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IV Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

E lá se foi o quarto; lembro-me até hoje quando a ideia do primeiro foi divulgada. No início, alguns tinham dúvidas; no início , alguns duvidaram que pudesse dar certo; eu mesmo não estive no evento (e como me lamento por isso; ah, se o arrependimento permitisse fazer a roda girar ao contrário…), mas ele aconteceu, graças ao trabalho de alguns visionários (presentes neste evento, três vezes louvados sejam seus nomes). E agora chegamos ao quarto; acho que não há mais dúvidas sobre ele e seu objetivo. Cada ano teve sua tônica, cada ano teve seu estilo particular, mas o espírito sempre foi o mesmo: agregar, conhecer, trocar, ensinar, aprender, plantar e deixar florescer. O EBDRC já fincou suas raízes, e os seus ramos crescem mais e mais em direção aos céus.

O evento desse ano foi lindo. Foi emotivo. Foi agregador. Como se os ventos dos encontros anteriores soprassem sussurrando seus segredos, o que havia de forte neles estava presente, ainda que com algumas tristes ausências, tanto de pessoas que gostaríamos de rever, quanto de pessoas que gostaríamos conhecer. Mas o evento também trouxe novos membros à nossa comunidade, que são “novos” apenas no sentido de participar do evento pois já tem raízes fincadas no cenário druídico brasileiro, apenas para abrilhantar o evento. Sua força juntou-se à nossa força, e todos saímos de lá com a sensação de ser o bosque sagrado, cada qual sendo o axis mundi, participando da ligação entre os Três Mundos sagrados. E o público, ah, o público, é tão difícil chamar de “público”, pois o evento é feito por todos, e todos os presentes agregaram sua própria força e energia; fico muito feliz em ver tantos rostos novos, e espero que essas sementes floresçam e embelezem ainda mais a nossa crença no futuro.

No evento deste ano aprendemos como  reconhecer o Sagrado expresso no corpo, como uma representação microcósmica da própria Terra, e a ativar as propriedades dos Três Caldeirões sagrados no corpo; honramos aos ancestrais da Terra; aprendemos com emoção como nos relacionar com o Deus Druida, o Pai de Todos, o cultivador, o guerreiro, o solar, e cantamos em sua honra; dançamos e rodopiamos em honra às terras de origem de nossa tradição (e digo novamente, dançar é algo extremamente libertador e divertido; ainda ouvirão muitas reclamações minhas sobre isso, mas é só em tom de brincadeira mesmo…); aqueles que optaram por sentir o calor do ventre da Terra o sentiram, e aqueles que optaram por interiorizar a caminhada do espírito, puderam fazê-lo; aprendemos a trabalhar nossos sentidos para guiar nossas barcas às Ilhas Abençoadas; aprendemos que o homem nasce da Terra, e seu destino é à Terra retornar para novamente nascer, pois a vida ocorre em ciclos; aprendemos que o Druidismo não ocorre apenas em dia de rituais, ou apenas quando se está em meio às florestas, mas ele deve ocorrer em nossas casas, nossos lares, nossas vidas; aprendemos a criar o talismã da Senhora das Três Chamas, protetora do lar e da família, aprendemos a observar o mundo sutil, aprendemos que o caminho dos Antigos envolvia a luta e o combate; celebramos, entre pessoas e espíritos, e aprendemos como se relacionar com aqueles ao nosso redor, mesmo que não visíveis; aprendemos que não é apenas dos sacerdotes que nossa crença vive, e que todos são necessários para mantê-la forte.

O Druidismo sempre foi múltiplo, sempre foi mutante, sempre foi adaptável; e assim ele é no Brasil. E dessa forma ele vai crescer, enquanto houver pessoas dispostas a trabalhar umas com as outras, independente das diferenças em suas linhas de pensamento. Como o Druida do meu grupo costuma dizer, “uma floresta não é formada por um só tipo de árvores”; esse ensinamento é verdadeiro, e o exemplo é o próprio evento, que cresce a cada ano, englobando mais árvores diferentes ao nosso bosque. Que os velhos tempos de conflito e críticas fiquem para trás, não mais como uma pedra no meio do nosso caminho, e que essa pedra seja coberta pelo musgo das eras e o pó do esquecimento. Para aqueles que olham para frente, nos vemos ano que vem em Recife!!!

