Mitologia

Sobre a Mitologia Britônica: A Korrigan

Os Celtas sempre viram a natureza com muito respeito e reverência; as florestas de seu território eram motivo de louvor; podiam ser locais de culto, como os romanos nos dizem, ou podiam ser locais de louvor, como a poesia do Ciclo Feniano nos mostra, pois os Celtas (e sua casta erudita, os Druidas), dentro do seu pensamento animista, sabiam reconhecer os valores espirituais dos bosques, que eram a morada de Deuses, espíritos e fadas. Mas se as florestas eram  a morada das fadas, isso não quer dizer que fossem lugares completamente seguros; na verdade, uma parte do respeito e da reverência que eles tinham por elas vem do temor que nutriam pelo “Belo Povo”; muitas das fadas, dentro da cultura celta, tinham ligações diretas com as deidades desse povo, podendo ser originalmente Deuses na sua concepção original, como é o caso de Áine, Fionnbhearra, e Gwynn ap Nudd. Outras eram espíritos guardiões das florestas e de outros pontos naturais, vivendo próximas à população campesina. Mas sempre eram fruto de temor, pois seu temperamento era mutável como a natureza, e algumas eram abertamente temidas pelo povo. Um dos exemplos era a Korrigan, uma conhecida entidade que era conhecida na Bretanha.

Oficialmente, não temos como identificar se a Korrigan era originalmente uma divindade cultuada, ou um espírito da floresta que tinha por hábito atacar aos mortais (como Fionnbhearra). Na verdade, é difícil definir a Korrigan, ou mesmo dizer que ela é apenas “uma”. Na verdade, é provável que o nome se refira a dois tipos de seres; em bretão a palavra korrig significa “gnomo, duende”, enquanto korr significa “anão”, mas essa classificação não se aplica a todas as lendas das Korrigane, embora se aplique a algumas delas. De fato, em algumas definições, a palavra é usada para haver uma distinção dos Nains (“anões), enquanto outras igualam os dois tipos, principalmente nas regiões de Morbihan  e Finistère; o folclore europeu sobre os Changeling (crianças que teriam sido trocadas por crianças fadas durante a noite) atribui aos Korrigane a troca dos bebês, e uma criança considerada tendo origem no Outro Mundo convivia com o apelido de “pequena Korrigan”. Mas essas não são as Korrigane a que me refiro hoje.

As Korrigane de que eu falo são espíritos antigos que a habitam a floresta de Brekilien (a Brocéliande do mito arthuriano); tão belas e poderosas que são capazes de dominar o coração do mais fiel dos homens, e fazer com que ele se apaixone perdidamente pela donzela com cabelos “como fios de ouro,” e lábios risonhos, mas com ameaçadores olhos vermelhos. Em outras vezes, elas podem surgir como uma bela corça branca, pronta para atrair caçadores e cavaleiros para a floresta. Elas costumavam sempre ser encontradas junto às fontes e poços da floresta, e sua beleza é tamanha que afasta mesmo a escuridão, seja do dia ou da noite; em muitas lendas, como a do “Senhor de Nann”, é dito que as Korrigane exigem daqueles que se aproximam desses poços e fontes o casamento, em troca da permissão para deles beber. Aqueles que bebem sem a sua permissão estão fadados a morrer em cerca de uma hora, mas por vezes elas podem trazer esse destino mesmo àqueles que simplesmente se recusam (nesse caso a morte viria em três dias); algumas versões ainda dizem que elas seduzem homens para afoga-los em seus poços . Os camponeses dizem que ela (ou elas; de acordo com um antigo poema bretão, Ar Rannou, existem nove delas, “que dançam , com flores em seus cabelos, e vestidos de linho branco, ao redor da fonte, sob a luz da lua cheia”) é uma antiga princesa pagã da Armórica, e que foi banida para a floresta pela chegada do cristianismo, ao qual ela negou se converter; outros dizem algo parecido, que elas eram sacerdotisas pagãs que recusaram a cruz.

As ligações da Korrigan com a antiga espiritualidade britânica é clara; o mito das nove sacerdotisas sagradas é encontrada tanto no mito galês (como as nove donzelas do Outro Mundo cujo sopro acende a chama que aquece o Caldeirão no Preiddeu Annwn) e na pseudo-história das descrições romanas (como na descrição de Pomponius Mela, das ilhas Cassiteridas, habitadas por nove sacerdotisas virgens, com dons de cura e divinação); a crença em um conjunto de espíritos femininos que viveria no isolamento é um padrão comum na mitologia céltica. Vale lembrar que elas recusam a conversão cristianismo e por isso são banidas, o que pode indicar que elas pertencem ao passado selvagem, viventes na floresta e que não tinham mais lugar no mundo cristão que surgia (de fato, é dito que elas odeiam padres, igrejas, e a Virgem Maria). Em algumas lendas bretãs é dito que elas podem predizer o futuro (fornecendo mais uma ligação com a descrição de Pomponius Mela), em outras elas roubam crianças e trocam por filhos das fadas, mas nitidamente seu papel é no paganismo anterior. A sua ligação com os poços e fontes, ambos lugares sagrados para o mundo céltico, é uma pequena evidência de uma possível sacralidade anterior na figura das Korrigane, pois são pontos de oferenda, bem como entradas para o Outro Mundo; afogamento é uma das formas que conhecemos de sacrifício dos Gauleses, e as lendas podem guardar um resquício dessa prática, ou mesmo sugerir a fúria de um espírito antigo que reclama sua parte deste mundo quando esta se aproxima. A ligação com a morte é tamanha que suas lendas sempre dizem que elas não saem de perto de suas fontes e poços, a não ser no Samhain (a noite do dia 31 de outubro), quando elas se aproximam dos dólmens e menires para espreitar.

A lenda das Korrigane pertence ao mundo do mito britânico; talvez não fossem deidades no sentido estrito da palavra, mas eram espíritos respeitados e temidos no mundo antigo. Ainda que normalmente pareçam hostis à humanidade, em algumas poucas lendas há a sugestão de contato benéfico com elas. Elas habitam os lugares sagrados da nossa tradição, dólmens, menires, fontes e poços sagrados. E são um eco do passado pagão que resistiu (voluntariamente, de acordo com a lenda) ao cristianismo; por isso, merecem nosso respeito, e pelo menos uma lembrança delas junto aos espíritos da natureza no Samhain; porque

E korole nao c’horrigan,
Bleunvek ho bleo, gwisket gloan,
Kelc’h ar feunteun, d’al loar-gann.

(“Dançam nove Korrigane,

Com flores nos cabelos, de branco vestidas,

Ao redor da fonte, sob a lua cheia”)

Villemarqué, Barzan-Breiz

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