III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

Um ano se passou desde a segunda edição do Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta; um ano de muita expectativa para muitos, pois a terceira edição do evento (de caráter itinerante) seria realizada no estado do Rio Grande do Sul, um retorno à sua região natal (a primeira foi realizada em Florianópolis, Santa Catarina, organizada pelo grupo Caer Ynis), e organizada por Bellovesos Isarnos. Desde que isso foi decidido, a organização do evento foi nos presenteando com informações sobre o que estava sendo preparado, o lugar escolhido, e as palestras também foram sendo divulgadas. A expectativa era algo muito natural, pois tudo indicava que seria um evento único na história da espiritualidade céltica no Brasil. E ele o foi, de fato.

O EBDRC tem um caráter único entre os vários eventos pagãos do Brasil: por ser voltado a apenas um ramo do paganismo (o Druidismo e o Reconstrucionismo são ambos facetas do mesma espiritualidade céltica), os participantes possuem uma convivência, seja física ou virtual, extremamente ativa. Trocamos artigos, recomendamos o trabalho uns dos outros e, principalmente, interagimos como parceiros e amigos. Isso faz com que o Encontro seja sempre uma reunião de amigos, de parceiros e velhos camaradas; também por ter essa abordagem mais específica, suas dimensões são menores, o que aumenta o clima intimista dentro do evento. Isso tudo ajuda a tornar o evento especial e tão prazeroso de frequentar. E isso não foi exceção nessa edição.

A começar pelo lugar. O Sítio São Luiz, localizado na região de Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, é um deslumbre para os olhos. Mesmo pessoas que são acostumadas a viajar tem que admitir, é raro ver um lugar tão belo. Cercado por montanhas e morros, dotado de fortíssimo contato com a natureza, piscinas naturais, bons refeitórios (com ótima comida) e alojamentos vastos e confortáveis, o lugar foi escolhido perfeitamente. Mais do que digno do valor pago. E os funcionários do sítio também foram muito simpáticos, uma excelente hospitalidade gaúcha. A estrutura do evento também estava perfeita, com bom equipamento disponível, uma ótima sala de atividades, e as belas pastas com a programação preparadas pelo Bellovesos, mostrando mais uma vez que a palavra “eficiência” pode ser adotada como seu nome do meio. O clima foi quente durante todo o evento, com dias ensolarados e noites frescas, o que só ajudou.  Após reencontrar todos os velhos amigos, com a mesma simpatia de sempre, além de conhecer aqueles que nos eram conhecidos apenas de convívio virtual, tratamos de nos acomodar e desfrutar de nosso primeiro almoço no local, que já foi uma ótima prévia do que viria. A comida foi mais um dos (muitos) pontos fortes do evento.

O evento foi iniciado pelo organizador, Bellovesos Isarnos, falando sobre o caráter do evento, além de convocar José Paulo Almeida (Caer Ynis, organizador do primeiro evento) e Marcos Reis (Caer Tabebuya, organizador da segunda edição), e conduzindo uma oração ao final. Brigindo, a Senhora das Três Chamas, e Manannán, o Guardião dos Portais, haviam finalmente sido chamados, e era a hora de começar.

A primeira palestra foi do conhecido “xamã druídico”, Marcos Reis, do Caer Tabebuya (São Paulo), falando sobre a ligação entre o Druidismo e o Xamanismo, e falando sobre sua própria experiência e aprendizado na Amazônia e com as tribos indígenas. Marcos é um orador de um talento raro, e sempre cativa a plateia com suas palestras, e o conteúdo desta foi ótimo, como é de praxe. Algumas pessoas de fora podem se perguntar o porquê de trazer um tema tão “indígena” dentro de um evento voltado para a espiritualidade céltica; mas uma das bases do Druidismo é honrar os espíritos do local em que se vive, bem como os Ancestrais da Terra, e por isso a palestra de Marcos foi excelente, nos mostrando um pouco do que seria a tônica do evento. Certamente os Ancestrais da Terra ficaram satisfeitos com tudo.

A segunda palestra foi feita por João Eduardo Schleich Uberti, do Caer Itaobi (São Paulo), falando sobre altares. João é conhecido por sua dedicação a detalhes, e sua palestra foi extremamente completa, falando sobre altares em diversas religiões, desde monoteístas (cristianismo ortodoxo), passando por orientais (Xintoísmo, Budismo, Taoísmo), e pagãs modernas (Druidismo, Reconstrucionismo); João, mostrando o conhecimento que lhe é característico, nos falou sobre a visão que diferentes espiritualidades tem do altar, suas funções, formas de organização, e estética. As belas fotos que João conseguiu a partir dos templos que visitou ajudaram a ilustrar bem as palavras do palestrante, e a palestra foi bastante didática. Aposto que muita gente chegou em casa e reorganizou seu próprio altar depois dela.