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Resenha: Aírechtas de Primavera 2013

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No dia 05 de Outubro de 2013  foi realizado o segundo ciclo de palestras do Aírechtas: Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba. Como a primeira edição, realizada no outono deste mesmo ano, o evento primou pela organização impecável, sempre mérito do grupo Fína na Dairbre; o evento está se tornando a grande referência do Druidismo em Curitiba e sempre atrai pessoas de outros estados, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Dessa vez não foi diferente; e mais uma vez esse Bardo partiu para a bela (e já tão querida) cidade de Curitiba para participar desse evento, novamente a convite do Fíne na Dairbre Protogrove ADF, que sempre me proporcionam essa honra, além de  serem anfitriões de primeira categoria, verdadeiros adeptos da virtude céltica da Hospitalidade. Agradeço  aqui novamente à Marina Holderbaum e ao Erik Wroblewski pela recepção, abrigo e boa conversa, como sempre.

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Palestra da Marina

O evento foi realizado no Solar do Rosário, no Centro Histórico de Curitiba, um lugar muito bonito e aconchegante, e que acolheu a todos com muita honra. O equipamento estava perfeito, mais um mérito da organização. O público foi chegando aos poucos, mas logo todos estavam no local; e o evento começou sem grandes atrasos. A primeira a falar foi a anfitriã e organizadora, Marina Storino Holderbaum, a querida Enbarr de quem a conhece do meio druídico, do Fíne na Dairbre, com uma oficina sobre Meditação Druídica, enfocando as técnicas de meditação usadas por grupos de orientação Reconstrucionista, exemplificando claramente as diferenças entre as diversas formas de meditação, como entre a Oriental e a Ocidental, e usando exemplos da mitologia gaélica como base para demonstrar como poderia funcionar o processo de meditação dos antigos Fíli da Irlanda; uma palestra realmente muito proveitosa. Após o final da palestra, com direito a um bate-papo sobre o tema, veio a vez deste que voz escreve subir ao palco; como foi minha palestra, não vou me deter muito sobre ela, deixando apenas o assunto (“Mitologia Celta e a Ligação com a Natureza”),  e um pedido de desculpas por ter me estendido MUITO no tempo da palestra; apesar de eu sentir que a mensagem tenha sido passada a contento. E mesmo com a minha demora, havia uma palestra genial por vir: José Paulo Almeida, da Clareira Coré-Tyba (Curitiba) e do Caer Ynis (Florianópolis), veio com um tema que hoje ganha cada vez mais relevância no Druidismo moderno e no Reconstrucionismo, “Entre a Fé e a Espada: Vivendo a Fé Celta no Caminho do Guerreiro Poeta”. Certamente os Deuses inspiram esse homem, pois sua palestra não beirou a perfeição, ela a atingiu com louvor; JP é um dos grandes articuladores dos diversos movimentos druídicos e reconstrucionistas do Brasil, talvez um dos membros essenciais de nossa comunidade hoje, e a mensagem que ele passou foi marcante: em um meio com tantas pessoas buscando seguir um caminho sacerdotal, precisamos de mais “guerreiros”, de mais pessoas que estejam dispostos a nos defender com as armas que o mundo moderno exige.  Precisamos de mais homens e mulheres dispostos a encarnar o espírito dos antigos Fianna nos nossos dias. De pessoas que sejam guerreiros, não pelo prazer da discussão e disputa, mas pela defesa de nossa tradição. Uma palestra realmente memorável.

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Apresentação do Thunder Kelt

Após a palestra do JP, partimos para um almoço coletivo em um pub irlandês próximo, aproveitando um dia quente e agradável em Curitiba, e desfrutando da beleza do seu Centro Histórico; um almoço agradável, com conversas sobre assuntos diversos, como tem de ser entre amigos. Mas logo voltamos ao Solar para continuar o evento, já com as barrigas cheias. E começamos com um belo show da banda local Thunder Kelt, que conta entre seus membros Leandro MacLorihem, da Brathair na Fiachán Gorm, e uma participação especial do incrível vielista Raine Holtz; fomos presenteados com um ótimo set canções típicas da Irlanda, Escócia e Galícia. Com todos novamente “no clima”, foi a vez de Ana Elisa Bantel subir ao palco, com mais uma palestra fantástica, falando sobre o papel da mulher na sociedade céltica; usando habilmente exemplos da mitologia Ultoniana, essa hábil historiadora desmistificou muito do papel feminino na sociedade céltica antiga; o tema já foi abordado de muitas formas dentro do nosso meio, mas a Ana merece aplausos, não só pela abordagem atual, mas também pela maneira que ela organizou os tópicos, usando uma personagem feminina para representar um diferente aspecto do papel feminino na sociedade tribal irlandesa. Uma palestra para aplaudir de pé. Então veio o historiador Erik Wroblewski, do Fíne na Dairbre, com mais uma palestra para ficar na memória, pois desmistifica muitas ideias preliminares sobre a cristianização da Irlanda; de fato, Paganismo e Cristianismo nas Fontes Literárias da Irlanda Tardo-Antiga desfez vários mitos a respeita da entrada do cristianismo na Irlanda, o papel de Patrício, e o convívio entre as duas religiões na ilha durante algum tempo; por trabalhar com fontes sempre atualizadas (como é normal para alguém de abordagem acadêmica), Erik pode falar com propriedade sobre o assunto, e demonstrou com grande quantidade detalhes como o cristianismo se assentou gradualmente na Irlanda antiga; no mínimo, memorável. O evento se aproximava do final, mas havia ainda um workshop a ser feito, e ele veio com  a organizadora Marina Holderbaum, falando sobre a confecção de oferendas votivas para rituais; Marina tem um dom artístico raro, além de uma base de estudos rara, o que gerou um workshop  apreciadíssimo por todos, inclusive com  uma discussão bastante longa e elucidativa sobre a diferença entre oferenda e sacrifício; admito que já estou fazendo meus testes aqui com o que aprendi lá. E esse workshop fechou o evento com chave de ouro, deixando com a todos com gosto de “quero mais”.

