirar a mão da boca ferida, o rapaz disse:

-Vindos filho de Nodens, porque ele cavalga nas noites, acompanhado pelos cães do Andumnos, que passam uivando e convocando as almas das pessoas para deixar seus corpos; – respondeu o rapaz; o inverno era uma época dura naqueles tempos e naquela região, e era esperado que muitos velhos e crianças não sobrevivessem ao meses mais frios, e mesmo homens saudáveis muitas vezes eram levados pelo uivo dos cães de Annwn, carregado no vento gélido.

-Então, pare de se preocupar com os saxões, porque eles também sabem que essa é a época da colheita das almas. E ela termina hoje, na festa da Maria Cinzenta.- disse o druida.

-Em uma festa cristã? – disse Gwaltwent.

-Cristã? Em nome dos deuses, devo ser o pior dos mentores. O que celebramos hoje?

-A Longa Noite. O dia que a Grande Rainha parte em busca de seu filho. A noite de Rigantona, senhora dos cavalos.

-Qual era a celebração na Gália? – perguntou o druida.

-Era a celebração de Epona, a Deusa-Égua, que até mesmo os romanos adotaram. Sei o que quer dizer, mestre, que a festa de Epona e a de Rigantona tem o mesmo significado, as deusas-do-cavalo que galopam pela mais longa das noites, em busca da semente que trará o verão de volta. A partir desta noite, as noites ficarão gradualmente mais curtas, e os dias mais longos. Mas o que a festa da Maria Cinzenta tem a ver com isso?

-Nota-se que você nunca esteve em uma festa como essa. A Maria Cinzenta não é a mãe do Cristo. A lenda diz que ela teve seus potros roubados na noite do solstício e, desde então, galopa em busca de seus filhos perdidos. A Maria Cinzenta é Rigantona, é Epona, ela é a deusa que busca o filho que trará de volta o calor. Seu culto não morreu, porque o povo se recusa a esquecer dela. Ela pode ter sido transplantada para a nova religião, mas enquanto a prática continuar, ela não será esquecida. Esse é o papel do povo, não permitir que ela seja esquecida e prestar seu culto a ela. E isso ele faz bem. O seu papel é conhecer sua origem e seu significado. Enquanto existirem pessoas como nós, ela sempre poderá ser lembrada e cultuada na sua forma original. E, por isso, a nossa fé não morre. Não com o cristianismo, não com os saxões. É a hora de prestar a homenagem a Ela, Maria Cinzenta, Rhiannon, Epona; é hora de ela reencontrar seu filho, e o dia lentamente retornar; é a hora de o véu entre os mundos começar a ficar mais forte, e Vindos, Gwyn, ou como quer que o chamem, encerrar a colheita das almas; – o druida olhou para fora e viu a procissão se formando, tendo na frente um poste ornamentado com uma cabeça de cavalo, enfeitado com um manto branco e fitas coloridas por todo o lado. Eles passariam em procissão de casa em casa, para que a Rainha-Égua recebesse seu tributo, mesmo na era cristã; – parece que eles estão prontos? Vamos acompanha-los?

E eles foram, cantando em procissão, velhas canções que lembravam um passado anterior à cruz, que cantavam a chegada do frio, a colheita das almas, a cavalgada da Rainha Égua, e o retorno da luz. Dessa vez, Gwaltwent havia entendido:

Mari 2006

“Galopa, galopa, Maria Cinzenta,

Galopa em busca dos potros,

Galopa, galopa, Maria Cinzenta,

Galopa nessa longa noite.

Galopa e nos traz de volta os potros,

Galopa e nos traz de volta a vida.

Galopa e nos traz de volta os potros,

Galopa e nos traz o sol para a terra.

Galopa, galopa, Maria Cinzenta…”

A Maria Cinzenta (Mari Llwydd) é um costume folclórico do interior do País de Gales, que era realizado na véspera de Natal. Por sua semelhança extrema com a lenda de Rhiannon e Pridery, e a proximidade da data com a festa de Epona, na Gália (e a semelhança de Rhiannon e Epona, na sua ligação com cavalos), muitos pesquisadores chegaram à conclusão que esse costume tem origem em uma prática pagã muito anterior, relacionada ao solstício de inverno. O costume permaneceu sendo praticado até o século XIX e, recentemente, começou a ser revivido em comunidades rurais e grupos culturais nas grandes cidades, além de grupos pagãos que reconhecem nessa prática uma celebração mais antiga, com um simbolismo mais profundo oculto dentro dela. 

Wallace William Kunvelin

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