Então, foi a vez de Bellovesos Isarnos iniciar sua palestra, falando sobre a origem da jurisdição dos Druidas. O tema inclui a comparação da evolução do direito entre os gregos e romanos, as informações que temos sobre a lei céltica antiga, além da legislação medieval da Irlanda e do País de Gales (com um toquezinho de lei germânica também, como se não bastasse….). Pode parecer complexo (na verdade, é), mas o senhor Bellovesos Isarnos mostrou porque é um dos druidas mais respeitados e admirados em nosso país. A palestra foi absolutamente irretocável, cheia de conteúdo, e apresentada com maestria. Além de organizar um evento maravilhoso, todos devemos agradecer a ele pela chance de partilhar um pouco do seu fantástico conhecimento. Nada mais a dizer sobre isso.

Jefferson Matthes (Ordem Walonom, Rio Grande do Sul) foi o seguinte. Através de seu trabalho com a Ordem Walonom, ele desenvolveu uma concepção muito particular sobre os ciclos lunares, fazendo um paralelo muito interessante com o ciclo dos quatro festivais célticos. A palestra teve bastante participação do público, o que mostra que o assunto teve muito interesse, e a concepção de os ciclos lunares representando uma forma microcósmica dos ciclos solares representados pelos festivais realmente foi algo muito interessante e digna de estudos. No final, foi mais uma palestra que mereceu toda a atenção.

Após essa palestra, tivemos um agradável jantar, inebriados pelo primeiro dia. O evento começava muito bem, e o clima estava ótimo. Voltamos ao salão para iniciar as conversas, regados ao hidromel de Beansidhe Iohobadb, e tudo estava tão agradável que ninguém queria ir dormir. Mas o segundo dia já se avizinhava, e tínhamos de descansar.

O segundo dia do evento começou com uma trilha, após o café da manhã, organizado pelos membros do Sítio São Luiz. Admito, não estava presente (as camas do sítio eram confortáveis demais para serem deixadas tão facilmente), mas vendo fotos e ouvindo comentários, tenho a certeza de que todos tiveram um ótimo momento de contato com a terra e a natureza.

Após o almoço, voltamos às palestras, com a doce fada das terras paraenses, Darona ní Bríghid/Mayra Faro (Nemeton Samaúma, Pará). Para quem conhece essa menina brilhante, não foi uma surpresa a palestra ter sido ótima. Ela falou sobre os Encantados, entidades típicas da Encantaria Amazônica, traçando um paralelo entre eles e os Sídhe da tradição céltica. A palestra foi bastante coesa, e se estendeu por mais uma hora além do previsto, pois todos adoraram e queriam comentar  e saber mais dessa menina que, apesar de pequena na estatura, se torna uma gigante na hora de falar ao público. Foi mais uma palestra que honrou aos Ancestrais da Terra com absoluta competência.

Então, foi a vez desse cão que vos late, Wallace Cunobelinos (Ramo de Carvalho, São Paulo). Minha palestra foi baseada nas práticas oraculares do povo celta, desde os seus tempos antigos, passando pelo período medievo, e terminando no folclore recente, onde algumas delas ainda podem ser conhecidas, enfocando principalmente uma prática escocesa das Highlands, que pode ser utilizada por qualquer um, desde que padrões próprios sejam desenvolvidos com o tempo.  Não vou me estender aqui, pois a palestra foi minha mesmo.

O Druida do Vento (de Anastácio, Mato Grosso do Sul), que impressionou a todos com seu riso, também mostrou que pode impressionar com seu trabalho. Uma nova palestra baseada nas culturas nativas, dessa vez focada na dos índios Terena. E ela foi irretocável. Muitíssimo bem explicada, muitíssimo bem ilustrada, que não pecou por falta de informação, ou por excessos em quaisquer pontos onde isso poderia ser desnecessário. Acredito que a didática seja uma das características principais desse jovem que nos apresentou uma cultura fascinante em sua estrutura social e em sua mitologia. Para pessoas que pretendem apresentar alguma palestra sobre algum povo (qualquer um), sugiro que peguem algumas dicas com ele, pois ficou provado que ele sabe como fazer isso de forma agradável e fácil de entender.

Sheilla Pereira Sabbag Uberti (Caer Itaobi, São Paulo), esposa do João, foi a próxima, com uma bela palestra (mais uma roda de conversas, só que coordenada por ela), sobre os ciclos da vida, sobre nascimento e morte, sobre o crescimento. Ainda que boa parte dela fosse voltada ao público feminino, tão mais ligado a ciclos do que o masculino, todos conseguiram entender a importância de levar uma vida com honra, dignidade e responsabilidade com o próprio corpo e com a própria vida, além da de seus entes queridos. Uma bela lição de nossa amiga Sheilla, que ensinou muito a todos os presentes, bem como ajudou muito aos homens presentes conhecerem melhor suas companheiras.