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Palestra Erik Wroblewski

Após o final do evento, partimos para uma noite de celebração entre amigos, conversando animadamente sobre diversos assuntos novamente; o clima era agradável e amigável, e todos nos divertimos muito. Agradeço de novo a todos os organizadores, aos grupos druídicos de Curitiba por estarem criando uma cena tão maravilhosa na sua cidade (de longe a cena druídica que mais cresce no nosso país), aos amigos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul presentes, e à cidade de Curitiba por me receber novamente; é sempre uma honra receber o convite, e sempre faço o melhor para corresponder às expectativas. E como é de costume, eu sempre volto com mais do que fui (fora o conhecimento e experiência adquiridos), e agradeço aos meus amigos, os anfitriões Marina e Erik, pelo presente recebido, a muda de carvalho, que já está alojada confortavelmente em casa. Sláinte, a chairde!! Até a próxima!! Para a comunidade druídica nacional: nos vemos no EBDRC!!

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1ª Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba 1°Ciclo

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Um novo passo foi dado pelo Druidismo e Reconstrucionismo Céltico no Paraná nesse último final de semana. E um passo grande, se lembrarmos que, até bem pouco tempo atrás, a maioria das pessoas sequer ouvia falar de grupos druídicos paranaenses; mas a situação mudou, eles apareceram (sim, “apareceram”, e não “nasceram”, pois a maioria deles já existia), se organizaram, e tem feito o possível para colocar o seu estado (e sua capital, Curitiba) no mapa da espiritualidade céltica nacional. O trabalho conjunto desses grupos tem ajudado a nossa crença a crescer em um ambiente onde ela encontrava pouco respaldo. Ainda há muito a ser feito, mas com um passo de cada vez, e o bosque druídico paranaense pode nos presentear com muitos bons frutos.

Como o colhido nesse final de semana: a realização do primeiro ciclo de palestras da Airechtas – Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba. Um evento pensado pelos membros do grupo reconstrucionista  Fíne na Dairbre, e que contou com a ajuda de todos os outros grupos druídicos da capital paranaense, com a intenção de abrir as portas do Druidismo (e da crença céltica) ao público local, que carece de eventos como esse, bem como de informação sobre os grupos, tanto locais quanto de outros estados. Com essa convenção o público curitibano poderá ter acesso a informações sobre o paganismo céltico nacional, bem como a palestras e atividades relacionadas ao assunto, algo que não ocorria antes. E para dar uma pequena contribuição ao evento, parti em direção à capital paranaense, ansioso pelo evento e por rever velhos amigos, bem como conhecer novas pessoas. Fui hospedado pelo casal organizador do evento, e não seria justo deixar de citar a hospitalidade com que fui recebido; não é a primeira vez que Erik e Enbarr me recebem em sua casa, e sempre o fazem com toda a dignidade de um antigo nobre céltico. Agradeço aos dois pelo abrigo, pela excelente comida e pela agradável companhia de sempre.

O evento ocorreu na chamada Casa Amarela, próxima ao centro de Curitiba. O lugar é bastante aconchegante, bom para eventos intimistas, e acolheu muito bem esse primeiro ciclo de palestras. O evento começou no ensolarado sábado, dia 20 de abril. Um público satisfatório estava presente, incluindo velhos amigos de São Paulo (como o pessoal da Tribo da Onça Parda) e de Santa Catarina (como membros do Caer Ynis), além dos membros dos grupos organizadores e algumas pessoas da cena pagã local. A infraestrutura do local era boa e, apesar de alguns problemas com a instalação dos equipamentos, as palestras começaram com um atraso pequeno. O clima entre os participantes era bom, amistoso (o fato de muitos já se conhecerem ajudou nisso), e as atividades ocorreram com poucos reveses.

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A primeira palestra, com Ana Elisa Bantel, de Ponta Grossa – PR, falou sobre “As Origens da Cultura Celta no Oeste Europeu”; talvez a mais apropriada realmente para iniciar o evento, pois tratava do mais antigo período a ser estudado ao longo do evento. Ana, com sua forte formação acadêmica, nos presenteou com uma palestra bastante didática e interessante, falando sobre as mais antigas populações da Europa Ocidental, e sua influência na formação da cultura, espiritualidade, e mesmo da genética dos povos célticos, sempre pautada em estudos arqueológicos atualizados. O evento começava bastante proveitoso e, após um curto intervalo, partimos para a segunda palestra, falando sobre a “Sociedade Celta e a Busca pela Honra”, com o organizador Erik Wroblewski, do grupo Fíne na Dáirbre. O palestrante, graças à sua formação como historiador, apresentou um resumo bastante coerente sobre o estudo dos povos célticos, bem como a estrutura básica de sua sociedade, antes de entrar no tema principal: a noção céltica de “honra” e a enorme importância que ela tinha dentro da cultura desses povos. Utilizando como principal referência o Ciclo Mitológico Ultoniano da Irlanda, Erik nos mostrou um aspecto bastante importante para os praticantes da espiritualidade céltica, afinal, não basta praticar uma religião sem aplicar seus valores à vida diária. Veio então a terceira palestra, de Cássia Dias, do grupo Forest Secret de Curitiba; o tema, “Geobiologia Druídica e a Arte do Habitat Saudável”, parecia ser bastante diverso dos outros, mas encaixou-se como uma luva. Em uma palestra interessantíssima, Cássia prendeu a atenção de todos, nos presenteando com os conceitos básicos da Geobiologia, e como ela pode ser aplicada ao estudo das antigas sociedades europeias (tudo muito bem pautado com gráficos, mapas e exemplos), bem como à nossa vida prática, aqui mesmo no Brasil. De longe, uma palestra que deixou a todos com um gostinho de “quero mais”…

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Tivemos, então, uma pausa para um coffee-break, onde todos tiveram a chance de conversar, tirar algumas dúvidas e relaxar. Eu mesmo tive um proveitoso papo com um fabricante de hidromel local, que me deu preciosas dicas sobre o preparo dessa bebida tão apreciada. Mas logo retomamos o evento, com a palestra da organizadora Enbarr Ní Manannán, do grupo Fíne na Dáirbre, falando sobre “Ritual e Simbolismo: Adaptação do Mito à Prática”; Enbarr, formada antropóloga, domina esse tema como poucos, e dissertou muito bem sobre as questões cosmogônicas que envolvem as diversas mitologias e sua função na ritualística, utilizando exemplos principalmente tirados da mitologia gaélica. Ótima palestra, muito instrutiva e que gerou uma boa roda de considerações e perguntas no seu final. Para fechar o dia, veio a palestra deste que vos escreve, falando sobre a “Estratificação Social no Mundo Céltico e sua Influência no Neopaganismo”; por ser a minha palestra, não tenho muito o que falar, mas foi um prazer estar lá apresentando o tema. Talvez ele tenha sido um pouco básico demais para os “veteranos” presentes (e desde já me desculpo com eles), mas eu o escolhi pensando justamente em algo que pudesse ser apresentado a um público não acostumado a ter esse tipo de evento. Mas ainda assim, foi uma palestra divertida, e espero que todos tenham encontrado alguma coisa útil nela.