Após a palestra da Sheilla, foi a vez de Andréa Éire e Simão Proença (Caer Tabebuya, São Paulo) apresentarem danças folclóricas escocesas para o público, um dos momentos mais divertidos do evento. As danças escocesas são complexas, mas muito bonitas, e tenho de dizer, apesar de minha completa inépcia para a arte da dança, eu gostaria que essa parte fosse aumentada em eventos futuros, talvez duas horas e agregada ainda por cima à festa posterior.

A festa da segunda noite foi muito mais intensa do que da primeira. E as conversas também. Se havia alguma inibição, ela morreu após a primeira noite, e todos ali conversavam como velhos amigos (e a grande maioria o era mesmo). Um dos grandes ápices foi a dança de roda com tambores em frente à lareira, além das brincadeiras com a Gwen (minha gaita-de-foles).

O terceiro dia começou tarde, e já havia um clima de final de festa. Mas ainda havia muito por fazer. Então, após o almoço, Jefferson Matthes voltou para uma nova palestra, explicando como nasceu o seu grupo, a Ordem Walonom. Uma palestra muito clara e honesta, admitindo suas origens em uma obra de ficção, mas também de um grupo que soube como crescer e evoluir para além de seu “berço”. Hoje, a Walonom é uma força no Rio Grande do Sul divulgando a espiritualidade céltica, e deve ser respeitada como tal.

Joanna do Arco (da Tribo da Onça Parda, de Jundiaí) foi a seguinte. Joanna tem grande experiência com vivências e meditações, e foi o que ela usou, nos falando um pouco sobre os exercícios respiratórios que ajudam uma meditação, antes de conduzir uma visualização muito intensa para todos. A intensidade da experiência foi incrível, e ela contou com o apoio do Marcos Reis no tambor, para ajudar a imersão. Ótima vivência, sem dúvida.

Então foi a vez de José Paulo Almeida (do Caer Ynis, Florianópolis, ainda que agora seja também da Clareira Coré Tyba, em Curitiba), falando sobre o renascimento druídico, e o Druidismo romântico dos séculos XVIII e XIX. Muito esclarecedora, ela foi importante para nos lembrar de que esses homens foram responsáveis por trazer o Druidismo de volta ao mundo como forma de espiritualidade. Hoje em dia, muitos detratam as crenças das pessoas durante esse momento histórico, mas temos todos que lembrar que vivemos em uma época diferente, com muito mais informação do que eles. Não deveriam ser simplesmente ignorados, pois se o Druidismo renasceu, foi graças aos esforços deles. E ainda temos o que aprender com seu trabalho.

E voltamos a dançar; dessa vez, com a regência de Darona ní Brighid, que nos mostrou danças circulares sagradas de diversas partes do mundo, e de diversas épocas também. Destaque para a dança irlandesa apresentada, bem como a an dro da Bretanha Francesa, além da dança das aves. Novamente, uma atividade que poderia ser estendida por mais tempo.

Então, houve uma “mesa-redonda” (aspas pelo fato de não haver uma mesa no local) sobre a fundação do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta. As bases do Conselho foram citadas, bem como as razões de sua criação. A diretoria eleita foi apresentada ao público presente, e algumas sugestões foram dadas para os nossos passos futuros, mas ficou claro que a próxima ação deve ser a criação do regimento interno do Conselho. Mas essa semente, que foi plantada há tanto tempo, finalmente começa a mostrar seus frutos.

Então, sentimos que era a hora de encerrar o evento. Após o jantar, todos nos dirigimos em direção à área onde a fogueira nos aguardava. Após acesa, unimos as cinzas dos encontros anteriores a ela, e ali ficamos, em meditação e pensamento. O encontro chegava ao seu fim mas,  de alguma forma, nada disso deveria acabar. Então, os membros que se dispuseram foram até o fogo para realizar seus juramentos sagrados perante a Tribo presente. A maioria pediu para que sejamos unidos e leais para com nossa fé, e assim será. Marcos Reis realizou uma roda de cura para os membros que ali necessitavam, e depois nos chamou para realizar aquilo que é o maior dos atos de cura que podem ser realizados: o reconhecimento do outro. Agradecemos a cada um, abraçamos a cada um. Naquele momento, não havia mais mágoas, somente uma irmandade entre os membros. Pessoas que se conheceram naquele final de semana tornaram-se amigos. Pessoas que já eram amigas abraçavam-se como irmãos. E que esse clima nunca morra em nossos corações.

 

Amanheceu em Novo Hamburgo. Muitos já haviam partido antes do café. Outros foram logo após. Mas o evento ainda queimava dentro de todos, com certeza. Ainda queima dentro de mim, e não parece que irá se apagar tão cedo. No final, ele foi perfeito. Apesar de algumas ausências sentidas, não é possível pensar nele de forma diferente. E eu só tenho a agradecer por ter participado dele. No próximo ano, voltamos a São Paulo. Que os Deuses preservem esse espírito do evento em nossas almas até lá.

Wallace Kunvelin

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