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Voltamos para a casa de Erik e Marina, onde Ana Elisa e eu nos hospedamos, e tivemos um gostoso jantar e uma boa conversa devaneando sobre a situação do Druidismo e Reconstrucionismo no Brasil, bem como sobre futuros eventos do tipo na capital paranaense; mas logo fomos para nossas camas, pois o evento seria retomado na manhã seguinte. Cedo estávamos de pé e preparados, e retornamos à Casa Amarela para um café da manhã comunitário com os participantes, onde foi confirmado o clima amistoso entre todos. A primeira palestra do dia foi a de Leandro MacLorihem, da Brathair an Fiachán Gorm, falando sobre “Instrumentos Musicais dos Povos Célticos e a Gaita de Foles”;  uma palestra muito gostosa, afinal, a grande maioria das pessoas presentes é apreciadora da chamada “música celta”, sobre o qual muitos dos conceitos foram desmistificados; talvez o melhor na palestra do Leandro tenha sido mostrar a importância da música na ritualística, algo essencial dentro das religiões pagãs; nossa espiritualidade segue os ritmos e ciclos da Terra, e a música nos dá uma chance de celebrar esses ritmos com nossas próprias melodias. Exímio gaiteiro, ele ainda nos deu uma demonstração tocando sua gaita galega. A última palestra veio com José Paulo Almeida, da Clareira Coré-Tyba (e também parte do grupo Caer Ynis, de Florianópolis), que nos falou do “Despertar: Como os Druidas Renasceram no Século XVIII”, em uma repetição da palestra ocorrida no III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (ocorrido em novembro de 2012, em Novo Hamburgo – RS), dessa vez para o público local. Em uma atividade muito informativa, o JP desmistificou muitas das figuras que ajudaram a formar as primeiras ordens druídicas dos tempos modernos, bem como explicou como eles chegaram a suas ideias e formaram a estrutura daquilo que é chamado por alguns de “Meso-Druidismo”; a palestra foi muito importante para retirar preconceitos sobre esse movimento (que algumas pessoas no Brasil teimam em manter), bem como nos ensinar algo sobre essas pessoas que foram as primeiras a estudar o Druidismo com a intenção de “ser” parte dele, não só como observadores externos.

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O evento se aproximava do final, e tivemos uma divertida hora de fotos entre os palestrantes e o público, bem como bate-papos, tudo isso ao som do bodhrán e da tin whistle do Leandro e do Rafael Corr (do Caer Ynis de Florianópolis), mas logo fomos à última atividade do dia: a mesa-redonda sobre o Druidismo e o Reconstrucionismo Céltico. Ela foi presidida (inicialmente apenas) por mim, na condição de convidado de outro estado, mas era aberta à participação de todos. Inicialmente, foi apresentada por mim a polêmica questão sobre o divisão do Druidismo e o Reconstrucionismo Céltico, sendo que ambos andam por estradas semelhantes, com práticas semelhantes e valores semelhantes. JP explicou ao público, rapidamente, o que é Druidismo, enquanto Erik fez o mesmo com o Reconstrucionismo. A discussão migrou rapidamente para os valores éticos de ambas as espiritualidades, e também para as suas metodologias de estudo. Em tudo, chegávamos sempre a conclusões melhores sobre as similaridades do que sobre as diferenças entre as duas, mostrando que o intercâmbio entre elas é sempre proveitoso e saudável. Infelizmente, não pude acompanhar a discussão até o final, pois meu táxi já chegava e a viagem de volta a São Paulo me aguardava. Despedi-me de meus bons amigos e parti, com uma certa pontada de arrependimento de não ter podido ficar até o final. Mas voltei para cá, feliz de ter feito a minha parte, e espero que o evento tenha ajudado a cena pagã na capital paranaense. Fico muito ansioso pelos próximos, e espero que essa semente plantada germine e cresça. Agora que o primeiro já aconteceu, temos algo para mostrar e ajudar na divulgação dos próximos, e Curitiba só tem a ganhar com isso. Agradeço a todos os presentes, principalmente a meus amigos de Curitiba pelo convite. Nos vemos em breve!! Então, ergamos um copo em brinde por essa vitória!! Sláinte!!!

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III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

Um ano se passou desde a segunda edição do Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta; um ano de muita expectativa para muitos, pois a terceira edição do evento (de caráter itinerante) seria realizada no estado do Rio Grande do Sul, um retorno à sua região natal (a primeira foi realizada em Florianópolis, Santa Catarina, organizada pelo grupo Caer Ynis), e organizada por Bellovesos Isarnos. Desde que isso foi decidido, a organização do evento foi nos presenteando com informações sobre o que estava sendo preparado, o lugar escolhido, e as palestras também foram sendo divulgadas. A expectativa era algo muito natural, pois tudo indicava que seria um evento único na história da espiritualidade céltica no Brasil. E ele o foi, de fato.

O EBDRC tem um caráter único entre os vários eventos pagãos do Brasil: por ser voltado a apenas um ramo do paganismo (o Druidismo e o Reconstrucionismo são ambos facetas do mesma espiritualidade céltica), os participantes possuem uma convivência, seja física ou virtual, extremamente ativa. Trocamos artigos, recomendamos o trabalho uns dos outros e, principalmente, interagimos como parceiros e amigos. Isso faz com que o Encontro seja sempre uma reunião de amigos, de parceiros e velhos camaradas; também por ter essa abordagem mais específica, suas dimensões são menores, o que aumenta o clima intimista dentro do evento. Isso tudo ajuda a tornar o evento especial e tão prazeroso de frequentar. E isso não foi exceção nessa edição.

A começar pelo lugar. O Sítio São Luiz, localizado na região de Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, é um deslumbre para os olhos. Mesmo pessoas que são acostumadas a viajar tem que admitir, é raro ver um lugar tão belo. Cercado por montanhas e morros, dotado de fortíssimo contato com a natureza, piscinas naturais, bons refeitórios (com ótima comida) e alojamentos vastos e confortáveis, o lugar foi escolhido perfeitamente. Mais do que digno do valor pago. E os funcionários do sítio também foram muito simpáticos, uma excelente hospitalidade gaúcha. A estrutura do evento também estava perfeita, com bom equipamento disponível, uma ótima sala de atividades, e as belas pastas com a programação preparadas pelo Bellovesos, mostrando mais uma vez que a palavra “eficiência” pode ser adotada como seu nome do meio. O clima foi quente durante todo o evento, com dias ensolarados e noites frescas, o que só ajudou.  Após reencontrar todos os velhos amigos, com a mesma simpatia de sempre, além de conhecer aqueles que nos eram conhecidos apenas de convívio virtual, tratamos de nos acomodar e desfrutar de nosso primeiro almoço no local, que já foi uma ótima prévia do que viria. A comida foi mais um dos (muitos) pontos fortes do evento.

O evento foi iniciado pelo organizador, Bellovesos Isarnos, falando sobre o caráter do evento, além de convocar José Paulo Almeida (Caer Ynis, organizador do primeiro evento) e Marcos Reis (Caer Tabebuya, organizador da segunda edição), e conduzindo uma oração ao final. Brigindo, a Senhora das Três Chamas, e Manannán, o Guardião dos Portais, haviam finalmente sido chamados, e era a hora de começar.

A primeira palestra foi do conhecido “xamã druídico”, Marcos Reis, do Caer Tabebuya (São Paulo), falando sobre a ligação entre o Druidismo e o Xamanismo, e falando sobre sua própria experiência e aprendizado na Amazônia e com as tribos indígenas. Marcos é um orador de um talento raro, e sempre cativa a plateia com suas palestras, e o conteúdo desta foi ótimo, como é de praxe. Algumas pessoas de fora podem se perguntar o porquê de trazer um tema tão “indígena” dentro de um evento voltado para a espiritualidade céltica; mas uma das bases do Druidismo é honrar os espíritos do local em que se vive, bem como os Ancestrais da Terra, e por isso a palestra de Marcos foi excelente, nos mostrando um pouco do que seria a tônica do evento. Certamente os Ancestrais da Terra ficaram satisfeitos com tudo.

A segunda palestra foi feita por João Eduardo Schleich Uberti, do Caer Itaobi (São Paulo), falando sobre altares. João é conhecido por sua dedicação a detalhes, e sua palestra foi extremamente completa, falando sobre altares em diversas religiões, desde monoteístas (cristianismo ortodoxo), passando por orientais (Xintoísmo, Budismo, Taoísmo), e pagãs modernas (Druidismo, Reconstrucionismo); João, mostrando o conhecimento que lhe é característico, nos falou sobre a visão que diferentes espiritualidades tem do altar, suas funções, formas de organização, e estética. As belas fotos que João conseguiu a partir dos templos que visitou ajudaram a ilustrar bem as palavras do palestrante, e a palestra foi bastante didática. Aposto que muita gente chegou em casa e reorganizou seu próprio altar depois dela.

Então, foi a vez de Bellovesos Isarnos iniciar sua palestra, falando sobre a origem da jurisdição dos Druidas. O tema inclui a comparação da evolução do direito entre os gregos e romanos, as informações que temos sobre a lei céltica antiga, além da legislação medieval da Irlanda e do País de Gales (com um toquezinho de lei germânica também, como se não bastasse….). Pode parecer complexo (na verdade, é), mas o senhor Bellovesos Isarnos mostrou porque é um dos druidas mais respeitados e admirados em nosso país. A palestra foi absolutamente irretocável, cheia de conteúdo, e apresentada com maestria. Além de organizar um evento maravilhoso, todos devemos agradecer a ele pela chance de partilhar um pouco do seu fantástico conhecimento. Nada mais a dizer sobre isso.

Jefferson Matthes (Ordem Walonom, Rio Grande do Sul) foi o seguinte. Através de seu trabalho com a Ordem Walonom, ele desenvolveu uma concepção muito particular sobre os ciclos lunares, fazendo um paralelo muito interessante com o ciclo dos quatro festivais célticos. A palestra teve bastante participação do público, o que mostra que o assunto teve muito interesse, e a concepção de os ciclos lunares representando uma forma microcósmica dos ciclos solares representados pelos festivais realmente foi algo muito interessante e digna de estudos. No final, foi mais uma palestra que mereceu toda a atenção.

Após essa palestra, tivemos um agradável jantar, inebriados pelo primeiro dia. O evento começava muito bem, e o clima estava ótimo. Voltamos ao salão para iniciar as conversas, regados ao hidromel de Beansidhe Iohobadb, e tudo estava tão agradável que ninguém queria ir dormir. Mas o segundo dia já se avizinhava, e tínhamos de descansar.

O segundo dia do evento começou com uma trilha, após o café da manhã, organizado pelos membros do Sítio São Luiz. Admito, não estava presente (as camas do sítio eram confortáveis demais para serem deixadas tão facilmente), mas vendo fotos e ouvindo comentários, tenho a certeza de que todos tiveram um ótimo momento de contato com a terra e a natureza.

Após o almoço, voltamos às palestras, com a doce fada das terras paraenses, Darona ní Bríghid/Mayra Faro (Nemeton Samaúma, Pará). Para quem conhece essa menina brilhante, não foi uma surpresa a palestra ter sido ótima. Ela falou sobre os Encantados, entidades típicas da Encantaria Amazônica, traçando um paralelo entre eles e os Sídhe da tradição céltica. A palestra foi bastante coesa, e se estendeu por mais uma hora além do previsto, pois todos adoraram e queriam comentar  e saber mais dessa menina que, apesar de pequena na estatura, se torna uma gigante na hora de falar ao público. Foi mais uma palestra que honrou aos Ancestrais da Terra com absoluta competência.

Então, foi a vez desse cão que vos late, Wallace Cunobelinos (Ramo de Carvalho, São Paulo). Minha palestra foi baseada nas práticas oraculares do povo celta, desde os seus tempos antigos, passando pelo período medievo, e terminando no folclore recente, onde algumas delas ainda podem ser conhecidas, enfocando principalmente uma prática escocesa das Highlands, que pode ser utilizada por qualquer um, desde que padrões próprios sejam desenvolvidos com o tempo.  Não vou me estender aqui, pois a palestra foi minha mesmo.

O Druida do Vento (de Anastácio, Mato Grosso do Sul), que impressionou a todos com seu riso, também mostrou que pode impressionar com seu trabalho. Uma nova palestra baseada nas culturas nativas, dessa vez focada na dos índios Terena. E ela foi irretocável. Muitíssimo bem explicada, muitíssimo bem ilustrada, que não pecou por falta de informação, ou por excessos em quaisquer pontos onde isso poderia ser desnecessário. Acredito que a didática seja uma das características principais desse jovem que nos apresentou uma cultura fascinante em sua estrutura social e em sua mitologia. Para pessoas que pretendem apresentar alguma palestra sobre algum povo (qualquer um), sugiro que peguem algumas dicas com ele, pois ficou provado que ele sabe como fazer isso de forma agradável e fácil de entender.

Sheilla Pereira Sabbag Uberti (Caer Itaobi, São Paulo), esposa do João, foi a próxima, com uma bela palestra (mais uma roda de conversas, só que coordenada por ela), sobre os ciclos da vida, sobre nascimento e morte, sobre o crescimento. Ainda que boa parte dela fosse voltada ao público feminino, tão mais ligado a ciclos do que o masculino, todos conseguiram entender a importância de levar uma vida com honra, dignidade e responsabilidade com o próprio corpo e com a própria vida, além da de seus entes queridos. Uma bela lição de nossa amiga Sheilla, que ensinou muito a todos os presentes, bem como ajudou muito aos homens presentes conhecerem melhor suas companheiras.

Após a palestra da Sheilla, foi a vez de Andréa Éire e Simão Proença (Caer Tabebuya, São Paulo) apresentarem danças folclóricas escocesas para o público, um dos momentos mais divertidos do evento. As danças escocesas são complexas, mas muito bonitas, e tenho de dizer, apesar de minha completa inépcia para a arte da dança, eu gostaria que essa parte fosse aumentada em eventos futuros, talvez duas horas e agregada ainda por cima à festa posterior.

A festa da segunda noite foi muito mais intensa do que da primeira. E as conversas também. Se havia alguma inibição, ela morreu após a primeira noite, e todos ali conversavam como velhos amigos (e a grande maioria o era mesmo). Um dos grandes ápices foi a dança de roda com tambores em frente à lareira, além das brincadeiras com a Gwen (minha gaita-de-foles).

O terceiro dia começou tarde, e já havia um clima de final de festa. Mas ainda havia muito por fazer. Então, após o almoço, Jefferson Matthes voltou para uma nova palestra, explicando como nasceu o seu grupo, a Ordem Walonom. Uma palestra muito clara e honesta, admitindo suas origens em uma obra de ficção, mas também de um grupo que soube como crescer e evoluir para além de seu “berço”. Hoje, a Walonom é uma força no Rio Grande do Sul divulgando a espiritualidade céltica, e deve ser respeitada como tal.

Joanna do Arco (da Tribo da Onça Parda, de Jundiaí) foi a seguinte. Joanna tem grande experiência com vivências e meditações, e foi o que ela usou, nos falando um pouco sobre os exercícios respiratórios que ajudam uma meditação, antes de conduzir uma visualização muito intensa para todos. A intensidade da experiência foi incrível, e ela contou com o apoio do Marcos Reis no tambor, para ajudar a imersão. Ótima vivência, sem dúvida.

Então foi a vez de José Paulo Almeida (do Caer Ynis, Florianópolis, ainda que agora seja também da Clareira Coré Tyba, em Curitiba), falando sobre o renascimento druídico, e o Druidismo romântico dos séculos XVIII e XIX. Muito esclarecedora, ela foi importante para nos lembrar de que esses homens foram responsáveis por trazer o Druidismo de volta ao mundo como forma de espiritualidade. Hoje em dia, muitos detratam as crenças das pessoas durante esse momento histórico, mas temos todos que lembrar que vivemos em uma época diferente, com muito mais informação do que eles. Não deveriam ser simplesmente ignorados, pois se o Druidismo renasceu, foi graças aos esforços deles. E ainda temos o que aprender com seu trabalho.

E voltamos a dançar; dessa vez, com a regência de Darona ní Brighid, que nos mostrou danças circulares sagradas de diversas partes do mundo, e de diversas épocas também. Destaque para a dança irlandesa apresentada, bem como a an dro da Bretanha Francesa, além da dança das aves. Novamente, uma atividade que poderia ser estendida por mais tempo.

Então, houve uma “mesa-redonda” (aspas pelo fato de não haver uma mesa no local) sobre a fundação do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta. As bases do Conselho foram citadas, bem como as razões de sua criação. A diretoria eleita foi apresentada ao público presente, e algumas sugestões foram dadas para os nossos passos futuros, mas ficou claro que a próxima ação deve ser a criação do regimento interno do Conselho. Mas essa semente, que foi plantada há tanto tempo, finalmente começa a mostrar seus frutos.

Então, sentimos que era a hora de encerrar o evento. Após o jantar, todos nos dirigimos em direção à área onde a fogueira nos aguardava. Após acesa, unimos as cinzas dos encontros anteriores a ela, e ali ficamos, em meditação e pensamento. O encontro chegava ao seu fim mas,  de alguma forma, nada disso deveria acabar. Então, os membros que se dispuseram foram até o fogo para realizar seus juramentos sagrados perante a Tribo presente. A maioria pediu para que sejamos unidos e leais para com nossa fé, e assim será. Marcos Reis realizou uma roda de cura para os membros que ali necessitavam, e depois nos chamou para realizar aquilo que é o maior dos atos de cura que podem ser realizados: o reconhecimento do outro. Agradecemos a cada um, abraçamos a cada um. Naquele momento, não havia mais mágoas, somente uma irmandade entre os membros. Pessoas que se conheceram naquele final de semana tornaram-se amigos. Pessoas que já eram amigas abraçavam-se como irmãos. E que esse clima nunca morra em nossos corações.

 

Amanheceu em Novo Hamburgo. Muitos já haviam partido antes do café. Outros foram logo após. Mas o evento ainda queimava dentro de todos, com certeza. Ainda queima dentro de mim, e não parece que irá se apagar tão cedo. No final, ele foi perfeito. Apesar de algumas ausências sentidas, não é possível pensar nele de forma diferente. E eu só tenho a agradecer por ter participado dele. No próximo ano, voltamos a São Paulo. Que os Deuses preservem esse espírito do evento em nossas almas até lá.

Wallace Kunvelin

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